Edição 2010 em Nova Iorque comemorou dez anos do festival.
Já faz mais de duas semanas que eu voltei da edição comemorativa de dez anos do ATP, na cidade de Monticello. Demorei esse tempo todo pra sentar e escrever sobre o festival. E não fui a única - dos amigos que estavam comigo só um escreveu sobre, no fim da semana passada,
no blog do colega André Barcinski. A versão made in USA do ATP é mais braço do All Tomorrow Parties, selo/núcleo que realiza o festival matriz há uma década na Inglaterra, sempre com curadoria de alguém bacana - o criador do Simpsons Matt Groening, os caras do Pavement, as Breeders, o Sonic Youth, o Flaming Lips, entre muitos outros. Também existe uma versão australiana do ATP. Pequeno e independente, é considerado pelos frequentadores o melhor festival de música do mundo e gera uma porção de shows e festivais menores, como o In Between Days ou o Release the Bats -
veja aqui.
É fácil entender os motivos. O ATP é um festival para quem gosta/quer ouvir música sem ser pentelho ou pecar por excesso. O clima bêbado e amistoso reina e você faz amigos apenas colando em alguém e conversando sobre um show ou banda, sem dar de cara com o nariz empinado de conhecedores. Também não espere modernos bem-vestidos, área VIP ou qualquer tipo de mordomia. O café (ruim de doer, mas você vai precisar) é vendido em máquinas, não existem seguranças pra te socorrer no gargarejo do show do Stooges e, se você perder o último shuttle pra ir embora pro Raleigh (o hotel onde eles hospedam parte do público) você não vai ver táxis na rua - o ATP acontece em Monticello, interior do estado de Nova Iorque, uma região onde é fácil entender de onde saem filmes como
Sexta-Feira 13.
A comemoração de dez anos de ATP teve a curadoria da edição 2010 repartida entre os próprios organizadores e o cineasta indie
Jim Jarmusch - que viu todos os shows e podia ser encontrado circulandoa qualquer momento do festival, eu tenho certeza de que o cara não dorme. Jarmusch também foi responsável por uma parte da programação de cinema do ATP (na verdade um quarto com cadeiras e um projetor de frente pra uma parede branca) em parceria com
o selo de DVDs Criterion. Posters dos filmes da Criterion em exibição no festival

Mas a melhor parte, além dos shows e das pessoas que você vai conhecer ao longo de três dias, é a sensação de estar em um universo paralelo, onde não é importante publicar no twitter o que você acabou de ver (na verdade é impossível: não existe 3G ou wifi) e ninguém liga se sua camisa xadrez é daquela loja francesa super bacana. E se perder pelos imensos corredores do
Kutchers Country Club, um clube de campo que deve ter sido luxuoso nos anos 60 e, segundo o Jarmusch, é o local ideal para o festival, já que "é tão detonado que não tem mais nada para as pessoas destruírem". Num mesmo rolê você pode encontrar uma clube de leitura debatendo uma biografia do
Nikola Tesla, uma mesa de pôquer que nunca acaba (powered by Steve Albini), um campeonato de karaokê, uma sauna sinistra em funcionamento (com toalhas e produtinhos de beleza orgânicos) ou uma piscina ao ar livre onde está sendo servido o melhor churrasco do mundo. Também dá para sair com uma sacola cheia de de vinis novos comprados diretamente dos selos e bandas, que montam suas próprias mesas para expor produtos.
O ATP funciona em um modelo que, infelizmente, não temos por aqui: não existe marca por trás. Não tem nome de operadora de celular no palco nem colarzinho com programação na entrada (mentira, isso tem sim, são em formato HQ e são a coisa mais legal do mundo). Os apoiadores, no caso uma marca de cosméticos orgânicos e o selo de DVDs Criterion, fizeram nada além de expor seus produtos para o público.
