Disco lançado na metade deste ano traz compositor encontrando o próprio caminho criativo.
Ainda no espírito de fazer as pazes com 2011, o disco
We Must Become The Pitiless Censors of Ourselves do americano John Maus é um desses que está na frente nessa repescagem musical. O disco, lançado em junho pela
Upset! The Rhythm, é o terceiro da carreira de Maus e ganhou críticas entusiasmadas pela mídia especializada. Em praticamente todas elas, um fator em comum: comparações com o parceiro de trabalho
Ariel Pink. Porém, logo de cara deve se fazer algumas desambiguações. Muito embora Maus já tenha feito parte da banda de apoio de Ariel Pink e todo o tratamento estético e atmosfera empoeirada lembrem os trabalhos do Haunted Grafitti, as temáticas e influências não são as mesmas.
A diferença é sutil. Para começo de conversa, John Maus parece trazer consigo uma influência muito maior do synth pop inglês dos anos 80. Ecos de Soft Cell, Depeche Mode, New Order e Eurythmics são ouvidos nos arpegios sintetizados de algumas faixas, que estão enterrados por baixo do chiado de fita constante durante o disco todo. Em outros momentos, Maus encara o processo de composição com uma atitude punk, criando repetições neuróticas e em escalas musicais meio tortas e/ou simplistas.
A referência ao Joy Division é realmente uma das mais batidas do mundo da música e já foi feita de inúmeras formas (com resultados bem duvidosos em algumas delas), mas em
We Must Become... John Maus encarna um Ian Curtis diferente, capaz de enxergar o mundo com lentes coloridas e sem tendências suicidas. Nesse sentido, é uma das mais interessantes releituras feitas do som que surgiu na Inglaterra após a insurgência punk rock.
O universo pop mainstream também faz parte do imaginário de Maus. Porém, o cara não exalta a cultura de massa de forma idiótica e atravessa o mundo pop com um olhar crítico, propondo uma ruptura radical. Para Maus, o mundo pop é um terreno escuro e nada fértil, onde significantes se encavalam e significados não são construídos. Maus se apropria da linguagem pop e aduba o terreno com perspicácia em busca desses novos significados, ao contrário de Ariel Pink que colhe fragmentos do passado de forma nostálgica e remonta uma "era de ouro" imaginada, presente no inconsciente de muita gente.
De certa forma, Maus busca fugir da sensação de aporia completa que a arte contemporânea vem carregando nos últimos tempos. Maus além de ser compositor e cantor vem também estudando filosofia política e isso se condensa de forma apoteótica em
We Must Become... . O absurdo do synth pop existencialista de Maus mira num futuro incerto, visível por entre nuvens negras, onde os cérebros das pessoas começam a se soltar das amarras da cultura de massa e a pensar de forma emancipada.
Para encerrar de vez, Ariel e John Maus chegam a lugares bem diferentes por caminhos similares. Ariel Pink tem uma leitura romântica e nostálgica do mundo. John Maus, tem uma visão semi-neurótica da realidade, porém com uma certa agitação muito característica daquelas pessoas que estão muito perto da razão de forma muito bruta. Extremamente curioso e satisfatório.