Disco lançado em fevereiro é um dos mais contundentes do ano no mundo grime/hip-hop inglês.
Enquanto o ano vai chegando aos seus últimos momentos, é hora de olhar para trás e pinçar aqueles discos que não foram captados pelo radar rraurl no momento de seus lançamentos e dar-lhes as devidas honrarias. O disco
Peanut Butter Blues & Melancholy Jam do Mc inglês Ghostpoet é um desses casos.
O disco, lançado em fevereiro de 2011, é o primeiro lp do Mc Obaro Ejimiwe. O rapaz londrino de 27 anos e óculos fundo de garrafa começou displicentemente se envolvendo com o grime e escrevendo rimas. Aos poucos, Obaro foi percebendo que os limites impostos pela estrutura grime não serviam para dar vazão aos seus ímpetos criativos. Começou a produzir suas próprias batidas e declarou independência do coletivo a partir de onde operava. Em 2010, lançou o ep
The Sound of Strangers e chamou a atenção do connoisseur musical britânico Gilles Peterson, que em fevereiro deste ano já estaria lançando
Peanut Butter Blues... pelo seu selo Brownswood Recordings.
Talvez o que tenha chamado a atenção de Gilles para o trabalho do Ghostpoet é a forma pela qual o rapaz se posiciona. No mundo do hip-hop britânico a dicotomia se tornou clara nos anos recentes: seguidores do grime buscam se isolar no underground enquanto outros tantos miram alto nas paradas de sucesso. Bem no meio de tudo isso, porém alguns degraus acima, estava uma pessoa: Mike Skinner. O
The Streets ganhou notoriedade com uma discografia irrepreensível, que teve a capacidade de alcançar públicos muito maiores do que os guettos britânicos, sem nunca se comprometer. Skinner foi aos poucos se descolando da cultura grime, com prosa e música que são ao mesmo tempo extremamente pessoais e universalmente entendidas.
Com a aposentadoria do The Streets no início deste ano, esse lugar especial no mundo do hip-hop do Reino Unido ficou vago. De certa forma, ao ouvirmos o disco de estreia do Ghostpoet fica a sensação de que Mike Skinner e Obaro Ejimiwe fazem parte da mesma linhagem. Ambos nos parecem figuras simples e humanas, tropeçando e levantando de forma atrapalhada, vivendo um dia após o outro e tentando aprender com os erros do passado.
Obaro, porém, não tem a mesma irreverência e malemolência de Skinner, e parece ter penado muito mais nos últimos tempos. Isso se traduz em uma sensação de desamparo e confusão estampada muito claramente no conteúdo do disco. Faixas como "One Twos/Run Run Run", "Finished I Ain't" e "Survive it", escancaram os medos e angústias do autor. O registro da voz de Ghostpoet é quase sempre do embargo, do desalento, da lição aprendida da forma mais difícil. Ao mesmo tempo em que sua voz grave se contorce para dentro, as bases com elementos dubstep/2-step propelem as músicas para cima, amplificando os significados, criando um resultado final impactante.
Muito embora algumas faixas se percam em rimas um pouco bobas e repetições cansativas, o Ghostpoet compensa com três refrões matadores. As faixas "Cash and Carry me Home", "Liiines" e "Us Against Whatever Ever" são do tipo que se sedimentam no seu cérebro e se manifestam periodicamente em assovios e cantorias no meio do dia. Difícil de tirar da cabeça.
Como nas vidas de todos nós, erros e acertos se somam em um contínuo que nunca é perfeito, mas é real.
Peanut Butter Blues & Melancholy Jam é um retrato disso: um disco que tem algumas arestas a serem aparadas mas que não perde a beleza de ser uma janela para dentro de uma realidade pessoal de um alguém que vive e sobrevive como um de nós e que decidiu compartilhar isso com o mundo, com toda a imperfeição e ingenuidade de quem está aprendendo como crescer.