Disco quase conceitual fala sobre computadores, supervias da informação, protocolo midi e alienação.
Nos anos 80 existia a noção de que os computadores pessoais iriam salvar a humanidade, e que jovens na posse dessas máquinas quase sobrenaturais seriam capazes de qualquer coisa. A possibilidade utópica dessa realidade cibernética ultra rápida hoje dá lugar a possibilidades muito mais praticas. A geração nintendo aprendeu a manipular os pcs e extrair deles um grande número de maravilhas técnicas, mas a que custo?
Joel Ford e Daniel Lopatin começaram a produzir música em 2010 sob o codinome Games, que teve que ser abandonado por questões legais quanto a uma banda que já existia. Lopatin tem um projeto solo, o
Oneohtrix Point Never, que trabalha texturas eletrônicas abstratas e anda recebendo muitos elogios. Ford faz parte da banda
Tigercity. Ambos tem uma paixão forte pelos anos 80 e sintetizadores, e essa paixão em comum culminou no primeiro lp da dupla.
A iconografia de
Channel Pressure é precisa. A dupla se aventura pelo mundo da sessão da tarde, buscando o arquétipo do garoto trancafiado em seu quarto com um computador pessoal e infinitas possibilidades, quase como os personagens Gary e Wyatt do impecável filme
Mulher Nota 1000. Porém o humor brincalhão de John Hughes dá lugar a uma sensação estranha de alienação e ironia.
Enquanto os nerds do filme dão a volta por cima e acabam com as garotas, o personagem da ópera 80s de Ford & Lopatin se torna cada vez mais solitário e obcecado pela máquina, quase como se quisesse deixar o mundo físico e entrar dentro do mundo de bits e protocólo midi. A tv que fica ligada a noite toda é a sua única companhia. Algumas das letras como "
They say I'm crazy/ Makin sure these cuts are right/No more lo-fi/Too much freeway/Synchronize my afterlife", da faixa "Too Much Midi", sinalizam uma desesperada tentativa de suicídio do personagem principal, enquanto o funk computadorizado de "Emergency Room" narra um trajeto de ambulância praticamente desacordado. E isso tudo pareceria extremamente pesado, se não fosse o clima ironicamente animado da instrumentação da dupla. Uma jogada muito hábil.
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Ford & Lopatin - Too Much MIDI (Please Forgive Me) (mp3)
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Ford & Lopatin - Channel Pressure (mp3)
Clichês sincerosFord & Lopatin chegam ao centro da referência oitentista. As 14 faixas que compõe o disco tem todos os tipos de clichês possivelmente imagináveis. Dá pra imaginar teclarras, baterias eletrônicas, pianos cassio, guitarristas tipo Eddie Van Halen, musica sequenciada em computadores atari, vocais em falsete a la New Kids on The Block... porém, a dupla usa uma cola adesiva extremamente moderna para costurar esse pastiche de referências retrô, de forma que tudo parece banhado em ácido e refletindo luz multi-colorida por todos os ângulos.
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Ford & Lopatin - Joey Rogers - 7A (mp3)
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Ford & Lopatin - New Planet (mp3)
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Ford & Lopatin - Break Inside (mp3)
Guillermo Scott Herren, mais conhecido como Prefuse 73, mixou o disco e seu ouvido cuidadoso fez com que as diversas camadas de som e os pequenos detalhes (e são muitos deles) entrem e saiam de foco com precisão, de forma que
Channel Pressure é o tipo de disco que privilegia os ouvintes que prestarem mais atenção. A cada audição, uma novidade.
O resultado final é um disco extremamente maduro para uma dupla que tem muito pouco tempo de estrada. Esse amontoado de referências poderia facilmente descambar para a chupinhação desacarada, mas
Channel Pressure acaba soando como uma grande homenagem a um dos períodos mais curiosos da música recente, uma homenagem sincera e até visceral, de quem talvez tenha mesmo se perdido em protocolos midi durante os anos 80s