Com Truise em dose dupla
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ficha técnica
Nota: 4.75 / 5
Ano: 2011
Selo: Ghostly
Estilos: synthwave
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Com Truise em dose dupla
Apresentação ao vivo e disco de estreia: tudo junto ao mesmo tempo. O futuro já está aqui.
13.12.11 08:45
É um momento difícil esse em que você se depara com a tarefa de ser imparcial com algo que lhe é muito prazeroso na esfera pessoal. Existe a ansiedade de não cometer exageiros, a preocupação de enxergar nitidamente através do nosso filtro. Por outro lado, o fã cutuca o profissional meio que dizendo: "relaxa aí e não vem cortar o meu barato". Pois foi com esse mindset conflitante que cheguei ao espaço Oi Futuro, em Ipanema: ansioso para ver um dos produtores que mais vezes tocou no meu iTunes nesse ano e com a tentativa de manter um certo distanciamento crítico.

Os shows do festival Novas Frequências já começam com uma dinâmica diferente: todos sentados no pequeno auditório completamente escuro. Isso por si só já torna diferente a forma pela qual percebe-se o show. O clima não é de festa, é de fruição cuidadosa. O público carioca compreendeu bem a proposta e acompanhou atentamente a apresentação que se seguiria.

O Com Truise ao vivo é composto por Seth Haley disparando sons e modulando frequências em tempo real e um baterista, que adiciona um certo punch ao som. A apresentação é baseada nas composições do disco Galactic Melt, lançado em junho (mais sobre, logo abaixo). Seth trabalha cada faixa separadamente, de forma bem fiel ao som das gravações, mas retorcendo e brincando com os sons, de modo que as músicas são instantaneamente reconhecíveis porém com um frescor interessante.



Mais ou menos na metade do show, o lado crítico começou a sobrepujar o lado tiete. O jovem baterista começava a cansar e perder um pouco da pegada com que começou a apresentação. Isso é um problema, tendo em vista o gigantismo da prataria do Com Truise, um dos grandes baratos das suas composições. Ao passo que a munheca do rapaz amolecia, conseguiamos ouvir a programação original da bateria eletrônica na base, ao fundo. Quando a bateria de verdade falhava, o som gravado preenchia o buraco. Lá para o final do show era quase como se o baterista estivesse ali fazendo uma certa figuração. A ideia de ter um baterista no palco é certamente bem interessante, mas não para apenas replicar o que já estava ali gravado e executado de forma mais precisa.

Assistido cuidadosamente se condensava também de forma bem clara uma fórmula. As faixas começam com um barulho digital desconexo e então colapsam no groove característico do Com Truise e se encerram com ondas e mais ondas de efeitos, num grande fade-out. Isso esfriou um pouco o público. Talvez Seth pudesse trabalhar melhor a conectividade entre uma música e outra. No mundo da música eletrônica existem casos e mais casos de artistas que reinterpretam suas composições em uma peça maior. As faixas de Galactic Melt permitiriam isso facilmente, mas a apresentação caminhou pela segurança e não pela ousadia. Ao invés do orgasmo múltiplo, a sensação do quase.

Mas no final das contas, o crítico fez as pazes com o fã. Seth ainda é um cara um tanto tímido, com um potencial muito maior que ele próprio imagina. Até o nome Com Truise foi adotado num momento do tipo: "dane-se, vou botar qualquer nome nesse projeto já que ele não vai pra frente mesmo". Mas a real é que o Com Truise com tão pouco tempo de carreira consegue ter uma coisa que muito poucos no mundo da música de 2011 tem...

COM TRUISE - GALACTIC MELT

Para falar do disco Galactic Melt, deve-se antes falar um pouco de Haley. Até a metade deste ano, o rapaz de Nova Jersey dividia sua vida entre fazer música no tempo livre e um trabalho de 9-18h como designer e diretor de arte. Isso tem um impacto grande não só nos projetos gráficos do Com Truise (todos feitos por Haley, claro), mas também na concepção e encaminhamento de seus projetos. Além do Com Truise, Haley tem alguns outros pseudônimos, cada um com clima e identidade bem definidos.

