Gui Boratto - III
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ficha técnica
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2011
Selo: Kompakt
Estilos: techno
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Gui Boratto - III
23.09.11 12:55
A melodia é implacável. Não se pode ficar indiferente diante de uma melodia. Um boa melodia canta palavras que não existem nos nossos ouvidos. Uma boa melodia é tão poderosa que muitas vezes se sobrepõe aos outros pilares da música, deixa de escanteio ritmo e harmonia. A melodia é um veneno, que escorre velhos pecados e arrependimentos e, ao mesmo tempo, pode ser como uma brisa de um perfume que você não sentia há muitos anos. Se algo é definidor do som criado pelo paulistano Gui Boratto é a capacidade de criar melodias únicas. E isso é muito complicado. Enquanto em seu trabalho anterior, o disco Take My Breath Away de 2009, Gui carregou nas tintas e criou algo que talvez tenha frustrado um pouco quem lhe conheceu por conta de seu primeiro disco, em III o glacê foi cortado em proporções consideráveis, deixando o álbum mais palatável para quem é diabético.

III parece um estudo meticuloso das ondas sonoras e como elas atingem a medúla, se diluem no sangue, e vão invadindo a caixa toráxica de quem ouve. Quase como uma viagem insólita para dentro dos mecanismos que regulam o nosso relógio interno. Essa parte técnica do disco é extremamente bem resolvida e os anos de experiência, como vinho bom que fica guardado na adega certa, ajudam a criam mixagens cristalinas, que abrem espaço para a composição segura de Gui. Por mais que os pequenos barulhos industriais entrem e saiam de fase em momentos confusos e você sinta que a música está a um fio de se perder, Gui sabe exatamente como criar o máximo de tensão sem que a corda arrebente. O alívio vem sempre no momento certo. A paleta sonora techno com cara de Gui Boratto.

O clima também muda. Enquanto Take My Breath... era otimista e agitado, III é contemplativo e obscuro. Em algumas horas ouvimos traços de Portishead e Massive Attack. Em outros, Gui cita a si próprio nos seus momentos mais lânguidos e sorrateiros. Certamente, Gui Boratto deve estar saudoso de épocas antigas. A sonoridade em muitos momentos do disco é gótica. Passagens prenchidas de luz seguidas por trevas profundas, como na faixa "The Drill". Gui é malévolo, traiçoeiro e movediço em "Stems From Hell". Em "Striker", o baixo analógico palhetado é acompanhado da já característica guitarrinha campy com trêmolo num resultado que lembra um EBM digital. As três últimas músicas fecham o disco mudando tons menores por maiores. "This Is Not The End" é doce, sublime. Candidata a hit mundial, coletânea da Hed Kandi e tudo mais.

No fim, cada música conta sua própria história. Não é como se Gui estivesse querendo levar cada faixa para um rumo, grampeando tags como "4x4" ou "techno" ou "minimal" em cima de cada faixa para fácil catalogação. É claro que em alguns momentos Gui faz música amparado por essas estruturas. Mas ele já está além disso. Esses elementos reconhecíveis são como a estrutura poética do soneto: pode parecer restritivo no começo, mas a partir do momento em que o artista entende as regras do jogo, ganha uma liberdade absurda.

Se o álbum tivesse algo a dizer, diria: "Isso não é música utilitária". Em III, Boratto pegou todos esses elementos musicais (que ele conhece tão bem de incontáveis pistas de dança ao redor do mundo e extenso trabalho de estúdio) e transformou em algo que representa muitas das suas influências, com estilo e precisão. Precisão para gerar significados à partir de objetos sonoros completamente abstratos. A comunicação nesse nível é algo extremamente prazeroso. No fim do disco fica até a sensação de querer dizer um "obrigado".

Thiago Freitas
Thiago Freitas
everybody love everybody
comentários
7 comentários
EXTREMA
EXTREMA(13.10.11)
0AprovadoQueima
Olá... Visitei sua página e certamente notei que gosta de música.
Se tiver um tempinho visite meu site e lá vai encontrar o item Guitarras.
É muito legal, você inclusive poderá tocar. É só procurar porque tem vários links, mas você acha com certeza. O site é:
http://www.sitesuperlegal.com
Obrigado
Carlinhos Kunde
Carlinhos Kunde(03.10.11)
1AprovadoQueima
Perfeito, Gui. Vale ressaltar que gostei muito do disco, mas fiquei realmente com a pulga atrás da orelha quando ouvi "The Drill" e achei semelhante à linha de baixo da faixa do Chardronnet. De qualquer maneira, "The Drill" ficou fodona. Gracias pelo esclarecimento =)
Guilherme Boratto
1AprovadoQueima
Valeu Thiago! Adorei a resenha. Quanto elogio hein? Pura poesia.
Abç pra galera do Rraurl!!!!! Sempre me prestigiando!!!!!
Guilherme Boratto
2AprovadoQueima
Carlinhos, "The Drill" é a única música velha do "III", feita em março de 2005, na mesma época de "Arquipélago". A Kompakt não quis lançá-la pois estava querendo se livrar do "shuffle", batida a qual a fez nótória, a categorizando como 'Cologne Techno". Venho tocando ela desde então.
Não tem a mínima relação com o Oxia, que veio depois, e que sim, chupou "Eve By Day" do meu brother Patrick. Mas eu tive uma inspiração, sim. E ela foi "Doctor Who", precisamente a versão do Orbital. Valeu!
excelente, como sempre!