Um dia no SWU
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ficha técnica
Nota: 4.2 / 5
Ano: 2010
Estilos: festival, rock, eletronica
fotos
SWU: terceiro dia
14.10.10 12:55
SWU: terceiro dia
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Um dia no SWU
Shows inesquecívies e outros nem tanto
13.10.10 13:55
O rraurl chegou cedo na Fazenda Maeda, em Itu, nesta segunda-feira, dia em que fomos conferir a estrutura, a organização e os shows da 1ª edição do Starts With You (SWU). Chegamos cedo mesmo, por volta das 13h, temendo congestionamentos, barricadas com fogueiras e gargalos intermináveis de veículos e filas, como foi noticiado e criticado pela imprensa nos dias anteriores. Com o sol quente alternando entre nuvens, o clima era de tranquillidade e de galera bebendo cerveja e afins ao lado de seus carros. No som, a trilha era basicamente rock.

A área em declive da Fazenda Maeda, tradicional locação de eventos como a XXXperience, recebeu um palco duplo grandioso para os shows principais, além de duas tendas, uma da Heineken para a música eletrônica e outra da Oi para "Novos Sons". Foi nesta da Oi que logo cedo houve o primeiro grande show, dos recifenses do Mombojó. Na esteira do sucesso que Otto fez na noite anterior, a banda de Recife mostrou empolgação, tenda cheia e fãs com letras na ponta da língua para sua mistura de rock, manguebeat e ritmos brasileiros - o samba sendo tema, mas a guitarra sendo o som.

SWU


E logo cedo na tenda eletrônica, enquanto o Glória agonizava no emocore no palco principal, Anderson Noise dosava techno, minimal e viagens espaciais de BPM alto, sempre submerso no seu laptop. Lotou a tenda por volta das 16h30 e fez a poeira subir de tantos pés que dançavam.

Noise abriu para Anthony Rother, que chegou com toda sua aparelhagem e depois de 10 minutos parou o live após estalos e problemas no som. Com o xabú resolvido em menos de 5 min., Rother voltou e, mais sossegado, foi adiante com hits como "15 Minutes of Fame" e "Little Computer People". É curioso ver a evolução do live de Rother muito além do electro: do beat quebrado para o house polpudo e o techno épico só precisa o pulo de um knob, de uma distorção ou de seu domínio sobre os vocais. Quem tanto reclama que Rother é figurinha carimbada no Brasil deveria observar esse tipo de coisa, pois perceberiam que o "mais do mesmo" de Rother vale muito mais que a bombação desenfreada do pós-maximal farofento de Erol Alkan, por exemplo, que fechou a tenda mais à noite, na hora dos shows de Pixies e Queens of the Stone Age.

PROBLEMAS, PROBLEMAS E MAIS PROBLEMAS... MAS SÓ PROBLEMAS?

Aliás, reclamação era o que mais se ouvia: o frio que batia 10º C com o vento, as filas para comida, as fichas para comida, a comida que era ruim, o banheiro do camping que era nojento.. Na nossa tradição de criticar o que é local e valorizar o estrangeiro, aconselho os reclamões a conferirem o banheiro dos campings do Glastonbury. Ou então passar três dias comendo almôndega frita no Pukkelpop. Para os reclamões, sugiro a leitura do blog do Barcinski.

O ponto é: não dá para exigir logística infalível e precisão organizacional num evento que levou 150 mil pessoas numa fazenda no meio do mato descampado. Principalmente num evento que, dizem, foi montado em 5 meses sem experiência anterior. Nesse sentido, o SWU foi um sucesso, em parte também por não ter havido grandes cancelamentos.

Claro que houve problemas, como a galera que não conseguiu embarcar de volta no primeiro dia, os enormes congestionamentos nas estradas. Mas com a adição de mais ônibus e novas vias de escape, o problema foi reduzido. O pior que ouvimos foram a ocorrência de alguns assaltos, até mesmo no estranho labirinto de tonéis reciclados (!), e também confusões envolvendo porte de drogas e a polícia. As drogas, aliás, estavam bastante presentes no evento, com marofas de maconha a todo o tempo e até uns nóias vendendo "farinha", como nos foi oferecido umas duas vezes na pista.

ROCKÃO É PRA QUEM PODE

Da área premium, onde a imprensa credenciada tinha acesso, era um pouco agonizante notar a muvuca do gargarejo da galera da área "comum". O empurra-empurra e a onda humana eram grandes e tensos, e na hora dos shows de metal-farofa do Incubus e do Avenged Sevenfold via-se uma produção em massa de meninas desmaiadas, brigas apartadas e jovens sendo arrancados da multidão pelos bombeiros. Mas aí é a velha questão, enquanto alguns estavam quase morrendo esmagados, outros choravam e cantavam junto a letra do tal Avenged, que nos impressionou pela devoção de seus fãs.

