Segundo álbum passou ferro sobre a sonoridade lo-fi da banda californiana.
Algumas bandas passam toda a carreira fazendo do feijão com arroz seu prato principal; algumas outras começam com o trivial para depois adicionarem algo novo a sua receita; outras já servem como entrada pratos complexos e vão complicando ainda mais seus menus; e há ainda aquelas que desde o início e a cada novo prato se reinventam, às vezes causando estranheza e não raramente surpreendendo os esfomeados fãs de música. Este é o caso do
Pavement.
De
Slanted & Enchanted (o primeiro disco, de 1992) a
Terror Twilight (o último de estúdio, de 1999), a banda da Califórnia - que se apresenta pela primeira vez no Brasil este ano no festival
Planeta Terra - se recriou várias vezes, e em 20 anos e 5 álbuns foi de queridinha do undergound a queridinha - ou quase - do grande público. E a curva mais acentuada dessa estrada foi logo do já citado primeiro disco para o segundo,
Crooked Rain, Crooked Rain.
Se
Slanted & Enchanted marcou o Pavement como um dos monstros da hoje em voga onda lo-fi, trazendo para os estúdios um jeito particular, caseiro - e por isso não muito profissional - de gravação, no qual mesas de 4 canais são a regra e não a exceção e barulhos e experimentações são muito bem vindos;
Crooked Rain, Crooked Rain passou ferro sobre a sonoridade da banda, deixando-a sem vincos.
Claro, não dá para esperar que algum disco do Pavement soe como os Beatles em 64, mas as estruturas tortas, quebradas e difíceis até para os indies mais xiitas cederam espaço para melodias mais acessíveis - tanto que o álbum teve alguns 'quase-hits' e vendeu, até 2007, 500.000 cópias.
Ok, a voz de Stephen Malkmus não mudou em nada: continua preguiçosa e um tanto desleixada e esteticamente tudo continua igual. Mas a entrada do baixista Mark Ibold (hoje no Sonic Youth), do percusionista Bob Nastanovich e a substituição do antigo batera (o ex-hippie Gary Young) por Steve West renovou os ares do Pavement, e tirou a banda de seu casulo lo-fi para mostrá-la ao mundo.
"Elevate Me Later" abre com um belo e ensolarado arranjo para guitarra e seus backing vocals são uma grata surpresa, mas é a quarta faixa de
Crooked Rain, Crooked Rain que por pouco não torna o Pavement uma banda famosa: "Cut Your Hair", com letra sarcástica, vídeo engraçado (com alta rotação na MTV Brasil à época) e uma pegada pop levou o grupo a muitos lares e coleção de discos.
Outras duas músicas do álbum que merecem destaque no quesito pop são "Gold Soundz", que repete a arquitetura arredondada de "Cut Your Hair", sem experimentações complicadas nem excessos pretensiosos e "Range Life" - supostamente uma críitica aos
Smashing Pumpkins - que se lançada alguns anos mais tarde seria facilmente rotulada como alt country. Já "5-4 = Unity" é a cara do Pavement em seus momentos difíceis, mas diferente. Com estrutura jazzística e direito a um piano, tem na guitarra pouco usual de Scott Kannberg mais um doce escondido.
Crooked Rain, Crooked Rain foi um ponto de ruptura na carreira do Pavement, e isso não se discute. À partir dele a banda se tornou um tipo de entidade indie, um anti-herói despido de uniforme e sem super poderes que se recusou a salvar o rock alternativo ou ser seu mártir.
Se era isso que os fãs radicais da banda queriam, azar o deles. E sorte a nossa!