Após um hiato de 13 anos, a banda
Swans voltou à ativa no começo de 2010 e agora está lançando um disco novo,
My Father Will Guide Me Up a Rope to the Sky. Bandas que renascem das cinzas são sempre suspeitas - na maioria das vezes, seus integrantes não conseguiram emplacar novos projetos ou carreiras-solo e têm que apelar pro revival para voltar aos holofotes e ao mercado fonográfico. Mas neste caso é diferente. Primeiro porque o vocalista/guitarrista Michael Gira deixou bem claro no site da gravadora
Young God Records que "ISSO NÃO É UMA REUNIÃO. Não é um ato de nostalgia imbecil. Não é repetir o passado. Após cinco álbuns do Angels of Light (banda que Gira formou depois do fim do Swans), eu senti necessidade de seguir EM FRENTE, em uma nova direção, e reavivar a idéia do Swans está me permitindo fazer isso". Segundo porque, se a idéia fosse ganhar dinheiro e fazer sucesso, retomar o Swans não seria uma atitude inteligente.
O Swans foi formado na Nova York em 1982 e fez parte da segunda geração da no wave, mesma cena em que nasceu o
Sonic Youth. Nesse primeiro momento, a música da banda era bem pesada (resvalando no metal), arrastada e repetitiva. A temática das letras girava em torno de morte, violência, crueldade. Imagine um disco do Slayer em rotação lenta: é mais ou menos isso. Em 1986, com a entrada da vocalista/tecladista Jarboe, o som do grupo começou a passar por um lento processo de mudança: o andamento deixou de ser tão lento, a repetição ad nauseum de uma mesma célula musical deu lugar a estruturas mais convencionais (baseadas em estrofes e refrões), o vocal ficou mais melodioso e as guitarras barulhentas abriram espaço para instrumentos acústicos. A agressividade do período inicial foi abrandada, sem que a banda se tornasse comercial ou perdesse seu caráter sombrio.
Em 1996, o Swans lançou seu último álbum, o disco-duplo
Soundtracks for the Blind, um colosso de mais de duas horas de duração no qual guitarras distorcidas, instrumentos acústicos, gravações de conversas e sons eletrônicos que parecem ter brotado do espaço sideral se combinam em uma música extremamente densa e experimental. Com
My Father Will Guide Me Up a Rope to the Sky, o Swans inicia mais uma (nova) fase, sem cair na armadilha de repetir a si mesmo.
O disco abre com "No words/no thoughts", uma pedrada de 9 minutos e meio em que uma sucessão de sinos, guitarras distorcidas e ruídos fantasmagóricos maravilham e massacram o ouvinte. Essa faixa possui duas características marcantes e que acompanham o álbum como um todo. A primeira delas é o uso da dinâmica. Em uma época de arquivos digitais em que o som é compactado e comprimido, é interessante ver uma banda trabalhar com diversas intensidades em uma mesma música. A passagem da serenidade para o caos pode se dar de maneira gradual (em crescendos) ou abrupta (se o Swans original trabalhava com uma constância que chegava a ser agonizante, agora há sempre uma surpresa no caminho). Já a passagem do caos para a serenidade é sempre instantânea, levando a uma sensação de alívio imediato, mas que não dura muito tempo. A segunda característica é a composição por meio de diversas camadas de instrumentos e ruídos.
My Father... é um disco que pode ser ouvido vinte vezes e a cada vez será possível descobrir algum detalhe que havia passado despercebido: uma linha instrumental ou um barulho escondido pelos outros sons, ou como essas camadas se relacionam entre si, ora conversando, ora brigando.
Flash Content
Swans - No Words/No Thoughts (mp3)
A segunda faixa, "Reeling the liars in", é de uma ironia fina. Sobre uma base acústica quase folk e embalada por uma melodia assobiável se desenrola uma letra de violência extrema: colegas se aquecem ao redor de uma fogueira cujo combustível são os corpos dos inimigos deles. Para quem gosta de humor negro, essa é a hora de dar uma relaxada e soltar uma risadinha, porque da terceira até a penúltima faixa (são nove no total) volta o esquema carinho atrás da orelha seguido de tijolada na testa - sendo que, em My Birth e "Eden Prison" o afago foi suprimido. No quesito susto, destaca-se "You Fucking People Make Me Sick". Com participação especial do bicho-grilo
Devendra Banhart e da filha de três anos de Gira nos vocais, a faixa começa com um clima meio hippie e inocente. Até que, sem nenhum aviso prévio, as vozes e violões simplesmente somem, dando lugar a um bumbo grave e a um piano literalmente socado. Trompetes e trombones dissonantes e assustadores completam o filme de terror sonoro que se desenrola por dois minutos.
Flash Content
Swans - You Fucking People Make Me Sick (mp3)
Definitivamente,
My Father Will Guide Me Up a Rope to the Sky não é um disco para ouvir dirigindo, cozinhando ou respondendo emails. E muito menos para ser usado como fundo musical para um jantar entre amigos ou uma festinha hipster. É um trabalho que requer do ouvinte parar tudo o que está fazendo e concentrar a atenção na música. É tanta intensidade que, ao fim, a sensação é de esgotamento - e de ter experimentado arte e não entretenimento.