Com um público diário médio de 85.000 pessoas e calor intenso (tirando alguns poucos momentos de chuva no começo do domingo) o Lollapalooza foi uma mostra do que é um festivalzão divertido, eclético e... intenso.
Lady Gaga with Semi Precious Weapons
Uma ida a festival exige planejamento, tipo não carregar muita tralha e evitar o horário de calor forte. Mas às vezes não dá - ou sou eu que não aprendi a lição. Cheguei no pico de sol, que impediu que eu gostasse do bom show do Big Pink, no (grande) palco da Adidas posicionado perto do (big-monster-mega) palco principal, batizado com o nome da fundação realizadora do Lollapalooza, a
Parkways, que atua na manutenção de parques e incentivo à cultura na cidade de Chicago.
Outra lição, mas essa eu aprendi, é que em um evento desse tamanho acontece muita coisa que você não pode (Soft Pack ao meio dia de sábado), não consegue (The xx tocando para 30.000 pessoas em um espaço para no máximo oito mil) ou apenas não vai (X Japan?) ver. São escolhas: entre os shows do Black Keys e do Jamie Lidell, entre estar na platéia do The National ou guardar lugar pra ver o Arcade Fire, entre sentar confortavelmente pra checar se o MGMT vai tocar "Kids" (tocaram) ou caminhar vinte minutos no sol para ver a diva Erykah Badu (que usou um poderoso moicano loiro).
SEXTA-FEIRAO dia com mais atrações interessantes e com menos público no evento - apesar do fator Gaga - também foi o com calor mais ameno. Destaque claro para o show do Jamie Lidell, no agradável e quase escondido palco patrocinado pela handcam Sony Bloggie, onde também se apresentaram
Fuck Buttons e Cymbals Eat Guitars.
Jamie Lidell - Another Day
Lidell e banda tiveram problemas no som que atrasaram em quase quinze minutos o começo do show, mas compensaram a espera com o vozeirão e banda afiada do irlandês.
Outros destaques do dia foram o show do Devo, as batidas do Balkan Beat Box e as apresentações sempre corretas do New Pornographers e do Dirty Projectors, além de um Hot Chip apagado no enorme palco, logo antes da Lady Gaga.
Bem mais felizes foram Matt & Kim, pilhadíssimos, tocando "Daylight" para milhares de pessoas, no mesmo palco onde mais tarde o Chromeo e suas inacreditáveis Chromettes destilou hits de seus dois álbuns, além de adiantar faixas do próximo como as já conhecidas "Night by Night" e "Turn the Lights Down".
Matt & Kim
Chromeo - Fancy Footwork
Mas um festival também é feito de decepções, e é nessa categoria que entra a Lady Gaga. A sensação de arrebatamento que eu estava esperando não veio. É inegável o talento que Gaga tem em juntar tudo que aprendeu com Michael Jackson, Madonna, Grace Jones, Donna Summer e ela é uma estrela de luz própria. Também se pode argumentar que sucesso comercial e grandes vendas nunca tiveram nada a ver com qualidade musical. Mas as batidas chochas de "Just Dance" me levaram para longe do palco rapidamente - e eu não fui a única, era uma massa de gente saindo. Melhor para os Little Monsters, que tiveram mais espaço para celebrar sua diva e mãe. Mas veja bem, não há como criticar a Gaga performer. Seu talento de cantora/dançarina, a empatia com o público, os já comuns discursos emocionados, o discurso libertário e sua voz grave e limpa, tudo isso é genuíno e deve ser celebrado. Sem falar nos bastidores, como o vídeo do stagedive que você viu no começo da matéria. Pois é. Mas o que falta na Lady Gaga é música. E como é de música que esse site fala, vamos deixar ela pra lá, por enquanto.
Lady Gaga - Bad Romance
E teve o Strokes. Difícil chegar no palco, tão concorrido quanto o da Gaga. Um show sem surpresas, mas na medida para os muitos fãs: hits, nenhuma música nova e apostura über-cool de sempre.
