Alguns meses atrás o
Caribou dava as caras aqui no rraurl com seu terceiro trabalho,
Swim, segundo da banda de um homem só (que antes se chamava Manitoba e lançou dois discos, em 2001 e 2003) pelo selo Merge e um dos álbuns mais aclamados do ano pelo nó que deu na cabeça do público e da crítica.
Dan Snaith, o homem por trás do projeto - que toca no
FourFest em São Paulo no próximo dia 27 e nos deu
uma entrevista em julho último - retorna agora com um álbum que é fruto de sua apresentação no
ATP Festival de Nova Iorque do ano passado, chamado Caribou Vibration Ensemble.
Antes de começar a falar sobre o biscoito em si, um aviso aos mais afoitos: não adianta correr para a Amazon ou afins. Como já noticiado aqui, o disco - que será lançado em edição limitada no formato de vinil duplo acompanhado de um DVD - não será vendido em lojas físicas ou virtuais, apenas nos shows do Caribou. Dito isso, vamos ao que interessa.
Caribou Vibration Ensemble reúne 8 canções que por terem sido gravadas ao vivo num festival como o ATP já têm clima de jam session. Este aspecto é reforçado pelo número de músicos que estavam sobre o palco durante o momento histórico. Entre os 15 (!) ilustres convidados, gente do quilate de Kieran Hebden (Four Tet), Luke Lalonde (Born Ruffians) e Marshall Allen, líder da mítica Sun Ra Arkestra - e cujo nome está estampado na capa do pack -, e muitos outros guitarristas, bateristas, trompistas, etc, reforçam a aura de all (no) stars da brincadeira.
O álbum joga nova luz sobre composições anteriores de Snaith, tanto como Manitoba quanto como Caribou (menos de
Swim, que ainda não havia saído do forno). A presença de tantos instrumentistas não altera o DNA das músicas, mas amplifica cada segundo de suas estruturas, dando contornos mais nítidos (ou borrados) à solos, percussão, metais ou simplesmente à efeitos e distorções.
"Everytime She Turns Round It's Her Birthday", que abre o pacote, está originalmente em Up In The Flames, segundo álbum de Dan Snaith como Manitoba. Aqui ela continua no mesmo clima espacial, com mais batuques (afinal são 4 bateristas tocando) e sopros, lembrando alguns dos momentos mais freaks da psicodelia sessentista. Na mesma linha viajante e saída do mesmo disco, "Hendrix With Ko" tem nas suaves harmonias vocais seu ponto forte, assim como "Sandy" (de
Andorra, disco do Caribou de 2007), um indie rock que nas mãos enlouquecidas de Snaith vai além do comum - o que aliás norteia todos os trabalhos do canadense.
Fechando o lado B do primeiro vinil (são 4 faixas por disco), os seis minutos de "Skunks" são experimentais e barulhentos, quase um free jazz roqueiro, que parece desorientado mas vai se encaixando, como numa fórmula exata. "Barnowl" também é assim, e começa o segundo vinil com mais de 10 minutos (sua versão original, em The Milk Of Human Kindness (2005), tem apenas 5) onde o improviso parece mover cada um dos muitos instrumentos para o clímax e a exaustão que o segue.
Para acalmar o frenesi e despertar outros sentidos, "Melody Day" perde a percussão original e ganha uma versão quase acapela, delicada e com um coro de vozes à frente. Mas a aparente calma logo se esvai na quebradeira de "Brahminy Kite" e no êxtase experimental e barulhento de "A Final Warning" que encerra o álbum da maneira mais catártica possível.
Vibration Ensemble traz o Caribou e seus muitos convidados para uma festa dos sentidos, explorando cada uma das diferentes nuances musicais presentes em toda discografia do cara e deixando de lado apenas as manifestações eletrônicas de Swim. A aura psicodélica que envolve todas as 8 faixas e suas diversas texturas sonoras envolvem o ouvinte e o conduzem a uma viagem lisérgica por entre vocais harmônicos, guitarras dissonantes, sintetizadores, percussões tribais e tantos outros ruídos quanto esta orquestra psicotrópica consegue produzir sob a regência do maestro Dan Snaith.
Um disco sublime!
P.S: Se eu tivesse que explicar este álbum usando referências, diria que é - mais ou menos - como se
Yo La Tengo e
Stereolab se juntassem para tocar
Their Satanic Majesties Request, clássico da psicodelia lançado pelos Rolling Stones em 1967.
quanto será que vai custar...