ADE 2010: Amsterdam Dance Event teve Brasil em debate
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ficha técnica

Ano: 2010
Estilos: confererência
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ADE 2010: Amsterdam Dance Event teve Brasil em debate
23.11.10 11:30
"Comigo é tudo muito orgânico. Acordo, café, taba e música. Sinto falta das borboletas que sentia no estômago quando chegavam os EPs novos nas lojas de discos que nem existem mais. Hoje é tudo tão acessível e tão grande que já há alguns anos que conto em gigabytes os promos que recebo, não mais em número de faixas. Pirataria? Enquanto as majors não entrarem no mercado digital, é uma batalha perdida. Mas eu sampleio o que bem entendo, nunca pedi autorização pra ninguém. Eu toco como DJ e produzo música desde 1986 e cada vez mais vejo menos faixas dessas ‘eternas' aparecendo, e o motivo é que há mais gente trabalhando interessada em ser um rock-star e deixar o trabalho duro para os RPs, auto-tune, auto-BPM e auto-warps. E estão conseguindo."

Com essas palavras, DJ Sneak (figura carimbada nas pistas da Holanda desde sempre) fechou simbolicamente um dos primeiros painéis de discussão do Amsterdam Dance Event (ADE) que rolou no final de outubro, um pouco para a surpresa de quem assistia tamanha a sinceridade e tranquilidade das declarações, incomum hoje em que o discurso de alguns artistas sugere o de CEO de uma empresa, com palavras medidas. Em tempos em que os painéis mais disputados giravam em torno de plataformas de cooperação online (openAPIs), consumo de música, softwares e mecanismos de promoção, mídia e marketing, nos intervalos se via centenas de jovens talentos (e seus agentes) que ansiosa e fervorosamente se acotovelavam na distribuição de CD-promos pra um potencial interessado em bookings.

HawtinEssa foi a maior edição do evento que é, hoje, ao lado do Winter Music Conference em Miami, um dos grandes congressos mundiais da indústria musical e, em 2010, celebrou sua 15ª edição com um incrível número de 2500 inscritos. Organizado pela agência de coleta de direitos autorais holandesa (BUMA/STEMRA) e honrando o tradicional talento e interesse holandês para se fazer negócios, o enfoque da conferência é sempre muito intenso nos bastidores da indústria musical, sem negligenciar workshops práticos e curiosos painéis onde produtores poderiam ter suas faixas analisadas (ou destruídas) in-loco por gente como Dave Clarke (já há anos residente em Amsterdam), e na frente de todos via submissões pelo Soundcloud. Como era de se esperar, Ritchie Hawtin messianicamente mostrando o futuro dos live-acts com o novo formato audiovisual do Plastikman no telão, explicando cada passo do processo criativo e execução da apresentação.

Uma indústria em crise?

Nas palavras de Nick Muir, produtor in-house do selo Bedrock: "a combinação festa-negócios do ADE funciona muito bem, e muitas pessoas estão genuinamente interessadas em fazer do negócio da dance music algo viável. Isso é muito importante e sem isso não teríamos o estágio atual de eventos e música com os quais estamos acostumados".
Com um público estimado de 110.000 pessoas circulando, vinculadas ou não ao ADE, todos os clubs, bares e cantos de Amsterdam estavam tomados por festas de todo tipo, com estilos indo do hardcore e gabba (que ainda sobrevive forte na Holanda) ao house mais comercial, de clubes consagrados, a buracos fedidos do Oudezijde (região do famoso Red Light District) a barcos com festas cafonas com dress-code, curiosamente era mais difícil conseguir uma assento na palestra com Miles Leonard, CEO da Parlophone/EMI, que um ingresso na maioria dessas festas.

A quantidade de eventos cada vez maiores acontecendo no mundo todo, e artistas de dance music fechando contratos "360º"com seus selos tal como astros do rock, transforma em uma tarefa difícil avaliar onde está afinal o "buraco" desse mercado que pros olhos de organizadores, donos de clubs e agentes nunca foi tão bom. O interesse e o consumo de música nunca foi tão grande e o mercado de música estimado no mundo gira na casa dos 4 bilhões de dólares -ainda assim os selos independentes fazem prejuízo ano após ano, e artistas de dance music simplesmente riscaram de suas expectativas qualquer retorno financeiro com relação a sua música que não seja de suas apresentações ao vivo.
Mas não eram as famigeradas grandes gravadoras que tomavam a grande parte do dinheiro que circulava no mercado musical deixando aos artistas a opção de sustentarem com shows? A conta de que a música digital libertaria os selos independentes virou wishful thinking. Para onde vai todo esse dinheiro que supostamente é investido pelo consumidor em música no seu dia a dia?

A resposta, por diversas vozes e em diversas ocasiões: parte é absorvido pelos provedores de internet. A outra é simplesmente jogada no lixo pelos selos e artistas que só se preocupam em gerar buzz em torno de si mesmos.