The Strokes - Take It or Leave It
SÁBADOMais um dia e mais uma lição aprendida: se você quer ver uma banda que gosta muito, chegue cedo e garanta lugar. Porque foi impossível enxergar o The xx tocando pérolas como "Crystalized" e "Heart Skipped a Beat" no pequeno palco Playstation para muitas (vinte? trinta?) mil pessoas espremidas entre a ponte de acesso, a sound house, a grade e o espaço aberto ao fundo. Quem conseguiu ver diz que o quarteto fez um dos melhores shows do festival, mesmo com sua gélida postura derretendo debaixo do inacreditável calor de Chicago. Mas eu consegui ouvir, de longe, "Night Time" enquanto uma menina desmaiava do meu lado e era ajudada pelos (sempre gentis) colegas de platéia.
The xx - Night Time
Não foram apenas os xx a trazer muita gente. O sábado estava bem mais cheio que a sexta-feira (e mais vazio que o domingo, recorde de público do Grant Park) e teve ainda shows do Dragonette, Gogol Bordello, Warpaint e um final apocalíptico após quase duas horas e meias do show do Green Day. Enquanto isso, do outro lado, rolou uma sequência de Grizzly Bear, Edward Sharpe & the Magnetic Zeros, Spoon (mais uma escolha dura), Cut Copy e Phoenix.
Edward Sharpe lotou o pequeno palco em meio às árvores para ver o público cantar junto todas as músicas a plenos pulmões, tanto em cima do palco quanto no chão. A banda tem quase vinte pessoas, que foram apresentadas uma a uma, durante a bela execução de "Home". Mas o disco de estréia dos caras tem mais que uma boa faixa, por isso escolhi outro momento:
Edward Sharpe & The Magnetic Zeros - 40 Day Dream
O show do Cut Copy foi uma das boas escolhas do sábado: animado, com um palco todo iluminado e som alto, tocaram duas músicas do novo disco, a bonita "Where I'm Going" que você
pode ouvir aqui e uma apresentada apenas como "a new song" com um feelings Happy Mondays anos 90. E encerraram com essa qui:
Cut Copy - Out There On The Ice
E o
Phoenix, que chega no Brasil
para o Planeta Terra logo menos, não aproveitou os incontáveis hits de seus três bem conhecidos discos, optando por versões longas e meio bagunçadas de canções menos conhecidas. Mas, claro, eles abriram com "Liztomania" e fecharam com uma apoteótica versão de "1901".
Phoenix - Lollapalooza 2010
Mais tarde no domingo o Phoenix faria um concorrido e histórico show no House of Blues, tradicional casa de shows de Chicago, tocando
Wolfgang Amadeus Phoenix na íntegra e com abertira abertura do Toro y Moi.
O Lúcio Ribeiro foi!DOMINGOO domingo teve MGMT em fase "Bob Dylan moderno" (mas tocou "Kids"), Erykah Badu, Yeasayer, The National e, não, o rraurl não foi ver o show do Soundgarden. Nem do National, na verdade. Tudo para guardar um bom lugar bem no meio e de frente para o palco do Arcade Fire, que encerrou o palco da Budweiser, no outro extremo do festival.
MGMT - Kids
Erykah Badu - Annie (Don't Wear No Panties)
Se alguém ainda tinha (tinha?) dúvida que depois de
Funeral e
Neon Bible o Arcade Fire teria inspiração para colocar mais um disco entre os grandes de sua geração, taí
The Suburbs. As canções em esquema hino e belas melodias ganham dimensão heróica no palco do Lollapalooza com, fácil, umas quarenta mil pessoas esperando cantando junto cada letra das canções do novo disco.
Arcade Fire - Ready to Start
Tamanha dedicação dos fãs deixou a banda em estado de graça. E eles voltaram ao palco com um presente, que os fãs foram cantando em coro, com abraços coletivos e lágrimas nos olhos, até a saída.
