O esperado show de Lauryn Hill em São Paulo foi sobre expectativas, muito mais do que resultados. Explico: desde que a apresentação foi anunciada, os fãs se dividem entre recordar do fiasco que foi o show anterior da cantora no Brasil em 2007 e pensar no que aconteceu com a voz e o talento de Lauryn após um hiato de muitos anos longe da música, ou esperar por um ressurgimento arrasador e inesperado.
Quando a artista em questão é alguém como Lauryn Hill, é difícil conseguir escolher entre um destes dois extremos - afinal, embora seu currículo invejável (que conta com o sucesso de sua passagem pelo Fugees e o lançamento de seu elogiadíssimo álbum solo,
The Miseducation of Lauryn Hill) aponte para a esperança por um show incrível, a imprevisibilidade, o temperamento genioso, a ausência de músicas inéditas e o afastamento prolongado do mundo da música trazem o perigo para muito, muito perto.
E o que se viu no Credicard Hall na noite desta terça (7) foi um misto entre estas duas expectativas tão diferentes, mas que hoje formam de maneira intrínseca a personalidade dúbia, complexa e difícil de definir de Lauryn Hill - uma persona que se situa entre a decadência e o brilho, o caricato e o surpreendente. Assistir ao show atual da cantora é lamentar pelo passado e enxergar a beira do abismo, mas sabendo que essa decadência pode ser efêmera e ser superada sem nenhum aviso prévio.
Após um atraso de mais de duas horas - péssimo começo para qualquer show -, a cantora subiu ao palco com o coro de Lost Ones, primeira faixa de seu álbum solo. E foi aí que os fãs da cantora, já confusos com tanta expectativa e ansiedade, sentiram mais um golpe: a percepção de que todos os arranjos originais das músicas foram modificados. As bases calcadas no hip-hop deram lugar a uma pegada roqueira, que contrastava de maneira estranha com o vocal falado de Lauryn Hill.
Artistas que nunca remodelam seu repertório costumam ser abandonados no passado e deixados de lado sem misericórdia. Lauryn é inteligente e experiente o suficiente para saber dessa regra básica de sobrevivência, e fez as modificações que achou pertinentes para que a energia de seus shows não se perdesse. Mais do que isso, a cantora está consciente da passagem do tempo - sua antes poderosa voz hoje está mais fraca, sem potência, e continuar cantando as músicas com o mesmo tom das versões clássicas não seria uma boa ideia. Por isso, a escolha por uma pegada roqueira e o abandono das bases mais grooveadas do hip-hop e do R&B é uma decisão consciente e até sábia, embora não tenha conseguido alcançar o resultado esperado.
O público não se animou durante grande parte do show, que além de irregular - em alguns momentos, até versões novas de clássicos antes consagrados não arrancaram aplausos do público, caso de To Zion - foi bastante cansativo, já que a cantora estendeu de maneira exagerada a duração de várias músicas.
Uma coisa é inegável: Lauryn Hill continua com uma presença de palco poderosa. A energia da cantora durante todo o show foi contagiante, mesmo que tenha exagerado em artifícios como repetir "São Paulo!" incessantemente no meio das canções.
Infelizmente, Lauryn Hill teve um grande inimigo durante toda a noite: o som da casa, que estava muito ruim. Não é exagero dizer que o show sofreu com um dos piores ajustes que o Credicard Hall ofereceu nas apresentações deste ano, já que o som estava alto além do necessário, extremamente embolado e os microfones não estavam funcionando de maneira correta. Muitos dos erros vieram do próprio técnico de som da cantora, que provavelmente teve problemas para operar a mesa, mas a acústica da casa não privilegiou o show em nenhum momento.
É muito difícil cravar um julgamento exato sobre o futuro de Lauryn Hill. O misterioso novo álbum da cantora (ela não lança nada inédito desde um
MTV Unplugged, de 2002) ainda permanece um incógnita, e suas apresentações são sempre esparsas e erráticas. O que é possível apontar é que sua segurança no palco e a capacidade de superar seus próprios obstáculos são elementos que a acompanham por todos os momentos, até nos mais difíceis. O talento não abandonou Ms. Lauryn Hill. Se ela vai dar as costas a ele ou não, aí a história é outra.
SetlistLost Ones
When It Hurts So Bad
Ex-Factor
Zimbabwe (cover de Bob Marley)
To Zion
War In The Mind
Forgive Them Father
How Many Mics
I Only Have Eyes For You
Zealots
Fu-Gee-La
Ready or Not
Killing Me Softly
Turn Your Lights Down Low
Doo-Wop
foto: UOL
Bela resenha.