O som que vem de Colônia sempre se diferencia por uma certa melancolia, um certo romantismo (no sentido clássico da palavra). Por detrás de toda programação de bleeps minimalistas bem característica do selo
Kompakt, sempre há um subtexto dramático bem delineado
(Gui Boratto, The Field, Jurgen Paape, etc, etc e etc, estão aí para confirmar isso). E a música de Aksel Schaufler, a.k.a. Superpitcher, não é diferente.
Tendo lançado um primeiro LP em 2004, o
Here Comes The Love, e um dos disco mais aclamados do mundo techno em 2007 em parceria com o cabeça da Kompakt Michael Mayer, o
Save The World, o
Superpitcher andou pelo mundo difundindo sua combinação de microhouse e techno enxuto de forma muito tranquila. Tanto que para a finalização de
Kilimanjaro, o alemão levou quatro longos anos de gravações esporádicas.
Parece que a ideia de
Kilimanjaro era salpicar o disco com o máximo de toques humanos, para chegar enfim a este resultado melodramático. Por todas as faixas é possível ouvir algo que, aparentemente, foi batucado por alguém ou tocado por dedos meio desajeitados. Flautas, palmas, sinos, percussão em geral e muita cantoria por parte de Schaufler contrastam com linhas de baixo diretas, batidas sem muita confusão e sequências de acordes simples. Mas esses elementos soam muito mais como meros detalhes de produção do que dispositivos musicais que alavancam as músicas a novos patamares.
A sonoridade em
Killimanjaro obviamente não tem como alvo as pistas de dança. Em faixas como "Friday Night", um dos destaques do disco, uma conjunção de pads, guitarras com overdrive e um vocal repetitivo até criam uma certa antecipação, mas não chegam a entregar o esperado clímax (veja bem, isso não quer dizer que a música seja ruim, apenas tem uma dinâmica um pouco diferente). Talvez essas tracks sirvam como ferramentas interessantes nas mãos de djs criativos, mas com certeza são melhor digeridas em ambientes calmos e em fones de ouvido.
Flash Content
Superpitcher - Friday Night (mp3)
Flash Content
Superpitcher - Black Magic (mp3)
Aspectos musicais simples sem muitas inovações, assim como as temáticas abordadas. Aksel Schaufler revisita as dores de cotovelo e
problèmes d'amour de seu primeiro LP. Em momentos, isso soa pedante e incômodo como na faixa "Give me my Heart Back". Em outros, como em "Holiday Hearts", Aksel encontra beleza, quando um arranjo de cordas dialoga com stabs sintetizados numa canção de amor ensolarada. Na faixa "Who Stole the Sun", outro destaque do álbum, Superpitcher cria uma atmosfera downtempo que beira o afrobeat, cravejada de pequenos detalhes brilhantes, como paetês em fantasias carnavalescas que cintilam de acordo com ângulo que se vê.
Flash Content
Superpitcher - Holiday Hearts (mp3)
Flash Content
Superpitcher - Who Stole The Sun (mp3)
Em suma,
Kilimanjaro é um bom disco que teve o infortúnio de ser eclipsado por outros ótimos lançamentos de 2010 no cenário techno, como
Ay Ay Ay, de
Mathias Aguayo,
Black City, de Matthew Dear,
Love Someone, de Wolf+Lamb e
Black Noise, de Pantha Du Prince. Todos esses discos trazem algo de novo para a mesa de discussões 4x4, seja no fator tensão, esquisitice, experimentalismo ou simples diversão.
Kilimanjaro não avança fundo em nenhuma dessas fronteiras e fica um pouco raso, na superfície. Há certos momentos belos, mas estamos longe da tão esperada catarse.