Rivers Cuomo pode ser um pai de família, mas continua com alma de adolescente. Se alguém imaginou que em
Hurley o excêntrico vocalista do Weezer iria sossegar e deixar de lado a fanfarronagem, errou feio - já que as letras e as melodias das canções deste oitavo álbum da banda só comprovam o que todos os fãs já sabiam: a auto-paródia é a alma do Weezer.
Com o lançamento do aguardado
Raditude, de 2009, o grupo recebeu desde críticas positivas em relação à entrega pop das canções até sentenças de pacto com o demônio (afinal, a indústria musical deveria ser, para uma banda indie, o diabo em pessoa).
Rivers Cuomo, piadista como sempre, não só não ligou muito para a opinião da crítica especializada como passou todo o tempo até o lançamento de
Hurley tirando um sarro sem fim dos jornalistas. O vocalista chegou até a dizer que o novo álbum tinha sido influenciado pelo heavy metal - assunto que, obviamente, virou notícia séria mesmo sendo só um factóide.
Depois de muito falatório, o novo álbum do Weezer chega às lojas rindo de si próprio até mesmo na capa: o grupo escolheu colocar a foto do ator Jorge Garcia, que interpreta o sorridente e bem-humorado Hurley na série
Lost, para estampar seu novo trabalho, fazendo com que a crítica especializada elegesse a imagem como a pior capa de todos os tempos.
Mas se os fãs achavam que as piadas estariam apenas na capa, nas entrevistas de Rivers Cuomo e em todo o falatório em volta do álbum, se enganaram. A primeira música, "Memories", já traz o Weezer brincando com o próprio passado, falando sobre a época áurea de começo de carreira. "Tirando sarros dos jornalistas contando mentiras estúpidas/E eles suspeitavam que estávamos tramando alguma/Por causa do olhar em nossos olhos/De fato, nós não sabíamos o que estávamos fazendo em metade do tempo/Nós tinhamos tanta certeza a respeito do nosso modo de vida", canta Cuomo, que no fim da música afirma que o Weezer quer desesperadamente voltar a esse estilo de vida. "Estamos putos e entediados!".
"Memories" é uma música pop até a raiz, assim como as boas "Rulling Me" e "Trainwrecks". Esta última, aliás, tem uma melodia viciante, um refrão bem feito e uma letra típica da ironia existencial de Rivers Cuomo, brincando com os nerds viciados no próprio ego que passam a vida atualizando seus blogs - que não são lidos por ninguém.
Uma pitada da esquizofrenia e do nonsense do Weezer aparece com força na faixa "Where's My Sex", que traz uma letra bizarra e um instrumental simples e, exatamente por isso, viciante. Na hora de tirar um barato com a falta de lógica do cotidiano, o Weezer tem o poder máximo - ao mesmo tempo em que faz colocações que podem atingir a boca do estômago com o poder de um soco, a banda não deixa ninguém deprimido. Equilíbrio tão frágil e tão dependente do humor negro que só poderia mesmo vir do Weezer.
Infelizmente, depois das três primeiras músicas a fórmula começa a desandar - e o que antes era engraçado e irônico começa a virar piada de mau gosto. As letras engraçadinhas ficam cansativas, as melodias ficam repetitivas e uma coisa começa a ficar clara: se fosse preciso escolher um single além de "Memories", seria muito difícil definir uma música que fosse coesa e significativa o suficiente para merecer esse posto. O que já é um péssimo sinal em um álbum tão pop.
Além da tríade inicial, Hurley traz outra boa música: "Hang On", que conta com a participação do ator Michael Cera. Esta faixa e "Unspoken", aliás, foram as únicas compostas exclusivamente por Rivers Cuomo - o que nos faz imaginar porque ele não rouba de uma vez todas as músicas para ele.
A ironia maior deste novo álbum do Weezer, na verdade, não está nas letras, na proposta ou na sonoridades. Hurley é o primeiro álbum do grupo que sai por um selo indie, o Epitaph Records. E, ainda assim, é provavelmente o álbum mais pop da carreira do Weezer. Se é de propósito ou não, é difícil saber, mas o tiro parece ter saído pela culatra: mesmo sendo um álbum muito melhor do que Raditude, por exemplo, Hurley não tem músicas suficientes para ser considerado um trabalho realmente bom. Ser mainstream não é nenhum pecado, mas música pop não é brincadeira de criança, e precisa ser bastante coerente para se destacar em meio a um mercado saturado. Abraçando o indie em um selo pop, o Weezer acabou ficando entre um e outro, mas sem se apaixonar por nenhum.
Você percebe que um álbum termina mal quando a sua principal curiosidade é conferir a versão da banda para "Viva La Vida", do Coldplay, faixa bônus que só aparece na versão deluxe. Infelizmente, o Weezer não acertou a mão com Hurley, embora o álbum tenha 4 músicas divertidas e bem escritas. Mas para uma banda que já nos presenteou com álbuns espetaculares, como o clássico "Pinkerton", ainda é pouco, não é, Rivers Cuomo?