Equipamentos eletrônicos surgem entre guitarras e bateria.
Na esquina do punk mais visceral com as diversas manifestações da arte contemporânea surge o No Age. Randy Randall (guitarra) e Dean Allen Spunt (bateria e vocal), os dois membros da banda, vêm dessa encruzilhada um tanto surreal que começou a ser iluminada à partir dos anos 70 com o Wire, chegou aos 80 com o Mission Of Burma, aos 90 com o Nation Of Ulysses, dos 00 em diante com toda a cena pós-qualquer coisa e por todo esse período com o
Sonic Youth.
Mestres na profissão de fazer barulho, a dupla nasceu em 2005 na cidade de Los Angeles, Califórnia, e desde então vem gravando seu nome à força de bateria e guitarra em cérebros e ouvidos distorcidos.
Após uma coletânea de seus primeiros trabalhos (Weirdo Rippers, de 2007) e um aclamado debut pela gravadora
Sub Pop (
Nouns, de 2008), o No Age volta à cena com seu segundo álbum - ou terceiro, dependendo do ponto de vista,
Everything In Between.
Lendo algumas discussões virtuais, percebe-se que para alguns este novo trabalho perde um pouco da energia quase brutal e da 'sujeira' que Randall e Spunt sempre fizeram questão de deixar como marca em suas músicas. Para outros, o uso de equipamentos eletrônicos acaba com a mágica da fórmula guitarra + bateria. Exagero de fãs.
Afinal, o No Age de
Weirdo Rippers não é o mesmo de
Nouns. E por que seria o mesmo em
Everything In Between?
Desde o EP "Losing Feeling", de 2009, eles vêm experimentando diferentes técnicas de colagem sonora, uso de samplers, loops e afins; não como forma de se distanciar do punk - que é seu berço - mas sim para extrair de suas mentes todas as possibilidades existentes na hora de compor e tocar essas composições. Tanto é que em apresentações recentes a dupla se torna um trio, com a adição de William Kai Strangeland-Menchaca (WKSM), dos Silver Daggers, operando a pequena - porém eficiente - parafernália eletrônica.
Além do mais, sempre houve nos genes do No Age um pouco do mesmo pop que existe em suas influências - My Bloody Valentine, Eric's Trip, Sonic Youth, Ramones, etc - diluído, escondido, mas palpável.
Everything In Between traz à tona justamente esse pop que sempre esteve submerso no oceano de barulho da dupla. Seja nas palmas de "Glitter", que acompanham sem o menor problema os ruídos da guitarra de Randy Randall; na meia lua de "Common Heat", faixa quase limpa de distorções (como também é "Chem Trails") ou no shoegaze 'básico' de "Valley Hump Crash". Mesmo quando voltam às suas origens hardcore - dos tempos de Wives - nas faixas "Fever Dreaming" e "Depletion", momentos como os de "Boy Void" (de Weirdo Rippers) parecem ter ficado para trás.
Mas então, resta algo da banda de alguns anos atrás? Sim ela continua a mesma (basta ouvir a onírica "Sorts" e confirmar), ampliando seus horizontes e indo além do esperado, dando um salto evolutivo não previsto por público ou crítica. Menos cru e talvez até menos barulhento, mas mais experimental que nunca, o No Age chega agora a um ponto chave em sua carreira.
E
Everything In Between, guardadas as devidas proporções, pode significar para a dupla vegan o que
Daydream Nation significou para o Sonic Youth há 22 anos: um momento de ruptura e de explosão criativa; o elo definitivo entre melodia e barulho. Mas isso só o tempo dirá.