Lunatic Jazz - Our House
A coletânea comemora os 3 anos de trajetória do selo paulistano.
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ficha técnica
Nota: 3.75 / 5
Ano: 2010
Selo: Lunatic Jazz Records
Estilos: house, deep house
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Lunatic Jazz - Our House
"Se você prestar atenção em como o mercado de dance music vê o Brasil hoje, não é muito diferente de como os colonizadores nos viam a 500 anos atrás."
14.12.10 15:20
Desde que as conexões de internet ficaram rápidas o suficiente para trocar arquivos de som em qualidade satisfatória, a industria fonográfica vem rebolando incessantemente para encontrar seu lugar nesse paradigma. Enquanto as majors se descabelavam vendo as músicas de seus grandes nomes sendo compartilhadas de forma indiscriminada e as vendas caindo vertiginosamente, os pequenos selos underground também sofriam com o custo cada vez maior de se produzir os tão estimados discos de vinil ou CDs. Todo o processo de pós-produção, prensa, divulgação e distribuição se tornava inviável, ao passo que os usuários agora preferiam arquivos digitais, muito mais baratos, cômodos e portáteis (nem vamos entrar no mérito da pirataria). A solução parecia clara: migrar o mais rapidamente possível para as novas plataformas de downloads digitais, como Beatport, Juno e tantas outras.

Lunatic Jazz


Para Jota Wagner e Bruno Camargo, os idealizadores do selo Lunatic Jazz Records, isso gerou um grande problema para novos artistas em busca de projeção. Enquanto a roda da novidade gira em revoluções cada vez mais rápidas, os pequenos arquivos digitais são tratados como mercadoria dispensável. "Sabiamos que a facilidade e o custo zero em se colocar música digital à venda traria ao mercado muitos e muitos labels amadores com qualidade de serviço bem discutível. Um selo tem uma responsabilidade muito grande sobre a obra de um artista.", pondera Jota sobre o papel dos selos nos dias de hoje.

A proposta da Lunatic Jazz é seguir um caminho oposto dessa comoditização, tratando cada música de seus artistas como um grande patrimônio, e a comercialização deste patrimônio é apenas uma das pontas de um plano muito maior. Todo artista da Lunatic Jazz assina com o selo, algo que Jota e Bruno fazem questão de frisar, e a partir daí muita coisa acontece.

LJ022 - The Walk - Pistolpuma & Ivaylo by lunaticjazz

"Cuidamos de uma parte importantíssima da vida de um artista que é o gerenciamento da sua criação intelectual, incluindo toda parte de coleta de direitos autorais de nosso catálogo... Somos afiliados às principais sociedades de coletas de direitos autorais e execução pública no Brasil, Europa e Estados Unidos. Na parte de licenciamento trabalhamos com supervisores musicais de grandes estúdios nos EUA, onde somos representados pela BMI. Trabalhamos também com pesquisas tecnológicas e regulatórias anti-pirataria e monitoração das execuções públicas", explica Bruno. Além de toda a parte burocrática, tudo que é lançado pela Lunatic Jazz recebe tratamento de luxo quando o assunto é qualidade de audio. As faixas são enviadas para a Inglaterra onde são então masterizadas no estúdio Reverberations, de Asad Rizvi. "Nenhuma faixa da Lunatic Jazz é masterizada usando plug-ins.". Segundo Bruno Camargo, tudo é feito com equipamentos de compressão e equalização analógicos.

A trajetória da Lunatic Jazz Records começa muito antes do primeiro lançamento em novembro de 2007. Jota e Bruno estão construindo parcerias e estreitando contatos desde meados dos anos 90, que hoje rendem diversos frutos para o selo. Todos esses anos de experiência direta com a cena underground deu uma visão clara do que é necessário para o desenvolvimento dos artistas do selo. "Toda essa estrutura não se constrói da noite para o dia: além do acesso à indústria musical que é muito difícil, o conhecimento para coordenar todas as filiações e fazer disso um negócio é um desafio constante e para isso, além de estudar e ralar muito, também participamos de eventos e congressos como o Amsterdam Dance Event para trocar idéias e ajustar o rumo do selo." afirma Bruno, que reside na Holanda e cuida mais de perto de toda a parte de licenciamento e copyright do selo.

