Lançando desde 2006 com o pseudônimo
Shit Robot, ano em que emplacou "Triumph" na compilação
Large Room Full Of People da
DFA, o produtor irlandês Marcus Lambkin coloca no mercado só agora, quatro anos depois, seu primeiro álbum. Vindo dum cara com formação técnica nos mistérios do áudio,
From the Cradle To the Rave só podia ter demorado esse tanto: as oito músicas não foram compostas da maneira tradicional (e intuitiva), como se espera de uma banda de rock - mas esculpidas à exaustão no claustro do estúdio, timbre por timbre, compasso por compasso.
Os pontos fracos do disco também vêm daí. A miscelânea de colaboradores nos vocais - entre eles
James Murphy, Nancy Whang e
Juan Maclean (todos envolvidos com a DFA) - compromete a unidade do trabalho. Mas esse defeito é compensado pelo esforço dedicado individualmente a cada uma das faixas. Impressiona como Lambkin consegue partir de loops aparentemente sem-graça para construir canções complexas, cheias de idas e vindas, sem cair na repetição ou na monotonia.
E sua especialidade aparece na construção de linhas de baixo: descaradamente sintéticas, dançantes e pesadas, oferecem um contraponto às notas afetadas de teclado sintetizador - clara referência à house dos anos 1980 e 90. Há espaço também para guitarras, como se ouve nas ótimas "Take ‘em Up" - cantada por Nancy Whang (ela colabora com o LCD Soundsystem e com Juan Maclean) - e "Grim Receiver", que vem acompanhada também por um delicioso (e ácido) synth, à espreita de seu início ao fim.
"Simple Things (Work It Out)" é outro destaque do álbum (confira também o remix monstruoso assinado pelo norueguês Todd Terje). Ela mostra bem a tal habilidade que Lambkin tem ao compor faixas partindo de unidades simples, neste caso uma linha de baixo minimalista e repetitiva. Encerrando o disco, uma dupla matadora para as pistas: "I Got a Feeling" e "Triumph!!!" têm DNA clubber em cada uma de suas viradas, de bateria reta e ritmo inabalável.
Mesmo para aqueles que já conheciam o trabalho (e as músicas) do Shit Robot via os singles que ele lançou ao longo desses anos na DFA, From the Cradle To the Rave permanece um álbum relevante. Se não traz muitas doses de novidade, ao menos mostra como todas aquelas faixas soltas soam melhor e mais coerentes num único pacote - além de demonstrar que música pode ser uma ciência que, além de instinto e intuição, exige muita técnica.