Os shows variam entre o insuportável e o incrível. Mas sempre, isso você pode acreditar, estão longe do óbvio e em direção a uma explosão de euforia. A intensidade e entrega é tamanha que cansa, fisicamente, tentar ver tudo -
aqui o lineup completo. E você acaba se guardando o direito de, por exemplo, não ver os shows do Halogallo tocando NEU! ou o The Books. Mas são dois palcos e mesmo o maior não é muito grande, com uma caminhada de cinco minutos entre eles. Então com alguma programação (e protetores de ouvido) dá para ver tudo que você quiser. Abaixo, destaques, roubados do youtube, do que eu consegui ver.
E em algum momento, depois de desistir de pegar sinal de celular, enquanto você ouve a conversa dos australianos na mesa ao lado que vão para todas as edições do ATP desde 2001, vendo todo o tipo de maluco passando com suas garrafas de cerveja e se pensando em há quanto tempo os carpetes do Kutchers não vêem uma limpeza, você vai se sentir em casa. Eu voltei com a mesma convicção dos meus amigos que vão todos os anos: espero nunca mais perder uma edição do ATP
Iggy & The Stooges Foi exatamente o que você esperava de um show do Stooges no ATP: eles tocaram
Raw Power na íntegra, Iggy quase perdeu as calças, a galera invadiu o palco. Tudo natural e parte de um documentário sobre a Iguana que está sendo produzido por Jarmusch.
T Model FordUm bluesman de 90 anos,
T Model Ford aprendeu a tocar guitarra no Mississipi durante um porre de bourbon - e nunca mais fez outra coisa da vida. Pelo menos é isso que ele conta. Virtuoso, com saúde frágil, e certo de que ninguém toca blues melhor do que ele, foi venerado pela respeitosa plateia, que fazia silêncio entre as faixas, e pela banda que o acompanhava, que caminhava com cuidado no palco para trocar as guitarras ou pegar água para o mestre. Além do show em horário nobre no domingo, Ford pode ser encontrado tocando para a galera pelos halls e corredores do Kutchers.
Sunn 0)) + Boris = AltarAí a gente entra na categoria "não é pra mim", mas o show, baseado
no álbum de 2006, é uma experiência quase mística, que usa a força física da música para levar uma plateia a um estado de êxtase. Reverberações, um gongo gigante no palco e VOLUME. Muito volume.
BreedersTiazonas do ATP, as Breeders botaram o palco abaixo - teve quem saísse com torções sérias de meio das rodas de pogo no gargarejo. Tem energia de dar inveja a mocinhas como as
Vivian Girls, que também tocaram no ATP.
Explosions in the SkyO show de uma hora cheio de guitarras e reverberações foi meu preferido do fim-de-semana. O público aplaudiu quando eles voltaram para desmontar o próprio esquipamento do palco. É esse o espírito.
Sonic YouthO que esperar quando é o Sonic Youth a banda com maior apelo comercial do evento? A banda tem ar de estrela do ATP e fez o melhor show dos três que já ví deles. Empolgados e com jogo ganho, palco bem iluminado, são heróis independentes - e exibiam uma impressionante coleção de guitarras nas laterais do palco.
Hope Sandoval & the Warm Inventions"Você parecem cansados", diz Hope Sandoval, nos olhando de cima do palco com aquele ar angelical e entediado. Já era noite de domingo e, sim, a exausta platéia, no embalo das canções de ninar de Hope parecia pronta para dormir.
esse post tem duas fotos roubadas com a melhor das intenções do grupo do ATP no Flickr. Visite a página do All Our Noise para outras fotos incríveis do festival
O link do Line Up é salivante...
Sem frescura, sem carão, sem bullshitagem de marketing, clima amigável e som de primeira. Além das bandas colocadas acima pela GAia, procurem no Youtube pelos inesquecíveis shows de APSE, BARDO POND e HALLOGALO (MIchael Rother (KRAFTWERK, NEU!) + Steve Shelly (Sonic Yputh) tocando musicas do NEU! É de chorar.
Info: Um quarto pra 4 pessoas, 3 dias, sai por US$700 (pouco mais de US$ 55 - R$90 per capta/dia). Torrem aquelas milhas acumuladas, juntem os amigos e nao percam a próxima edição.