Um show de rockão bacana foi o do Cavelera Conspiracy, projeto que reúne os irmãos Cavalera para tocar clássicos do Sepultura. Max, todo feliz de reunir-se no Brasil após 12 anos, puxava coros de "porra!", "caralho!" e "vai se foder, filho da puta!" enquanto cantava faixas novas e clássicos como "Attitude" e "Roots Bloody Roots".

Cavalera Conspiracy


Max é o ogro metaleiro personificado, com sua voz de esgoto celebrando o metal ao lado de Iggor, que não exige apresentações com seu punho, o mais rápido do rock nacional. Era engraçado ver umas crianças ali na área do palco se descabelando no show - imagino que fossem filhos dos irmãos Cavalera. Ainda em família, o Mixhell fez uma das apresentações mais bacanas da tenda Heineken. Para quem ouviu o show do Cavelera Conspiracy, era estranho acostumar-se com Iggor correndo atrás dos beats de Laima, mas o set misturou momentos memoráveis (como quando eles tocaram Snap!) e outras palhaçadas dançantes como kuduro, electro e outros beats crescentes e bombantes, no limite da responsabilidade da farofa, regra ética que foi avacalhada por Erol Alkan.

Uma ausência nesta noite do SWU foi de uma identidade musical: o groove. Um dos poucos a inseri-lo na fazenda de Itu foi Vito de Luca, o Aeroplane, que fez um set muito mais energético e melhor mixado que o de sexta no Hot Hot. O Aeroplane ao vivo pode incomodar alguns mais ansiosos com a quantidade de hits - quem ouvia seus sets mensais sacou quase todas as músicas. Mas na tenda da Heineken Vito exigiu mais de si (e do público), e misturou seu já clássico remix de "Paris" com um calpyso gordo e acinturado, por exemplo, além de muita house music e italo disco. Foi curioso ouvir italo com a poeira de um festival subindo até o teto, secando os olhos.

Outros responsáveis por rebolados foram BNegão & Seletores de Frequência, mais na safra Tim Maia, e o Fino Coletivo, uma galera nacional que ia da bossa ao funk, passando pela soul music e o reggae. À noite a tenda da Oi era um bom abrigo longe do frio cirúrgico, com suas cores quentes, teto almofadado e sons mais relaxantes.

Excessão foi o show do CSS, que lotou a tenda e mostrou a banda de Lovefoxx e Adriano Cintra em forma. Mas ficava uma sensação de acanhamento perto de shows antigos, com o do Planeta Terra em 2007. Ou talvez seja estranho observar Lovefoxx dando piruetas hoje em dia, uma espécie de mini-Karen O. sem o vigor do Yeah Yeah Yeahs e sem hits como "Zero". Soa um pouco infantil, naïve. Hora do terceiro disco, não?

Interessante também ver como Gui Boratto foi recebido e aplaudido como um heroi, alternando a atmosfera pululante e festeira do Mixhell para seu som crescente, sensual e emotivo. Para ter uma ideia, a atmosfera extra-terrestre e líquida de "Azzurra" foi ovacionada com berreiro e até exagero do público. Bonito de se ver, de verdade.

JOSH HOMME: O KURT RUSSEL DO ROCK

Na mesma hora do Gui Boratto corremos até o palco para ver o Queens of the Stone Age. O show atrasou uma hora, com Josh Homme e sua trupe entrando como se estivessem no quintal de casa, cheios de pose com seus ternos, o vocalista com seu tipão Kurt Russel - um amigo meu disse uma vez, e é verdade: nunca confie numa banda que usa terno, a não ser que sejam os Beatles.

Josh Homme


Se à boca pequena a crítica ao SWU foi uma unanimidade, a paixão cega pelo QotSA também és. Tanta pompa para tocar meia dúzia de músicas em que o foco é, hmm, a guitarra forte? Parece pouco. Será que os amantes inveterados da banda não viram o Cavalera tocar? E o que será que vale mais: a despretensão blasé do Pixies só tocando sem firula, ou Homme dizendo que amava todo mundo, para enfim tocar "No One Knows"?

De todo modo, talvez seja um show mais interessante em algum lugar fechado e o atraso contribuiu para o mal-humor - mas de Brandon Flowers e afins o rock já está cheio.

