Trio volta à DFA com sua boa mistura entre house, disco, rock e pop. Mas não espere outra "House of jealous lovers".
02.09.11 13:05
É impossível falar em Rapture e não falar em "House of jealous lovers". Se a banda não tivesse lançado este single em 2002, nada que fizessem depois serviria como base para comparações. Sorte deles à época, e consequentemente azar eterno.
Luke Jenner e cia. colheram tantos frutos quanto se é possível com essa faixa, financeira e culturalmente, mas depois dela e de sua estreia em disco (com Echoes, de 2003) ficaram estigmatizados como reis do pedaço. E como expectativas demais geralmente terminam em grandes frustrações, veio o segundo álbum (Pieces of the people we love, 2006) e nele não havia nada como "House of jealous lovers". Nem como "Out of the races and onto the tracks", na verdade. E lá se foi o reinado.
Hoje, cinco anos depois, o estigma ainda persegue o Rapture no lançamento de seu novo trabalho, In the grace of your love. Se não fosse assim, o grosso das opiniões especializadas não gastaria linhas e linhas descendo a lenha no disco e buscando uma suposta continuação (ou substituta) para "House of".
In the grace of your love é o Rapture em sua essência - inclusive por sua volta à DFA - aquela mistura da estética pós-punk com batidas de house/disco gerando música para dançar, ora com guitarras, ora com sintetizadores, ora com ambos.
Seguindo a linha das comparações, é bom avisar que o álbum não tem um hit explosivo, que não é cru e histérico como Echoes nem super produzido como Pieces, e assim como ambos não tem nenhuma coesão aparente. Se para você isso é um problema, melhor passar longe.
Caso contrário, trilhar os caminhos de In the grace se torna uma experiência agradável. Começando pelo final, "It takes time to be a man" é uma agradável surpresa, algo como a visão do trio para a soul music, com sax, backing vocais gospel e direito a um ‘aleluia' no coro. Na outra ponta, "Sail away" abre o disco dizendo para não olharmos nunca para trás, mas seu climão de fim de anos 70 e cara de "Heart of glass" do Blondie move o corpo justamente em direção à mesma disco music que orienta a ótima "Never die again", com linha de baixo pulsante e potencial para se tornar hit em pistas modernas. A house music bate o ponto lenta, quebrada e acompanhada por uma aguda guitarra pós-punk na faixa-título; com os graves pesados de dub e um loop de acordeon na primeira metade de "Come back to me" (a segunda metade é mais seca, sintética e interessante) e com um piano deliciosamente nostálgico em "How deep is your love?", primeiro single extraído do álbum.
O 'rock puro' aparece pop em "Miss you"; se aproximando do shoegaze com "Blue bird" e surpreendente na psicodélica à anos 60 "Rollercoaster", talvez uma homenagem aos texanos malucos do 13th Floor Elevators. Resumindo, a história de In the grace of your love - e provavelmente de tudo que o Rapture fizer - é a seguinte: apague "House of jealous lovers" da memória e verá que a banda nova iorquina nunca foi revolucionária, mas também nunca foi medíocre; cada um de seus álbuns traz boas canções e outras nem tanto, e livre de injustas comparações são trabalhos dignos. Não geniais, mas realmente dignos.
Democracia é isso. Mas eu acho a voz de Luke Jenner insuportável. E ele se esforça, porque durante as 11 faixas, Luke esganiça, desafina, geme, chora e falseteia (ou tudo junto, como em "Blue Bird"), mas depois de quase uma hora dessas notas agudas semi-tonadas rebatendo nos tímpanos (experimente ouvir os últimos 40 segundos da faixa-título), me deu vontade de correr pra qualquer coisa da Sade, porque tudo que eu queria era alguém sussurrando macio no meu ouvido. E o Rapture continua acreditando que misturar Chic e Sham 69 é barbada: basta jogar um acordeãozinho cucaracha entre dedos estalando ("Come Back To Me"), pratos sibilantes disco ("Never Die Again") ou forrar a música com pianos house ("How Deep Is Your Love?", que graças à São Maurice Gibb, não é um cover do Bee Gees) que a fórmula dá certo. E ouvindo esse álbum algumas vezes, tive a clara sensação de que ele foi gravado num take só - do início ao fim - de tão tosco, preguiçoso, sem direção e mal-resolvido que é. Punk.
Valeu o elogio, Carlinhos! Procurei ser justo com o disco, porque achei que ele tem momentos realmente bons. Mas no geral é médio, como tudo que o Rapture faz. Não gostou de nenhuma faixa? Abrazz
Procurei ser justo com o disco, porque achei que ele tem momentos realmente bons. Mas no geral é médio, como tudo que o Rapture faz. Não gostou de nenhuma faixa?
Abrazz