Enquanto ouvimos um par de autofalantes reconstruindo bits em ondas sonoras nos primeiros momentos de
W, percebemos que voz de Janine Rostron não é bonita. Mas a inglesa é mais um caso que deixa claro que nem só de beleza em estado bruto se faz música. Enquanto sua aparelhagem vocal não é das mais singelas, sua imaginação e poder de interpretação arrancam do ouvinte sentimentos por outras vias. Clareza de intenção que fala altíssimo, amplificada por dispositivos tecnológicos que embargam sua voz em distorção digital, muito como a colaboradora frequente Karin DreijerAndersson, do The Knife e Fever Ray.
Música que pinta imagens. No caso de
W, Janine Rostron evoca toda uma coreografia complexa de dezenas de bailarinos de alguma companhia avant-garde, encenando um espetáculo de dança contemporânea cheio de referências pop, cenários geométricos, malhas coloridas em tons fluorescentes, maquiagens dramáticas, brincando com o obscuro e pintando nuances de luz sutis. Tudo que o cirque du soleil sempre almejou ser e nunca conseguiu.
Talvez seja parte da herança musical de violinista clássica. Os arranjos são teatrais. O sax soprano (real e sintetizado, presente em todo o disco) equalizado de forma peculiar e manipulado de formas mais esquisitas ainda, as sequencias de acordes classicamente europeias, a influência de performers femininas, como Laurie Anderson e Patti Smith, na prosa simples e ironicamente sincera.
Androginia. Em canções como "I'm Yr Man" (uma das melhores do disco) e "Janine", Rostron se veste do personagem masculino para alcançar alguns dos momentos mais memoráveis do disco. Enquanto mulher, cantora e compositora, Rostron se dá o direito de soar como quer, falar do que quiser e se parecer com o que inventar. É um grito de liberdade e auto-afirmação que em nenhum momento soa pedante e traz o ouvinte para mais perto da autora.
W, o segundo disco da carreira do Planningtorock, botou a compositora Janine Rostron no mapa criativo da música de uma vez por todas.
W é um dos discos mais complexos e intricados de 2011, até o momento (tanto que uma resenha custou a sair aqui pelo rraurl). Teatralidade, composição ímpar, uma paleta sonora muito particular e interessante e uma construção conceitual inteligente.