Na mentalidade do consumidor final, ao pagar um provedor de internet já está "pago" também todo o conteúdo que vier por esse canal. Porém, o consumidor aparentemente não se importa de "assinar"serviços de streaming como Spotify em seus smartphones, que recuperam hoje uma enorme parte do valor de mercado que se diluiu desde o advento da música em formato digital.

A importância de ter selos major investindo na dance music é vista em geral como um mal necessário: ainda que não haja quem ache que uma grande gravadora seja responsável pela formação de tendências ou viabiliza a existência de clubs e núcleos de festa mundo afora, o quesito "pirataria" ainda bate forte no bolso de quem pretende atuar como um provedor efetivo de conteúdo musical. Hoje é inegável que o formato "venda de música digital" jamais alcançará os níveis de retorno que um dia os LPs e CDs tiveram, visto que a enorme maioria dos 12000 (isso, doze mil) labels do Beatport, por exemplo, são criados por DJs e produtores com o intuito de terem uma plataforma própria de trabalho, conseguir gigs e lançamentos de suas produções na base do acordo mútuo. São poucos os selos que trazem propostas de longo prazo no sentido de prestar serviços aos artistas, coletar direitos autorais e representar os seus artistas nesse sentido, promover licenciamento e, mais importante, ser um catalizador de talentos atuando como uma verdadeira casa editorial. São pouquíssimos dos que se auto-denominam "labels"que procuram certificar suas faixas com sistemas de impressão digital eletrônica, e fecham parcerias com as sociedades locais de coleta de direitos autorais. Roger Sanchez fez um painel interessantíssimo a respeito de como ele e seu label trabalham com um novo sistema anti-pirataria digital que auxilia a monitoração e a coleta dos direitos autorais por execução pública (algo na linha do que Ritchie Hawtin tentou fazer com seu Twitter DJ.

A pirataria e a negligência na coleta de direitos autorais ainda consome uma vasta parte do retorno e a cautela das majors em ingressar na distribuição digital, e enterrar o formato físico do CD, impede que os provedores de internet tenham incentivo aos investimentos de controle da transmissão peer-to-peer de faixas sem autorização do titular. Sem massa crítica, os sistemas de certificação digital e rastreamento de músicas (digital fingerprint) continuarão financeiramente proibitivos, enquanto nenhum provedor de internet quer ter o risco e custo de vasculhar HDs alheios e conexões.

ADEEnquanto isso, no Brasil...

Ao lado de outros painéis com enfoque na Turquia, Dinamarca e India, e coerente com a atenção que o país vem recebendo no mundo todo, o Brasil mereceu um painel exclusivo do qual participaram Renato Ratier, Daniel Haaksman (da Man Recordings', especializada em Baile Funk), Fernando Moreno (Smartbiz) e Edo van Duyn (3 Plus). Considerações de todos os lados resumiram o que se vê hoje: estamos no mapa da dance music, mas o período de lua-de-mel já se foi.

Temas como o isolamento do país por causa do idioma e da cultura multi-facetada que dificulta uma identificação do que é realmente "Brasileiro" foram levantados por Ratier, apesar do crescimento da demanda que hoje dá força a ampliação do D-Edge, que contará com espaço para sons experimentais segundo o próprio Renato.

"Agora é o momento em que muitos artistas locais e agentes como nós estão preocupados sobre para onde o mercado vai se dirigir. Há diversidade mas o mercado não é tão grande para tantos artistas. Se você toca música underground é melhor não deixar seu emprego diurno, mas se você toca house comercial talvez você consiga viver como DJ", disparou Edo que ainda foi categórico ao confirmar a percepção de que o ‘boom' que encanta tantos sobre o Brasil envolve apenas o mercado de entretenimento e não o da indústria musical.

Perguntados sobre a responsabilidade dos selos na coleta de direitos autorais e serviços aos artistas brasileiros que agora começam a despontar mundialmente, a resposta foi cortante: salvo algumas exceções, um artista brasileiro quando começa a ter exposição internacional acaba procurando acordos com selos de fora, caso contrário nunca verá nenhum retorno ou trabalho consistente sobre sua obra. Ao que parece os investimentos no Brasil são extremamente vinculados ao consumo da música e muito pouco no conteúdo artístico: exportamos o artista e pagamos royalties ao selo europeu, diretamente ou via ECAD.

A conclusão do painel é que nem tudo é tão promissor como se vê no mercado de entretenimento, e a diferenciação entretenimento/música é um conceito abstrato no Brasil e que muitos confundem como sendo uma coisa só - ótimo para quem investe em entretenimento, mas uma dura realidade quando se pretende atingir um nível como pólo cultural. Um dia chegamos lá.

Leia mais sobre a ADE 2010 aqui

Bruno Camargo aka Carbon23 visitou o Amsterdam Dance Event a convite do Rraurl.com e representando o selo Lunatic Jazz http://www.lunaticjazz.com

Carbon23
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knob tweaker, deal maker and partner of Lunatic Jazz Records
Jonty Skrufff
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