Na sequência, sem ficar soltando dosando testosterona e riffs "pesados", o Pixies fez o melhor show do evento, celebrando os 20 anos do disco Doolitle. Foi a primeira apresentação do Pixies em SP, eles que tocaram só em Curitiba lá em 2004. O tal ar blasé e o distanciamento frio do Pixies no palco, ao que parece, foi o mesmo do show de 2004. Mas isso não é agressividade, pelo contrário: é um charme desprendido e americano, com Frank Black dando-se apenas o trabalho de cantar (e ele canta, muito!), enquanto Kim Deal diverte e se diverte, a baixista mais simpática do rock.

A dobradinha "Debaser" e "Here Comes your Man" foi inesquecível, e "La La Love You" é tão 90s e tão red neck que dá vontade de ir morar na Califórnia. "Wave of Mutilation" cria uma linha sub-grunge que passa pelo Radiohead dos anos 90 e desemboca no White Stripes. E para quem quer presença de palco, é só observar mais uma vez como Frank Black canta pra caralho, a fofa Kim Deal e o caloroso adeus ao fim do show. Provando que não era só a gente que estava se divertindo. Eles também.

Pixies

SUSTENTABILIDADE? QUEREMOS IGUALDADE!

Assim, morrendo de frio, ignorando o show deslocado do Yo La Tengo e perdendo os shows de Linkin Park e Tiësto (alguém viu? comente!), fomos embora de nossa experiência SWU, seguros de que o festival tem crédito para uma segunda edição mas que precisa ajustar os muitos problemas de logística, de segurança e baixar um pouco a bola da empolgação - o empresário do evento disse que foi um dos 5 maiores festivais do mundo, o que soa desinformado para quem quer estar nesse meio.

Para a próxima edição o SWU deveria, principalmente, questionar a existência da Pista Premium, porque (mais que sustentabilidade ecológica) o maior problema do Brasil é a desigualdade. Um cercadinho confortável à frente da multidão sendo esmagada é apenas o reflexo disso, e levou o evento à piada comum ("sustentabilidade só se for do bolso do organizador", ouviu-se muito). Não à toa os esquerdistas fervorosos do Rage Against the Machine mandaram a galera invadir a área premium e, com isso, proporcionaram o maior fato de todo o evento.

Poderiamos escrever mais sobre isso, mas o matador texto do Camilo Rocha no seu blog Bate-Estaca finaliza o assunto.
Mas a sustentabilidade tão alardeada também pode ganhar ares de realidade em próximas edições: entre os muitos erros estavam a parte de comida/bebida e o lixo que isso gera. Grandes (mesmo) festivais do mundo usam produtores locais vendendo frutas, sucos, comida caseira e lanches naturais em grande escala, algo que deve ser mais produtivo, para não dizer correto, considerando a rica região do interior paulista do que centenas de milhares de espetinhos assados. E água de graça, além de um direito do público é uma forma de diminuir o lixo gerado. Não dá pra sustentar discurso algum em cima da saúde do público e do planeta. Esperamos uma segunda edição com menos falatório e mais atitude realmente "sustentável" do SWU. Afinal, começa com quem faz.

fotos: Camila Mazzini

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários
18 comentários
Adriano Magalhães
-1AprovadoQueima
Bom, quem conhece de verdade o Queens Of The Stone Age foi pra lá esperando exatamente aqueles riffs repetitivos e hipnóticos.
Boa resenha, respeitado a não conhecimento de algumas bandas.
Adriano Magalhães
0AprovadoQueima
Bom, quem conhece de verdade o Queens Of The Stone Age foi pra lá esperando exatamente aqueles riffs repetitivos e hipnóticos.
Boa resenha, respeitado a não conhecimento de algumas bandas.
Fui no 1° dia para ver RATM e The Mars Volta, curti os shows mais o som não ajudou em nada....
Fora a falta de organização no estacionamento, entrada, filas de resto eu achei normal pra quem vai em raves, não vi nada de absurdo q não se ve nas festas "grandes". Gostei bastante pq fui pra curtir rock, coisa q estamos bem desamparados em ternos de festival aqui no Brasil.
Espero q se tiver no proximo ano, q a org tenha aprendido com os erro e traga boas bandas e não os pops da moda conforme anunciado do rock in rio...
Jasmine Moreira
Jasmine Moreira(16.10.10)
1AprovadoQueima
e sobre as palestras ? não foi em nenhuma ou não soube nada ?
Cow Molester
Cow Molester(15.10.10)
4AprovadoQueima
Estranhas palavras sobre o QotSA... Gostei mais de "tem coisa mais almofadinha que Dave Matthews???"
E como assim terno??? Tinha um único cara da banda vestindo terno. O Josh Homme parecia um mecânico, um caminhoneiro ou sei lá o que. E imagina se o baterista Castillo tivesse de terno??? O terno do cara teria uns 1229 rasgos no final do show.