Entre madrugadas escuras e manhãs coloridas, duo alemão chega a seu segundo álbum
25.11.11 12:25
Quando o assunto é música eletrônica para pistas, o poder de fogo de um produtor (ou produtores) é o ponto chave para não se soar como mais do mesmo. A criatividade e a capacidade de inserir numa faixa 4X4 algo que a tire do lugar comum (um timbre, uma linha melódica, etc) são artigos raros no mercado. Essa escassez não é o caso da dupla Extrawelt.
Parte da cena alemã desde os anos 90, Arne Schaffhausen e Wayan Raabe - ambos oriundos da zona rural de Hamburgo - acumularam um bocado de bagagem até se juntarem sob essa alcunha e outro tanto até debutarem em um disco cheio (Schöne Neue Extrawelt, lançado em 2008 pelo selo de Sven Vaath, Cocoon Records). Natural então que nesses tempos de prolificidade exagerada, o duo tenha levado mais três anos até chegar a seu segundo álbum de carreira e de Cocoon, o ótimo In Aufruhr.
Quando falo do acúmulo de bagagem aqui não exagero. Os dois membros do Extrawelt (antes Midimiliz, The Delta, Spirallianz, Downhill) tiveram a oportunidade de experimentar a eletrônica desde seus primeiros passos em direção às raves e à sua explosão; o resultado dessas muitas viagens e suas diferentes paisagens se espelha em suas produções. Em In Aufruhr há um pouco de tudo que provaram nesta já longa estrada, diluído, resumidamente, em house e techno.
O álbum começa com as batidas quebradas de "The next little thing" pondo a geral pra rebolar, e a sequência com a fantasmagórica/espacial "Division dunkel" dá pinta de uma tour pelo tech-house; mas a trilha dá uma guinada e após uma trip psicodélica ("Blendwerk I") entra numa pista escura e cheirando a anfetaminas ("Leaf 43") e desemboca em algum lugar entre 91 e 93, entre The Orb e Prodigy, com "Aufwind".
Os próximos três passos são dados em um terreno mais plano e regular, mas não citar a proximidade entre "Pontiac" e um dos temas de Vangelis para o filme Blade Runner seria sacanagem...
Especialmente em comparação a seu antecessor, os momentos mais surpreendentes de In Aufruhr chegam A) numa embalagem dubstep, na tremedeira grave de "808 Slate", e B) num mergulho profundo no ambient dub atmosférico e chapado em "Schlusslicht", provas de que mesmo tendo feito um trabalho nitidamente orientado para pistas, os alemães não se vêem presos entre as paredes de um clube na hora de criar.
Essa liberdade criativa aliada ao conhecimento de causa dá ao Extrawelt cadeira cativa entre os grandes produtores de techno. Derramando cores saturadas e lisérgicas sobre melodias sombrias, a dupla faz uma bela e interessante mistura.