Obras primas são, sem exceções, pirações de seus idealizadores. Algo que na hora todo mundo pode ter achado loucura, que nunca iria funcionar, mas que pela força de vontade de alguém, torna-se possível. O gatilho pode partir de uma noite de bebedeira, de um sonho qualquer ou apenas de uma grande ideia maluca e ambiciosa. E foi com uma ideia dessas - a de aprender partituras de música clássica em um instrumento de sopro não muito comum, o fagote - que o líder do These New Puritans, o cantor, compositor e multiinstrumentista Jack Barnett, criou e também produziu a obra prima da banda: Hidden. Ele e seus comparsas: o irmão gêmeo George Barnett (bateria), Thomas Hein (baixo, samplers, bateria) e Sophie Sleigh-Johnson (teclados, samplers).
A primeira vez que você ouve o álbum entende perfeitamente o significado do gênero art rock (que, pra ser bem sincera, eu nunca havia entendido direito). É como uma peça de música clássica abstrata o suficiente para lembrar um quadro do Pollock. Tudo está ali para representar um sentimento, uma sensação, algo que Barnett pensou e repensou antes de colocar ali. E, não à toa, fez um dos melhores álbuns de 2010 - eleito em primeiro lugar na lista anual do semanário inglês New Musical Express.
Barnett ganhou pontos também por fugir do convencional. Se todo mundo esperava que ele fosse fazer um segundo Beat Pyramid, se enganou. O cabeça do These New Puritans saiu totalmente de sua zona de conforto e foi embora explorar novas sonoridades. Em uma de suas declarações mais piradas, disse que estava ouvindo muita música da Melanésia, região da Oceania que compreende as ilhas Molucas, Nova Guiné, Salomão, Vanuatu, Nova Caledónia e Fiji. Dá uma olhada no Youtube e divirta-se.
A música da Melanésia pode ser até bem alegre, mas o tom que Hidden acabou ganhando é fúnebre e pode ser notado na música instrumental de abertura "Time Xone" e também no interlúdio "Canticle". Para acompanhar a sonoridade robusta do fagote, que tem o som mais grave dos metais, foram escolhidos órgãos, samplers sombrios e batidas precisas e fortes. No álbum, todas as faixas contaram ainda com o reforço de uma orquestra tcheca.
E, embora a banda não consiga reproduzir toda a complexidade do álbum em seus shows, fez uma série de apresentações da turnê Hidden Live em lugares incríveis, como o Centre Georges Pompidou, em Paris, e o Barbican Centre, em Londres, no final do ano passado, em que incluiu uma orquestra de cinco músicos que tocam instrumentos de sopro.
"We Want War", a segunda do álbum, é a mais marcante. Com um uma pegada meio oriental, a faixa tem samplers que vão em todas as direções. Um deles traz uma voz arrastada que acompanha um vocal sinistro que sussura: "we want war" (nós queremos guerra). A música tem bastante elementos de hip hop, o que, vá lá, não é exatamente novidade para a banda, já que foi a influência mais persistente em Beat Pyramid. Desta vez, Barnett descreve o novo trabalho de um jeito bem pouco convencional, mas muito preciso: dancehall encontra Steve Reich - o cara que, de certa forma, "inventou" o minimal. Dá pra imaginar?
Mas "We Want War" passeia por outros momentos diferentes, que remetem ainda ao... witch house. Acredite você ou não, a voz de Heather Marlatt da banda mais sombria de Chicago, o Salem, está lá. O cut & paste (copie e cole) e chop & screw que estão sendo tão falados agora também foram usados pelo These New Puritans nesse disco.
O tom sombrio continua na terceira faixa do disco, "Three Thousand", cujo piano parece ter saído de algum filme de vampiros. E adivinha quem remixou a quarta faixa, "Hologram", a música mais calma e limpa e com vocal cristalino de todo o disco? O Salem, claro, numa espécie de "troca de favores". O remix até começa bem seguindo uma linha ambient, mas logo descamba pros vocais graves artificiais que marcam a música do Salem.
O ambient é outra influência bem presente em "Hidden", mas não como o conhecemos. Certa vez, Barnett disse que uma das maiores influências da banda era o Aphex Twin. E talvez ele nem precisasse dizer isso se tivesse mostrado "Attack Music" antes. É Aphex Twin com instrumentos de sopro e coro infantil. Gênio.
Outros bons destaques do álbum ficam por conta de "Fire Power", que é o petardo do disco. Mais rápida e pesada que as outras, a música é levada por uma percussão progressiva hipnotizante. A grandiosidade de "Orion" fica por conta do coro gospel/gótico.
No meio de tantos lançamentos legais e mais "hype" que o These New Puritans em 2010, Hidden acabou subestimado. Mas vale dar uma nova chance com a cabeça fresca agora em 2011.