Primeiro show do grupo glam pop no Brasil foi divertidíssimo, marcado pelo protagonismo de Ana Matronic e o clima erótico e burlesco
Em seu primeiro show brasileiro, o grupo nova-iorquino Scissor Sisters fez uma apresentação de glam rock, disco e electro-pop fervida, num palco cheio de presença carismática do vocalistas Jake Shears e principalmente dela, a cantora Ana Matronic. Num show que seria o complemento perfeito no line-up do
Planeta Terra - a banda foi oferecida, mas não despertou interesse do festival, segundo o rraurl apurou -, a irmandade da tesoura chegou ao Brasil mais afiada do que nunca, com três bons discos na bagagem e uma lista de hits e

faixas intermediárias que fizeram o público pular muito e cantar, num show erótico e burlesco.
Em um Via Funchal meio cheio e meio vazio, o show concorreu com a segundona, com uma chuvinha chata que parou São Paulo, além do mega-concerto de Paul McCartney, que levou 60 mil pessoas ao Morumbi. A presença do ex-beatle na cidade foi lembrada por Ana Matronic, que aproveitou o gancho para puxar justamente a baladinha que leva o nome do músico inglês, uma homenagem à música, segundo ela. A apresentação focou nas faixas do recente álbum
Night Work, e era entrecortado por faixas dos álbuns anteriores. Mas eles só subiram ao palco com quase uma hora de atraso com a faixa título do disco, cheia de charme 80s, lembrando Devo e
Flashdance.
É um show muito mais grandioso e efervescente dos que o rraurl conferiu em 2006 (
Sónar e
Pukkelpop): duas vocalistas ruivas foram adicionadas (uma dela tinha os seios mais exuberantes já vistos; lembrava as atrizes pornôs dos anos 90); Jake Shears e o guitarrista Del Marquis estão mais fortes e provocantes, e Ana está mais magra e cada vez mais linda com seu estilão pin-up ginger - o que era aquele cabelo, parecia montado com arame!
Se no Terra o Hot Chip fez um show fantástico, mas tinha gente fazendo joça com o figurino de tiozinho do grupo, o Scissor Sisters traduz o hedonismo e até mesmo a vulgaridade de suas músicas no visual da banda inteira, até mesmo com certo ar canastrão. É capaz de um dia, velhos, eles ganharem uma residência num hotel-cassino de Las Vegas.
Mesmo que Jake Shears personifique um ídolo gay, uma neo-George Michael que saiu do armário jovem e fez o show ser quase uma parada gay, a mulherada também despertava os sentidos no Via Funchal. Ana é fofa e fala pelos cotovelos, e a dancinha rala-coxa com as backing vocals em "Skin This Cat" deixaria muito pai de família ruborizado. Ao que parece, o papel de mestre de cerimônias da cantora estava mais evidente, pois Shears já tinha twittado que estava sem o seu
falsetto vocal, e uma hora pediu desculpas por, pela primeira vez, estar sem voz. Foi compreendido e aplaudido na sequência, quando tocou em voz fraca mas com dignidade o hit meloso a la Robbie Williams "Fire With Fire".
TRABALHO NOTURNOTodas as músicas legais de
Night Work estiveram lá: "Whole new Way" foi tocada com Ana pedindo atenção à letra "suja"; "Running Out" e sua verve New Order; "Any Which Way" foi divertida pelo passinho e a pose das backing vocals e foi em "Harder you Get" que começou um clima já de putaria com Jake correndo e se esfregando muito - ele dança muito bem, já foi gogo boy.

Muita pose, muita afetação, mas muita entrega e provocação com o público, que respondia cantando bem e pulando bem alto. Fora as bees mais animadas com faixa "Canta 'All The Lovers' (Kylie)" e "Mostra a Neca!".
Dos hits antigos, "Laura" veio bem bonitinha e "Tits on the Radio" mostrou o lado hard rock bem safado do grupo, que lembra aquela época de biquínis asa-deltas e Van Halen. Na hora de "Take Your Mama" e "Mary" a voz de Jake começou a perder o brio, mas daí surgiu "Kiss You Off", a primeira grande faixa dos Scissors em que Ana Matronic cansava integralmente. Ela assumiu praticamente o palco e deu conta do recado: falava, pulava, cantava, falava e cantava ao mesmo tempo, e não economizava elogios ao Brasil, um país maravilhoso em que se fala três línguas (?), que passava pornô divertido e drag queens à noite na TV, lugar de gente cheia de vida e de paixão. Assim como Shears, é um tipo de frontwoman canastrona, mas que transborda carisma e faz um show funcionar, sem sombra de dúvida.
Para o final ficou o combo derradeiro de hits, primeiro a dobradinha "Confortably Numb", o cover do Pink Floyd de 2004, um hitaço da década, e que em SP foi apresentada de forma bem orgânica, cheio de comoção geral. "Invisible Night", do disco novo, veio longa e cheia de closes e passinhos, com as diversas variações de tempos e bombações.
Scissor Sisters - I Don't Feel Like Dancing no Via FunchalO bis demorou a voltar e trouxe a folk e divertida "I Don't Feel Like Dancing" e "Filthy /Gorgeous", com Shears mostrando a bunda e Ana fazendo um
blowjob no microfone, prometendo voltar para o Brasil. Numa semana de tantos shows bons e divertidos, foi uma dádiva ter o Scissor Sisters enfim por aqui, e só podemos torcer que a banda volte, com mais um bom novo disco na bagagem e cheia dessa animação para tocar os sucessos de sempre.
Fotos: Stephan Solon/Via Funchal