Em seu novo álbum, Anthony Gonzales acerta em algumas canções mas erra ao exagerar no tamanho de seus sonhos
30.09.11 15:25
Não é de hoje que Anthony Gonzales anda às voltas pelo mundo dos sonhos. Mesmo nunca tendo explicitado antes (em nomes de álbuns), o francês que é corpo e alma da ex-dupla M83 anda de braços dados com Morfeu desde que decidiu fazer música, lá no começo dos anos 2000.
Não surpreende então que o último álbum do M83 se chame Hurry Up, We're Dreaming.
Em entrevista à Spin, em junho, Gonzales disse que o disco seria sobre os diferentes tipos de sonho nas diferentes fases da vida, da infância à vida adulta. Para um conceito tão abrangente, um projeto ambicioso: um álbum duplo.
Tal ousadia pode ter basicamente duas consequências; ou o disco em questão é um clássicos ou um lixo. Estranhamente, no caso de Hurry Up, nenhuma das alternativas é verdadeira.
O disco não é dispensável por trazer belos momentos entre suas 22 faixas; e não é raro por trazer também outros momentos pouco inspirados, seja nas horas de imersão seja nos upbeats.
O shoegaze sintetizado do M83 está aqui, bem como a ambient music, o pós rock, o dream pop, a eletrônica de viés oitentista e a melancolia, mas de um modo geral a impressão é que Hurry Up apresenta um Gonzales menos vago e low profile, mais disposto ao pop. Basta ouvir "Midnight city", segunda música do primeiro disco, algo como o Human League remixado pelo Justice com um solo sem vergonha de sax no final.
Na outra ponta dessa linha pop estão a beleza triste e quase acústica de "Soon my friend", "Wait" e "Splendor", três canções doloridas e emocionantes, baseadas em acordes de violão e vocais sonhadores. No caminho do meio, o indie rock/shoegaze aparece básico e barulhento em ótimas músicas, como "This bright flash", "New map", a folkie "Year one, one UFO", "Steve McQueen" (lembrando o Chapterhouse) e no mergulho profundo de "Echoes of mine". E costurando tudo isso, surgem alguns interlúdios instrumentais para tomar - ou perder - fôlego.
Em Hurry Up, We're Dreaming há também a participação de convidados especiais: Brad Lerner (da banda indie dos 90's Medicine), a antiga colaboradora de Gonzales Morgan Kibby, a neo-gótica Zola Jesus e o baixista Justin Meldal-Johnsen, que produziu o álbum.
E no fim das contas, um disco duplo saiu realmente como exagero. Se limado, Hurry Up se tornaria mais enxuto e menos cansativo, e haveria aí um destaque natural para as boas composições de Gonzales, que desta vez pecou pelo excesso.
Midnight City é uma das músicas mais incríveis que eu já ouvi. E concordo contigo: um álbum só, melhor selecionado, teria dado ao HUWD algum título entre os melhores da cena club de 2010.