Arcade Fire - Wake Up
SUSTENTABILIDADE
Um dos maiores festivais do mundo, em quantidade de atrações e tempo de estrada, o Lollapalooza tem uma coisinha ou duas para ensinar. Aqui algumas sugestões do que os festivais do Brasil poderiam tentar imitar:
- Água gratuita. No surreal calor do verão do Grant Park, com suas vastas áreas de sol e milhares de pessoas disputando cada centímetro de chão, os estandes de água gratuita não servem apenas para diminuir a quantidade de lixo gerado, mas diminuem consideravelmente os casos de insolação e bebedeira nos postos de atendimento médico. O contra-argumento de que vender água é importante para o caixa soa mesquinho perto das cenas de famílias e grupos enchendo as garrafas que levaram de casa para passar para amigos e desconhecidos no meio dos shows. Dá para ganhar bastante dinheiro com camisetas e outras coisas que não viram lixo no fim do dia.
- Centrais de reciclagem para incentivar o público a descartar corretamente e, de quebra, ajudar a manter o evento limpo, o Lolla (como o Coachella) faz a troca de garrafas e latas vazias por produtos. Camisetas oficiais do evento e tickets para uma promoção que deu dezenas de bicicletas para sortados no fim de cada dia eram os brindes dessa edição.
- "Green Market" foi o nome dado a um espaço com lanchinhos como frutas frescas, castanhas, sucos e alimentos naturais. Disponíveis em todo o lugar por vendedores com cestos, as frutas, em especial, ajudam a manter o público esperto e alimentado no calor do evento, diminuindo a procura/filas por bares e praça de alimentação.
- Apps pra Android e iPhone com mapa, programação, notícias e opções de grupos de amigos. Usei e foi incrivelmente útil, cortando da minha lista de itens a carregar aquele colarzinho com lineups - e, portanto, gerando menos lixo pós-evento.
- Plantio de árvores em uma das muitas ações bacanas vistas no Lolla, uma em especial chamou a atenção ao ser exaustivamente divulgada nos telões no intervalo entre os shows: um SMS enviado para um número doa um valor para a Parkways plantar mais árvores no parque após o evento.
OUTRAS IDEIAS
- Wifi gratuito em todo o evento - tá, aqui é um exemplo de uma boa idéia difícil de realizar com sucesso - como manter a rede funcionando o tempo todo para todo mundo? Não sei, mas vale tentar. Além disso, estações de carregamento para celular com terminais para quem quiser entrar no twitter ou acessar o email estavam disponíveis.
- Áreas VIP Cheio de confortáveis áreas fechadas próximas aos palcos principais e com opções até de caronas nos carinhos, as áreas (e não "pista") para convidados e compradores dos ingressos mais caros satisfazem quem quer mais conforto e exclusividade sem jamais atrapalhar a experiência da massa pagante.
- Telões com informações úteis para o público no lugar de filmes dos patrocinadores, ao lado dos palcos, davam dicas sobre postos de achados e perdidos, pontos de abastecimento de água e endereços de flickr/facebook e afins para o pessoal subir seus filmes e fotos. Bem mais legal que ficar ouvindo jingle, diz aí? E isso não afasta patrocinadores, pelo contrário: o Lolla tem marcas como Budweiser, Sony, Adidas (com uma genial caixa gigante de tênis onde as pessoas faziam fila para entrar), Toyota, AOL, Citi e Paul Frank, todas bastante visíveis e presentes por meio de ações interessantes e bem planejadas. Pelo fim do overbranding!

fotos: Lollapalooza.com / vídeos do youtube de fontes diversas, por favor clique no player para visitar a página do autor e ver muito mais!Obrigado Lalai Luna, Ola Persson e Marcelo Fubah pela companhia, risadas e muitas, muitas cervejas durante o Lolla :)
jamie lidell.....mori 10x.tocou "when i come back around"?
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