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05.07.04 01:45
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Sónar é muita coisa
25.06.04 01:45
O que é o Sonar, então? À primeira vista, é um festival de música: alternativa, underground, progressista (não "progressiva") consagrada, inclassificável ou tudo isso junto. É uma utopia sonora onde cabe tanto o set bombante do Jeff Mills quanto o live exprimental do Maja Ratjke, uma figura imóvel emitindo ondas de chiado estático que não mudam por minutos. É onde se pode ouvir os beats da vanguarda hip hop como Beans e Prefuse 73 até os hits do Massive Attack e o lendário Guru, do Gang Starr. É onde se pode conhecer gêneros saídos do forno como grime, breakcore, politrónica, laptop folk e glitcharras. Aliás, não dá nem para dizer que o Sonar é um festival de música eletrônica: um dos enfoques deste ano foi o hip hop e o line-up traz atrações de estilos diversos como jazz, folk e música clássica. É um evento para desbravar o desconhecido e depois levantar a poeira com sets incríveis de alguns dos DJs mais conhecidos do mundo.

Mas o Sonar é muito mais que música como já diz seu próprio nome por extenso: Festival Internacional de Barcelona de Música Avançada e Arte Multimídia. Aqui pode se ver concertos áudio-visuais, apresentações de software (Funk D'Void demonstrando Reason, por exemplo, tá bom prá você?), arte digital, arte virtual, filmes alternativos, video-clipes, instalações e iniciativas inclassificáveis como as "Micro-Nações". Esta última é uma exposição sobre países abstratos como o Principado de Sealand, uma plataforma marítima em águas internacionais perto da Inglaterra onde vivem 27 pessoas e que tem passaporte e bandeira; ou NSK, fundado na Eslovênia, um território utópico coletivo sem governo formal apenas com cidadãos, burocratas e agentes.

No Sonar, tem ainda palestras, workshops e a Feira Discográfica, um espaço de negócios e compras com stands de dezenas de lojas, selos, distribuidoras etc do mundo todo . Pois é, a complexidade, diversidade e espírito inovador do Sonar faz os Homelands e Skol Beats da vida parecerem incrivelmente unidimensionais e comportados. Não é a toa que este se tornou o festival mais importante e comentado da Europa hoje.

Num Click

Sexta, meio da noite. Richie Hawtin e Ricardo Villalobos acabaram de fazer um back-to-back memorável em Final Scratch. O que é a transformação occorrida por Hawtin, que passou de super-geek de careca austera para a festeira e risonha persona de hoje, com direito a franjão electroclash loiro? Ele e Villalobos parecem tocar no chill out da casa de alguém, rindo e falando o tempo todo, até acendendo um daqueles apertados. O set vai do minimal a tecno mais acelerado, incluindo alguns clássicos como o remix do Plastikman para "Alpha Wave", do System 7. Os dois foram vistos com Sven Vath às oito da manhã cambaleando para dentro de um after hours no centro de Barça. É, o Sonar faz essas coisas com a gente.

A vertente minimal/glitch/click (grooves mais lentos, esparsos, frequências agudas em alto relevo, com farpas sonoras que oscilam entre o som de uma agulha suja e uma rádio com má sintonia) tem boa representação no Sonar, refletindo seu crescimento na Europa, com apoio forte de nomes como Sven Vath e Richie Hawtin. Matthew Dear, considerada a revelação do Sonar 2003, e seu xará Herbert fazem, respectivamente, um live e um DJ set que certamente abriram muito mais ouvidos aos ruídos e curvas do minimal.

Ainda no eixo ("axis", em inglês, com perdão do trocadalho) tecno, vale destacar o set para lá de empolgante do Jeff Mills (foto), que contou ainda com um DVD-VJ, brinquedinho novo da Pioneer para, como já enetregou o nome, VJs manipularem DVDs. Além dos discos, Mills brincava com as imagens do telão, metendo loops e efeitos. Como bons DJs rendem em bons set-ups, apagando más impressões de sets prejudicados por infra-estruturas nada redondas.

Lá fora, Tiga chacoalhou os presentes com uma sessão de groove forte e elegante, costurados por técnica precisa. É de Tiga uma das músicas do festival: devo ter ouvido seu acid house "Pleasure Was The Bass" umas cinco vezes. E ele também tocou o outro grande sucesso do Sonar: a comovente "Rocker", do Alter Ego.

Na noite anterior, os brazucas me deixaram cheio de orgulho. Instituto e Marlboro não vi, mas ouvi bons relatos. Na apresentação do Nego Moçambique (foto) eu cheguei do meio para o fim, o bastante para ver uma multidão contente rebolando seus funks/breaks tropicais. Ele estava radiante, só sorriso: saía de trás da mesa dos equipos e ia dançar na frente do palco. Mais tarde, fui sortudo de ver o que o Patife fazia numa das duas pistas internas com reforço perfeito do Cleveland Watkiss fazendo MC. Ninguém dançava. Não, só tinha gente pulando! Dá-lhe Doutor. Quebrou!

Já no hip hop/turntablism, tem dois nomes que, se Deus for justo, ainda ouviremos falar muito. Kid Koala, canadense contratado da Ninja Tune, desenhista excepcional, pianista clássico virtuoso, cujas manobras nos pratos não são desta galáxia. Fez scratches como nunca vi, movimentos na velocidade da luz, arrancando sons que eu não imaginava serem possíveis. Seu material vai além dos beats funkeados para incluir discos de comédia, baladas românticas dos anos 50 e narrações de documentário antigo ("o koala é popular por ser um ursinho fofinho e peludo mas chegue perto e você vai se impressionar com os sons assustadores que ele é capaz de fazer"). Depois tem Beans (que vem para o Sonar brazuca), contratado do selo Warp, ex-membro do Anti-Pop Consortium, um malabarista do verbo que despeja palavras como o Ronaldo dribla adversários. Vai, volta, pára, joga por cima, lança, recua… tem que ouvir para crer. Um rapper com um estilo radicalmente novo, taí algo que eu não via faz um tempinho. Revolucionário.

Teve mais: 2ManyDJs, DJ Hell, François Kevorkian, Vitalic, Billy Nasty tocando electro, o showcase do Brooklyn Beats, o break-noise do MegaDebt (barulheiros fãs da Temp, guardem esse nome), Tim Wright, Richard X, David Carretta, Miss Kittin (no lugar de Carl Cox, que deu cano) e mais e mais e mais… bom, alguém acha que os neurônios deram conta de registrar e lembrar de tudo? Ã-hã..

fotos: Fábio Mergulhão

Camilo Rocha
Camilo Rocha
Putz! Putz!
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