Localizada no litoral do Rio Grande do Sul, Atlântida é uma típica praia da classe média (alta) gaúcha. Há muitos anos, o balneário serve de palco para um dos festivais de música mais cafonas do país: o Planeta Atlântida. Anualmente, veranistas podem se deliciar com atrações do calibre de Ivete Sangalo, Nando Reis, Exaltasamba, Charlie Brown Jr., Jota Quest, NXZero, Restart e outras derivações universitárias de sertanejo, axé e pop. Mas um novo festival, que tem como pano de fundo o mesmo céu de Atlântida e é refrescado por sua mesma brisa marinha, promete acabar com a vergonha alheia dos indies sulistas, carentes de seu próprio Coachella.
O MECA Festival aconteceu no último final de semana e reuniu, segundo a organização, aproximadamente 5 mil pessoas que assistiram a bandas internacionais (entre elas o sensacional Vampire Weekend), nacionais e DJs. O festival também contou com drinks e sets à beira-mar, além das customizações e promoções comuns neste tipo de evento. Afinal, sem bons patrocínios, a festa fica inviável.
Mas o que importa realmente aconteceu no sábado, 29. Bermudas, shortinhos, camisetas claras e leves desfilavam no fim de tarde do verão subtropical quando a programação deu início, com shows da gaúcha Wannabe Jalva e dos curitibanos Rosie And Me. A reação da platéia veio somente com a apresentação do Cocapacana Club. Prestes a lançar o primeiro álbum, Tropical Splash, a banda é item obrigatório em muitos festivais brasileiros, mas seu show nunca me convence. Estavam lá as canções pop bobinhas, o velho hit "Just do it", as belas pernas da vocalista Cacá V e pouco mais.
A atração seguinte animou os jovens corações indie com um popzinho de guitarras estridentes e refrões fáceis. Foi a primeira apresentação do Two Door Cinema Club no país. No domingo, a banda faria o segundo show brasileiro, no Circo Voador, no Rio. O trio da Irlanda do Norte se transforma em quarteto nas apresentações ao vivo, com a substituição da base eletrônica por um item humano. Mas a troca não melhora a música do grupo, semelhante à de várias outras de sua geração. "É o Foals?", perguntou um sujeito a meu lado. Mas como nunca há a unanimidade, tinha muita gente curtindo o som dos meninos. Mais à frente na platéia, chamava a atenção um garoto, sentado nos ombros do amigo, enviando sinais de "I love you" com as mãos juntas em formato de coração.
"This is our first ever time in Brazil", disse ao microfone o vocalista Alex Trimble, alisando sua franja à Justin Bieber, "e nós tivemos um dia maravilhoso na praia".
Esperei um tanto impaciente até o hit "Something Good Can Work". A canção terminou de um jeito estranho, mostrando uma certa falta de prática da banda. No Club Stage, o som techno de Fabrício Peçanha chegou a soar desopilante. A alteração na programação (a produção dos DJs Layo & Bushwacka exigiu que a dupla se apresentasse no palco principal) e a falta de informação causaram uma certa confusão no público, que ia e vinha de um palco a outro.
O grande show da noite começou com a batida sincopada e as guitarras cruas de "Holiday". Depois de uma breve ovação, o Vampire Weekend emendou com "White Sky", enquanto o público, que se concentrava sobre a tenda principal, pulava como se o carnaval já tivesse chegado.
"This is our firts time in Brazil", disse, parecendo satisfeito, o vocalista com nome de poeta Ezra Koening.
Muitos aplausos, a platéia sabia que estava diante de algo importante. Em mais ou menos uma hora, o Vampire Weekend mostrou com perícia aquela música deliciosa que eles classificam de Upper West Sider Soweto. Um amálgama da melhor tradição artsy novaiorquina (pense em Velvet Underground, The Modern Lovers, Talking Heads) com pequenas doses da extravagância étnica da música africana. Fucking cool, pra resumir em duas palavrinhas. De uma forma minimalista, como se tivesse levado tempo pra retirar todo o excesso, o grupo foi envolvendo a platéia com sua cozinha enxuta, timbres sujinhos de teclado, gritinhos agudos, refrões inteligentes, vocais com efeito Auto-tune-voz-de-pato, guitarras limpas mas não menos punk.
"Essa é uma canção sobre a rua 79, nós somos de Nova York". E lá veio "M79". "A próxima é nossa música mais fácil de dançar." E toma "A-Punk". Em "Cousins", o povo ao meu lado caiu no frevo, o que me fez pensar se os vampiros não curtem também um bom Pepeu Gomes. Em "Horchata" quase chorei. E antes de encerrar (sem bis) com "Cape Cod Kwassa Kwassa", Ezra se despediu explicando que aquela era uma canção de adeus: "Ela é sobre partir. Nos vemos no futuro."
A platéia começou a dispersar antes mesmo da apresentação dos Twelves, que acabou acontecendo no palco principal. O set demorou um pouco a engrenar, mas se provou eficiente, com aquela mistura electrofunk de hits indie e clássicos disco, tudo mexido, colado, recortado e muito bem executado. Quando o DJ Layo assumiu (aparentemente Bushwacka deu o cano) o ambiente começou a se envolver em trevas. Para onde foram todos indies? Ao lado, o Club Stage havia encerrado as atividades e a casa noturna que abrigou o festival abria as portas para o público habitual. E as bermudas, shortinhos, tênis All Star, sapatilhas e camisetas leves foram bruscamente substituídas por microssaias, saltões, tênis de mola e camisas com números e brasões.

Eu fora. Horas depois, na beira da praia, contemplando o nascer de uma lua minguante cor de fogo, pensei em como seria legal ter um bom festival de música no litoral, coroando a temporada de verão. Apesar de algum equívoco na programação , da falta de bebida no final da noite e da comunicação um pouco truncada, o MECA Festival tinha cumprido minhas exigentes expectativas. "Quem dá bola pra organização depois de um show desses?", comentou um amigo após a apresentação do Vampire Weekend. Ele tinha razão. Eram apenas detalhes, facilmente corrigidos numa próxima edição. Tomara que o evento tenha cumprido também as exigentes expectativas dos patrocinadores, pensei olhando a lua.