Dói para chegar ao fim de
King Night, primeiro álbum do trio americano Salem. Não que suas onze faixas sejam ruins. Mas elas soam tão densas e perversas que causam mal-estar. O trabalho sai neste mês pela gravadora IAMSOUND, casa dos ingleses Black Ghosts, Florence and the Machine e Little Boots. Antes dele, o Salem havia lançado dois EPs -
Water e
Yes, I Smoke Crack, cujo título dá uma pista dos temas cultivados por esses americanos.
Reunidos três anos atrás em Chicago, John Holland (teclado), Heather Marlatt (vocais) e Jack Donoghue (rimas) rotulam o próprio som de "witch house". Espere ouvir um tipo de rap gótico, em que as rimas vêm empacotadas por vocoders graves. As batidas ganham acompanhamento de teclados cujos timbres parecem saídos de um órgão medieval. Nos shows, eles usam máquina de fumaça e projeções de carros pegando fogo.
Em faixas como "Sick" e "Killer", a sensação é de que o próprio bicho-papão emergiu debaixo da cama para cantar versos sinistros - e estes são os melhores momentos do disco. O trio realmente consegue imprimir uma levada dançante, mesmo nas músicas mais pesadas. Todo o espectro sonoro aparece preenchido por uma névoa grossa, resultado de incontáveis camadas de instrumentos e vozes submetidas a efeitos de eco e distorção. Pegue "Tair" por exemplo, com suas batidas sincopadas.
A sonoridade é tosca. Obviamente produzidas em um estúdio caseiro, as canções não transparecem apuro técnico algum. "Asia", que ganhou um clipe extremamente sinistro, se desenrola sobre um bumbo distorcido e gemidos arrepiantes.
Já "Redlights" lembra um coro entoado por alguma alma torturada na Montanha do Purgatório. Deliciosamente esquisito, é assim que soa este
King Night do Salem - um álbum a ser ouvido por quem deseja observar os caminhos bizarros que a música pode tomar quando basta um software gratuito e alguns amigos para formar um projeto musical.