Em novembro de 1991, após dois anos de estúdio, álbum quebrou gravadora mas entrou para a história do rock independente.
O segundo semestre de 1991 é daqueles períodos na história da música quando discos voadores posam nas prateleiras das lojas e nos levam a outras dimensões sonoras. Em setembro,
Nevermind tirava o Nirvana dos porões de Seattle e as camisas xadrez dos armários; em outubro
Screamadelica do Primal Scream injetava no rock doses cavalares de dance music, da cultura das raves e de seu combustível, o ecstasy; e em novembro
Loveless, do My Bloody Valentine - o tesouro de hoje - extrapolava os limites sensoriais ao elevar as distorções de guitarra a níveis nunca antes - ou depois - ouvidos.
O
My Bloody Valentine surge em Dublin, Irlanda, ainda dentro do contexto da época, tocando uma mistura de rock gótico e pós-punk. A partir de seu segundo EP (
The New Record of My Bloody Valentine, de 86), sob uma clara influência do
Jesus and Mary Chain, a banda passa a experimentar discretamente formas de barulho que culminariam em
Isn't Anything, disco que em 1988 apresentava ao mundo outro tentáculo do rock: o
shoegaze.
Isn't Anything abriu portas para o MBV. Kevin Shields (voz e guitarra), Colm O'Ciosoig (bateria), Debbie Googe (baixo) e Bilinda Butcher (voz e guitarra) conseguiram distribuição nos Estados Unidos via Sire Records e fincaram pé como uma das bandas mais queridas da efervescente cena indie da virada das décadas 80/90. Com isso, a Creation Records - lar original do grupo - passou a investir quantias consideráveis na produção de seu sucessor.
Já em 89 Shields e cia. entram em estúdio para começar a gravar seu terceiro álbum. Mas com o passar de semanas, meses e finalmente dois anos, as expectativas dão lugar a boatos sobre o lançamento do disco e sobre o excesso de perfeccionismo do líder do My Bloody Valentine ser um problema. Enquanto isso, a Creation se via em uma situação financeira difícil: 1989 foi embora, 1990 também, e em 1991 a gravadora já havia gasto mais com um álbum que em toda sua história (não oficialmente foram $500.000). O resultado? A quebra da Creation e finalmente o lançamento, em 05 de novembro de 91, de
Loveless.
Se
Isn't Anything é a pedra fundamental do shoegaze,
Loveless é considerado por muitos (músicos, jornalistas, público) a marca d'água do estilo. Erguendo de uma vez por todas a conhecida parede de guitarras do MBV, em
Loveless essa parede é colocada à frente de todo o resto, deixando baixo, bateria e os vocais sufocados, escondidos. As distorções são levadas ao extremo, a velocidade do disco anterior é reduzida e do barulho se faz música. Estranho no meio disso existir espaço para algo de pop. Mas há.
Por meio de frestas na barreira de fuzzes, distortions, delays, reverbs e sabe-se lá quantos pedais e efeitos há nela, a sensibilidade pop encontra espaço e penetra em faixas como "When You Sleep" e a bela "Sometimes" (da trilha sonora de
Lost in Translation, filme de Sofia Copolla), faixas com letras bonitas - e razoavelmente compreensíveis - onde catarse e melodia dividem o mesmo espaço.
Mas na maioria dos quase 50 minutos de
Loveless, a atmosfera é densa e esconde a sensualidade presente no My Bloody Valentine (nas letras ou nos vocais de Kevin Shields e Bilinda Butcher). Seja no dream pop de "To Here Knows When" e "Blown a Wish", deixando transparecer a influência dos Cocteaus Twins; no experimentalismo do interlúdio "Touched" ou quando a banda só lembra a si própria (e aí se encaixam "Only Shalow" - que abre o disco - e todas as outras músicas), tudo é nublado, um tanto claustrofóbico, e estranhamente sentimental.
Destacar essa ou aquela faixa é bobagem, mas não há como falar sobre esse álbum sem comentar a última de suas onze músicas, a hipnótica "Soon". Aproximando o My Bloody Valentine da já madura cena indie-dance da época, "Soon" une as guitarras furiosas, os vocais preguiçosos, sonhadores e indistinguíveis da dupla Butcher/Shields e batidas que a colocaram em pistas de dança e até em raves - graças a um remix elástico de Andrew Weatherall, que subtraiu um pouco do barulho, amplificou os beats, pôs uma percussão e colocou os shoegazers para sacudir.
No final das contas,
Loveless pode não ser o marco zero do shoegaze, mas é com certeza a pedra filosofal de onde outros alquimistas das distorções tiraram suas lições para tentar realizar a grande obra. Mas outro álbum como este, se acontecer, somente numa dimensão paralela.=