Em 18 de abril do ano passado, PJ Harvey se apresentou no programa de Andrew Marr, na BBC inglesa. Acompanhada apenas de um instrumento chamado autoharp e de um sample de Istanbul, do The Four Lads, PJ mostrou em primeira mão a canção "Let England Shake", que sairia em seu próximo CD. Apesar de não ter sido das melhores (PJ errou acordes e não cantou bem, a autoharp tem um timbre meio tosco e o sample em loop estava desconectado do resto da música), a apresentação foi memorável.
Porque exatamente no dia em que PJ foi chamada para cantar os versos "England's dancing days are done/ Another day for you to come home/ And tell me indifference won", o convidado principal do programa era simplesmente o primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown. Coincidência ou jogada planejada, foi o sneak peak perfeito para o novo disco de PJ, que será lançado no dia 15 de fevereiro
e já está disponível para streaming.
Levando o nome da canção tocada no programa,
Let England Shake é um álbum conceitual sobre o país-natal da artista. Não é a primeira vez que ela usa um lugar como inspiração. Em
Stories From the City, Stories From the Sea, de 2000, há referências à cidade de Nova York, mas esta aparece apenas como cenário no qual se desenrolam amores, ressacas e desilusões. Em
Let England Shake, o país não é palco para dramas íntimos, é o personagem principal.
O tom narrativo do disco aparece no uso de diversas vozes entoando uma melodia e de efeitos de eco - o que remete ao recurso cinematográfico de embaçar a imagem quando esta é produto da lembrança de um personagem. PJ também explora timbres e registros vocais diversos, como se as canções fossem cantadas/contadas por pessoas diferentes. É uma boa sacada, mas também um problema: PJ não é uma grande cantora e provavelmente não conseguirá sustentar ao vivo registros agudos como o de "On Battleship Hill" - que já não soa muito bem na gravação.
Mas isso não é o bastante para abalar um disco como
Let England Shake. Sem experimentações sonoras (harmonia, melodia e ritmo, tudo é na verdade muito simples), sua força reside na relação ambígua entre forma e conteúdo. A substituição de guitarras ruidosas pela acústica autoharp resultou em arranjos delicados, que beiram o folk em "England" e "The Colour of the Earth". A inserção de metais na faixa-título e em "The Last Living Rose" confere um clima quase dançante, e o toque de globalização fica por conta do uso do sample de "Blood and Fire", do jamaicano Niney. Mas a Inglaterra que aparece nas letras não é a Inglaterra dos campos bucólicos nem a Inglaterra da Londres cosmopolita. É a Inglaterra devastada por guerras, a Inglaterra em que soldados caem como pedaços de carne ("The Words that Maketh Murder") e a terra é arada por tanques e pés marchando ("The Glorious Land"). Para escrevê-las, PJ mergulhou em uma intensa pesquisa que incluiu desde livros de história sobre a Primeira Guerra Mundial até blogs de mulheres afegãs.
Desse contraste entre a delicadeza dos arranjos e a barbárie dos versos surgem canções que passam longe da exaltação nacional e que vão além da descrição dos horrores da guerra e da crítica à política inglesa de ontem e de hoje. Elas tratam de uma inquietação que afeta qualquer cidadão de qualquer nacionalidade: como conciliar o amor pelo país (não no sentido chauvinista do termo, mas no sentido de sentir-se pertencente a um lugar e a uma cultura) e os sentimentos de culpa, vergonha e tristeza frente às atrocidades cometidas em nome da pátria?
Se a questão é impossível de se resolver, talvez reste somente transformá-la em arte. É o que PJ faz.
Cada faixa de Let England Shake virá acompanhada de um vídeo dirigido pelo fotógrafo de guerra Seamus Murphy. Os de "The Last Living Rose" e "The Words That Maketh Murder" já estão disponíveis: