O Interpol sempre causa impacto com a sobreposição de um barítono frio, guitarras irregulares, linhas de baixo elásticas e refrões intensos. Em seu mais recente trabalho, auto-intitulado, o grupo soa, às vezes, como se estivesse à deriva onde uma vez esteve atento. Mas o disco cresce em você e não questiona o talento dos nova-iorquinos.
A produção de Alan Moulder flerta com texturas e efeitos. Sensato, Moulder destaca o ótimo baixo de Carlos Dengler, que deixou a banda após as gravações. "Barricade" mostra o quanto ele fará falta. A música começa com baixo provocante e bateria crua, até que a guitarra retorcida se junta a eles.
O disco é uma busca por esclarecimento. A primeira metade de Interpol expressa obsessão. Na faixa de abertura, "Success", a guitarra de Daniel Kessler é selvagem e esculpe um ambiente forte com a ajuda de um baixo enérgico. A música é muito bem elaborada.
Já a segunda metade do álbum reflete desânimo. Nela, criar uma atmosfera parece mais importante do que o rock em si. As belas faixas 6 e 7, "Always Malaise (The Man I Am)" e "Safe Without" representam os altos e baixos que experimentamos ao lidar com mágoa.
Apesar do desespero que permeia o trabalho, sente-se um toque de esperança - a energia surf rock que vibra da guitarra de "Memory Serves" é exemplo disso. O mesmo vale para a última canção, "The Undoing", que parece um solitário raio de sol, soando vagamente otimista.

Cada música de Interpol deságua perfeitamente na próxima, como as três últimas. A sensível "Try It On" é o último traço de sanidade, até a chegada da noturna "All of the Ways", o ponto alto emocional. A já mencionada "The Undoing" reúne as emoções da destruição com alguns versos em espanhol, que temperam com drama.
O vocalista Paul Banks tem grande responsabilidade por essa coesão. Ele é uma mistura viva de tonalidades e sentimentos. Seu jeito de cantar é simultaneamente enérgico e depressivo.
A faixa 3, "Summer Well", mostra que a identidade do grupo foi preservada. Ela tem melodia envolvente e oscila em torno de um baixo pulsante, inseguras notas de piano e guitarra implacável. Lembra os bons momentos da estréia,
Turn On The Bright Lights (2002), e os vocais direcionam a canção para frente, como fizeram em "Antics" (2004).
Algumas músicas anunciam uma tempestade que não acontece. É frustrante. "Lights", por exemplo, queima lentamente em direção a um frenesi, a um clímax épico. Foi insinuado desde o início que ela explodiria, mas, ao invés disso, ela desaparece suavemente, deixando picos de tensão para trás. Não vai a lugar nenhum.
Nesses momentos, a impressão é de que temos apenas partes de músicas promissoras. O conceito do disco ofusca algumas canções quando limita a variedade e o dinamismo delas. Isso, por sua vez, torna o disco um pouco maçante, com faixas à deriva em uma paisagem angustiada e ritmo morno.
Apesar disso, temos aqui um álbum bonito e com um coração muito humano. Quando discos são auto-intitulados, eles contem a proposta da banda ou uma redefinição. Esse trabalho não se encaixa nessa tendência. O Interpol soa ao mesmo tempo distante e familiar, e isso o torna ainda mais misterioso e melancólico - é interessante montar seu quebra-cabeça.
Questão de ponto de vista