ATENÇÃO! É muito necessário o uso de um bom fone de ouvido - ou soundsystem com o volume muito alto - para poder apreciar o disco adequadamente.
Peso, massa e volume são palavras tão usadas no meio musical, que às vezes até passa despercebida sua origem científica. Mas em uma apresentação do
Sunn O))) (como a que vimos
no último ATP NY) estes termos ganham significado real; é quase um experimento com as propriedades físicas do som.
A dupla formada por Stephen O'Malley e Greg Anderson em 1998 tem como característica principal o uso de muita distorção e baixas frequências assustadoras, sempre tocadas em velocidade extremamente lenta. Com mais de dez álbuns lançados, não utilizam baterias em muitos deles.
O trio japonês
Boris também costuma tocar com o pitch bem lento e é normalmente classificado como
doom, mas tem uma gama de influências mais ampla. Noise, psicodelia, punk , minimalismo... tudo misturado, tocado com força e experimentalismo.
O álbum
Altar é uma peça singular, colaboração no sentido completo mais do termo. As bandas se fundem e criam um som diferente do que fazem normalmente. Mas é fácil saber quem é quem. Também é preciso destacar alguns importantes participantes no projeto, como Joe Preston (Melvins, High on Fire), Kim Thayil (Soundgarden) e Dylan Carson (Earth), entre outros.
Altar começa com a introdução poderosa de "Etna", onde a estética da baixa velocidade somada à força desencadeada pelas guitarras, baixo, eletrônicos e bateria conduz a um clima sombrio. Em seguida vem "N.L.T.", como que para depurar os ouvidos. A faixa é o que se poderia chamar de nodrum'n'bass. No caso, são somente o contrabaixo de Bill Herzog, acompanhado do provável fugitivo de hospício, Atsuo, "apenas" no cimbal e gongo.
Depois temos "The Sinking Belle (Blue Sheep)". Atenção aqui, a música é completamente alheia a qualquer composição de ambas as bandas, mas tem uma personalidade tão marcante que soa como uma nova música de uma velha banda folk. Destaque para a guitarra e
space echo de Wata e para o lindo vocal de Jesse Sykes. Sem dúvida uma das mais belas (e menos notadas) faixas daquele 2006. E é claro que os fãs mais hardcore odeiam.
O clima, que já era cinematográfico, ganha alta dose de drama em "Akuma No Kuma" ("urso do mal" em japonês), abrindo a segunda parte do disco.
Sem guitarras ou baixo e com Joe Preston num vocoder do capeta, a banda constrói, com compassos espaçados e consistentes, uma cena sinistra. Contribuem para o desastre, uma massa de eletrônicos, com destaque para outro quase membro, Tod Nieuwenhuizen, tocando
um lendário sintetizador Oberheim. A certa altura um trombone meio fora de afinação, parece anunciar que algo aterrorizante está se passando. O tom é ritualístico.
Em seguida, mais duas faixas sem bateria. Impossível não usar a palavra pesadelo para descrever "Fried Eagle Mind". O suave vocal de Wata mais guitarras e efeitos nos conduzem a este delírio onírico. A última faixa é um longo epílogo de 14:46 de puro
drone. Camadas e camadas de zumbido encerram a cerimônia.
A versão em vinil triplo tem ainda "Her Lips Were Wet With Venom" como prelúdio. A faixa também é chamada de "Satan Oscillate My Metallic Sonatas" - mesmo nome de um EP do Soundgarden. O título da música é um palíndromo, aquelas palavras ou frases que se lêem iguais de trás para frente. Assim, um a um a partir de O'Maley, os participantes vão entrando até chegar na guitarra country (!) de Carson, que dobra solando e sai. E assim vão, um por um se retirando formando um palíndromo noise do tinhoso. Ou, como Kim Thayil (que não participa desta faixa) escreve no bom texto do álbum, um palindrone!