Desde o surgimento de Mallu Magalhães como fenômeno na internet em 2007 já se passaram 4 anos. Na época, Mallu tinha uma imagem de garota confusa, aquela introspecção desajeitada bem comum a muitos prodígios. A pergunta que muitos se faziam era se Mallu era de fato uma garota com muitas qualidades que estavam prestes a desabrochar ou se ela era só esquisita mesmo. Depois de dois discos, a resposta começou a ficar mais clara.
Pitanga, o terceiro lp de Mallu, é um reflexo do amadurecimento da sua autora, tanto como mulher quanto como compositora. O disco de 12 faixas teve o processo de gravação amplamente documentado por Mallu em seu blog, e como a própria sempre diz em entrevistas, a música contida no trabalho reflete seus sentimentos no período. E ao ouvirmos
Pitanga, enxergamos apenas uma coisa: a garota está apaixonada.
Sim, Mallu respira, compõe e canta Marcelo Camelo. Da sua forma inocente e brincalhona, a garota canta um sentimento puro e bonitinho em frases como "olha só moreno do cabelo enroladinho/vê se olha com carinho pro nosso amor/eu sei que é complicado amar tão devagarinho/e eu também tenho tanto medo". Em outras, Mallu mostra uma entrega não tão juvenil cantando coisas como "quero me bordar em você/quero virar sua pele/quero fazer uma capa/quero tirar sua roupa". E assim o disco segue com infinitas juras de amor da jovem Mallu.
A relação estreita dos dois fica ainda mais clara na sonoridade de
Pitanga. Camelo assina a produção do disco, e muitas das faixas tem arranjos que caberiam perfeitamente dentro de
Ventura, do Los Hermanos, ou em seu recente disco solo
Toque Dela. Camelo talvez seja o pai do "indie-sambinha", tão em pauta nos dias de hoje, e que também está presente no terceiro disco de Mallu. Além do samba de menino branco da PUC, Camelo traz para o disco arranjos de metais melódicos e emotivos e uma sensibilidade para pequenos detalhes que fazem o disco uma delícia para se ouvir em fones de ouvido. Mas não é como se Camelo fizesse deste um disco do Los Hermanos com uma convidada especial. Outros detalhes de produção criam um clima pueril e lúdico, que ainda faz parte do universo de Mallu. Outros detalhes tornam o disco ainda mais dela, como as letras meio em inglês meio em português, os banjos, escaletas, os assovios, etc.
Sobre a parte musial que cabe à moça, tudo ok. As composições são delicadas e sensíveis. Os vários instrumentos tocados por Mallu se combinam em momentos bonitos. E se há alguma coisa a reclamar do disco é que algumas músicas são extremamente curtas. Existem boas ideias que poderiam ser exploradas com mais desenvoltura e criar resultados mais acachapantes. O disco tem 12 músicas e apenas 32 minutos de duração (muitos deles em momentos similares). Isso ainda denota um pouco de insegurança.
Mas pequenos deslizes à parte,
Pitanga é muito gostoso. Estariamos diante da nossa versão tupiniquim do século XXI de Yoko Ono/John Lennon, June Carter/Johnny Cash, Elis Regina/Ronaldo Bôscoli e outros tantos casais que entraram para a história fazendo música juntos? Contanto que o relacionamento não se torne um caos à la Eike/Tina, o futuro parece promissor para a parceria. E se não, vamos ver o quanto mais Mallu amadurece para um quarto disco....