O duo Anhanguera
O duo Anhanguera


Tudo isso se torna relevante com os lançamentos de qualidade do selo, que faz questão de se afirmar brasileiro e paulistano. "Identificamos a falta de amor próprio do brasileiro em relação à sua arte como um dos principais problemas da cena nacional. Se você prestar atenção em como o mercado de dance music vê o Brasil hoje, não é muito diferente de como os colonizadores nos viam a 500 anos atrás, quando vieram trocar espelho por ouro com os índios. A maioria das supermarcas mundiais vê o Brasil como 'um grande espaço pra festas' com mulheres lindas, dinheiro fácil e lugares paradisíacos." Jota Wagner acredita que só com trabalho sério é possível colocar a música brasileira em um patamar de respeito no cenário internacional. E nesse espírito, o selo olha para sua história recente, comemora e aponta para um 2011 cheio de novidades.


LUNATIC JAZZ - OUR HOUSE, O ÁPICE DE 3 ANOS DE HISTÓRIA

Para início de conversa, a coletânea Our House conta com 14 faixas e vem em formato de faixas soltas e também num set mixado pelas experientes mãos de Jota Wagner, que muita gente conhece como uma das metades do Colours Sound System.

Toda esse preocupação com mixagem e masterização de qualidade fica perceptível logo na primeira faixa. "I'm A Man", de Funky Transport e Giles Walker, mostra um disco house encrustrado de pequenos detalhes percussivos e uma linha de baixo galopante. Acordes sintetizados carregam emoção pela faixa. Tudo muito claro, nítido e gostoso de se ouvir.

LJ018 01 FunkyTransport and GilesWalker Im A Man Original by lunaticjazz

A tônica da Lunatic Jazz Records é a house music, e nesse registro a coletânea traz diversos números de extrema qualidade. A dupla Anhanguera mostra a finesse e precisão de sempre na faixa "Disco, Dub and Delicious". Outro destaque fica por conta de "Flut", de Rafael Accorsi, que recebe um remix eficiente dos ingleses do Sound Diggers.

Flash Content
Rafael Accorsi - Flut (The Sound Diggers Remix) (mp3)


LJ015 Anhanguera Disco Dub And Delicious by lunaticjazz

Outra faceta da sonoridade do catálogo da Lunatic Jazz Records é a predileção por sonoridades..... lunáticas, por assim dizer. O produtor Dudu Marote conta com uma faixa na coletânea Our House com seu projeto Prztz. "Brutality", faixa feita em parceria com Honey Claws, é um exemplo dessa sonoridade mais viajandona mas que ainda mantém os pés no andamento clássico house. Outro número de respeito nessa verve mais experimental é "Understandable", do americano Mike Frugaletti. Com um pézinho no b-more e no breakbeat, a faixa tem um shuffle delicioso e timbres picotados bem moderninhos.

Brutality by prztz

LJ016 MikeFrugaletti Understandable by lunaticjazz

Em geral, todas as faixas da coletânea refletem os altos valores de produção propostos pelo selo.Fica claro que as aspirações são as mais nobres possíveis e que, se depender de Jota Wagner e Bruno Carmargo, a house music terá um porto seguro cada vez mais forte no Brasil. Se a Lunatic Jazz busca se tornar uma plataforma para o desenvolvimento de grandes talentos e intercâmbio constante de experiências entre o que vem de fora e o que se produz por aqui, está no caminho certo.

Thiago Freitas
Thiago Freitas
everybody love everybody
comentários
2 comentários
Anhanguera
Anhanguera(15.12.10)
3AprovadoQueima
Belíssima iniciativa! The Walk vai entrar até no cd de aniversário do TUTU HOUSE
BIZA
BIZA(15.12.10)
3AprovadoQueima
Ducaraleo. Texto na medida, sem faltas, nem excessos. Precisamos nos levar a sério. Somos um dos maiores pólos de dance music e cultura club do mundo todo. Uma porrada de artista bom e um mercado onde a grana nem sempre gira na mesma direção do talento. Mãos à obra pra mudar isso. Parabéns pra Lunatic Jazz.