Psilosamples - Mental Surf
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ficha técnica
Nota: 5 / 5
Ano: 2012
Selo: Desmonta
Estilos: eletrônico
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Psilosamples - Mental Surf
Disco, que acaba de ser lançado pela Desmonta, mostra um produtor debutante com potencial incrível.
30.01.12 09:10
A referência brasileira dentro da música eletrônica já foi achincalhada de todas as formas possíveis. Curiosamente, os produtores brasileiros que buscam incorporar esse tipo de coisa dentro das suas sonoridades parecem ser os que menos sabem o que fazer com ela. Ou se cai no clichê ou no papo antropológico cultural bicho grilo, com raras excessões como Nego Moçambique, Lucas Santanna e Curumin, por exemplo. Fora isso, ou o Brasil é funk de morro, ou batuque candomblé, ou sambão, ou technobrega selvagem.

Veja bem, todos nós sabemos que o Brasil é muito mais que isso. E também não é só Megalópole inchada e gulosa ou sertão faminto e seco. São centenas e centenas de cidades de tamanho considerável, um tanto mais amenas e muito menos extremadas. Onde os olhos críticos não estão afiados buscando rachaduras e inconsistências a todo tempo. Onde a pressão do meio é muito menos esmagadora. Onde nem todo mundo está procurando o "conceito" atrás da sua "obra".

O Psilosamples começou a divulgar seu trabalho em 2008, diretamente de uma cidade como essa no sul de Minas Gerais. A cada novo release, uma nova evolução. Zé Rolê, o rapaz de Pouso Alegre, faz música com um pé fincado fundo na relva rasteira dos rincões e serras mineiras, naquela grama macia e cheia de orvalho, orvalho que molha as costas quando se deita de noite pra ver estrela. E o outro pé, esse plantado e enraizado nas influências sintéticas, analógicas e digitais de shamans auriculares do além-mar. A referência brasileira, sempre presente ao lado da global, num diálogo típico da hospitalidade mineira. "Vem cá, puxa uma cadeira, vamo conversar um poquinho".

O recorte da música brasileira apresentado é interessante. O disco mistura o roceiro, o tradicional e o relevante em doses certas. Zé Rolê já sai sampleando, sem medo de pipa ou sopa, o sumo: "Bicharada", dos Saltimbancos de Chico Buarque. Gatos revolucionários, que dormem em telhados alheios, vagabundeiam por aí como gangues obscuras e hedonistas. Libertários.
Peripécias técnicas e criatividade são destaque em Mental Surf
Peripécias técnicas e criatividade são destaque em Mental Surf
Que não se adequam ao terreno, simplesmente: o ocupam. Tudo isso misturado a um beatbox breakbeat e uma sanfona mandando ver um baião. Au, au, au. Cocorocó!!! E logo após, a viola caipira de "O Príncipe da Roça" traz no nariz o cheiro do pão de queijo, cafezinho de coador, bolo de fubá quentinho. Ambrosia escorrendo pelas bordas das tigelas. Goiabada. Queijo, muito queijo.

Musicalmente falando, o disco é uma surpresa muito feliz. Zé Rolê mostra uma variedade de talentos no disco. Fica destacada a criatividade de arranjos, em uma série de peripécias técnicas interessantes. Zé gravou o disco no computador de casa, com pouca tecnologia musical e um "microfone de R$ 1,99, daqueles levinhos de baixa impedância para não gerar ruído". Com ele, Zé capturou diversos sons ao seu redor e os utiliza no disco como as pinceladas finas que vão dando contorno ao seu universo, que desse jeito meio improvisado ganha um carisma natural.

Além disso, Zé Rolê mostra perícia nas manipulações micro-finas, lá no fundo das automações, em linhas que sobem e descem e serpenteiam dentro de softwares de produção musical. Por um lado, isso dá profundidade de detalhes ao som, cria camadas e camadas de objetos sonoros com suas próprias referências e que recompensam os ouvintes que estão mais atentos. É como se o disco tivesse uma vida mais longa, por que a cada ouvida você percebe outras coisas. Por outro lado, o disco tem uma sonoridade digital presente, algo que com um pouco mais de experiência e acesso a equipamentos melhores será facilmente ultrapassado. Mas isso não deduz de forma alguma a percepção de que se está ouvindo um trabalho muito rico. Como dito, é parte do charme.

Nesse sentido, Zé Mira alto. Suas referências são caras intensos como Richard D. James e Luke Vibert. Nada da música eletrônica derivativa e capenga de repetição infinita das mesmas coisas, sempre as mesmas coisas, sem tirar nem por. Psilosamples é música de autor. Do tipo ousado, que não se dobra a estilos. Muito pelo contrário, faz com que os estilos se dobrem à sua vontade. IDM de olhos estrelados.

É surpreendente a clareza de dicção de ideias com que "Mental Surf" se condensa após uma audição de cabo a rabo. É quase como um momento de interlocução direta com Zé Rolê, um bate-papo de 37 minutos, mas com muito conteúdo. "Meteorango Kid", a faixa número 7 dessa conversa, é um exemplo disso. Funky à brasileira com batidas de FlyLo, de olhos no além e em todos os lugares ao mesmo tempo, voando em rodas de cigarro de corda e quitutes holandeses de chocolate, misturando um pouco de tudo no seu copo alto com gelo até a borda. Vodka, cachaça, pó de estrelas, o que vier. De Pouso Alegre para o mundo.

Thiago Freitas
Thiago Freitas
everybody love everybody
comentários
1 comentários
Felicio Marmitex
"IDM de olhos estrelados"

Adorei a resenha!! \o/