Com isso em mente, fica fácil delimitar que o Com Truise trabalha no âmbito da nostalgia sci-fi, a fascinação pela forma que se enxergava o futuro em um passado bem próximo. Tudo de forma vibrante, energética e um tanto quanto romântica. Galactic Melt condensa três anos de trabalho em um produto forte e cheio de personalidade. As duas primeiras faixas do disco, "Terminal" e "VHS Sex", dão o tom para o que se segue. A primeira introduz o clima futurista, os timbres à la Vangelis e os arpegios românticos ultrasônicos. A segunda mostra a potência da cozinha do Com Truise, com uma linha de baixo espectral que pega um tantinho das frequencias médias, e a já mencionada prataria brilhante que leva a batida simplista a um patamar muito acima da média. Sem contar a capacidade de criar hooks diretos e empolgantes, como os de "Flightwave" e "Brokendate".





O Com Truise apresenta um electro-funk sci-fi surreal de primeira, como se Wendy Carlos e Herbie Hancock fumassem ópio na boate de strip de Blade Runner e decidissem fazer um disco juntos, com a tecnologia da época. Durante o disco, surgem ritmos que se movem em diferentes cadências ao mesmo tempo, criando uma dinâmica rítmica curiosa. Surgem também melodias sutis que desenrolam como os momentos mais emblemáticos do Boards of Canada, embrulhadas em celofane empoeirado multicolorido. Músicas tocadas em mini-discs, laser discs, aparelhos japoneses ultra-modernos e já ultrapassados, abandonados em lixeiras. Música fluindo de mainframes escondidos no subsolo de arranha-céus espelhados, guardados por robôs. Música para exploração espacial por piratas hackers, fazendo foguetes com placas de arduíno e restos de micro-ondas e geladeiras. Música para sexo entre avatares em espaços virtuais imaginários ultrasensíveis. Música para cinematecas do futuro que passam somente filmes da sessão da tarde como arqueologia cultural da nossa época.

Nada disso é extremamente novo. Mas pelas mãos de Seth Haley, a referência se mostra como inspiração. Enquanto ao vivo a fórmula salta como um problema, em Galactic Melt o conjunto da obra é esmagador. Ao ouvir qualquer uma dessas faixas, em qualquer trecho, fica nítido que se trata de Com Truise. Enquanto muito do que se ouve por aí é completamente indistinto, esse cara que nem músico em tempo integral era há alguns meses construiu um estilo tão característico que o bota numa categoria só dele. Capacidades técnicas e estilo em dia. Vamos ver para onde a nave espacial Com Truise aponta nos próximos ciclos temporais.

Thiago Freitas
Thiago Freitas
everybody love everybody
comentários
3 comentários
CAio C B
CAio C B(11.01.12)
0AprovadoQueima
Com Truise apavorou nesse album!
Thiago Freitas
Thiago Freitas(13.12.11)
@carlinhos talvez o fã tenha falado mais alto haha
Carlinhos Kunde
Carlinhos Kunde(13.12.11)
2AprovadoQueima
Rapaz, que incrível. Na minha simplória avaliação, "Galactic Melt" não passa de um bolo fatiado em dez pedaços rigorosamente iguais: slow disco instrumental de timbres invariáveis de bateria eletrônica e total carência de ousadia na escolha dos synths. Alguma luz na interessante "Futureworld", ainda assim insuficiente para salvar o disco do marasmo. Ler aqui na resenha que "Galactic Melt" é "... Música para exploração espacial por piratas hackers, fazendo foguetes com placas de arduíno e restos de micro-ondas e geladeiras..." me deixou coçando a cabeça. Não me fez mudar de idéia sobre o álbum, mas confesso que dei uma balançada.