"This is an album by Black Keys. The name of this album is Brothers". Não é toda banda que pode se dar ao luxo de colocar esse anúncio nada discreto na capa de seu novo álbum.
Mas o Black Keys já tem estrada de sobra -
Brothers é o sexto álbum do duo formado por Dan Auerbach e Patrick Carney, conhecidos pela sonoridade blues-rock que adotaram ao longo de sua carreira de maneira competente e equilibrada, de forma a permanecer com crédito no circuito alternativo e ao mesmo tempo atingir o grande público sem grandes conflitos.
Queridinhos dos amantes do indie rock, o
Black Keys conseguiu conquistar um espaço gigantesco no mainstream, com suas músicas chegando a todos os lugares possíveis - faixas em filmes como
Escola do Rock ("Set You Free"),
Entre o Céu e o Inferno ("When The Lights Go Out") e a cinebiografia de Bob Dylan,
Não Estou Lá ("The Wicked Messenger"); em games, como NHL 08 ("Just Got to Be"), Grand Theft Auto IV e NASCAR 09 ("Strange Times"); e em séries de TV, como Hung ("I'll Be Your Man"), Eastbound and Down ("Your Touch"), Big Love ("Lies") e One Tree Hill ("So He Won't Break").
Com um currículo desses, era de se esperar que a dupla não estivesse em busca de ainda mais projetos. Mas Auerbach e Carney não gostam de ficar parados, e em 2009 lançaram o projeto
Blakroc, ao lado de ícones do hip-hop como Mos Def, RZA, Q-Tip, Ludacris e Ol' Dirty Bastard, do Wu-Tang Clan. E foi esse projeto que influenciou de maneira decisiva o sexto álbum do Black Keys, o ambicioso
Brothers.
Se em
Attack & Release, de 2008, a banda havia resolvido variar um pouco a fórmula tradicional de blues-rock já saturada ao apostar em incursões pelo folk, sonoridades rurais e até mesmo um pouco de psicodelia, desta vez a influência decisiva foi da música negra. O que faltava de ritmo em
Attack & Release é compensado com generosidade pelo groove de
Brothers, que consegue levar a dupla a um novo estágio de uma carreira que antes parecia carecer de criatividade.
O blues original é repleto de agressividade, sujeira, sexualidade e primitivismo, uma atmosfera resgatada de maneira gloriosa pelo
The Dead Weather em
seu segundo álbum, Sea of Cowards. Essa abordagem do blues, dentro do cenário do rock, pertence hoje a Jack White, Alison Mosshart e seus companheiros - mas o Black Keys conseguiu levar essa fórmula para um novo nível, acrescentando um pouco de calma e de sofisticação, colocando a experiência de anos na estrada nas costas para criar um som que sabe ser cru sem parecer ter sido gravado na garagem.
Mas esta coesão não foi alcançada apenas pela esforço da dupla - um dos grandes responsáveis pelo som mais variado e melhor dosado da banda (os instrumentos têm espaço para respirar, sem que um som atropele o outro) é Tchad Blake, que assina a mixagem de
Brothers. É como se, finalmente, fosse possível ouvir com limpidez cada nota planejada pela dupla - o que é um alívio, já que ambos são excelentes músicos.
Brothers começa com "Everlasting Light", uma faixa repleta de groove e um tom de falseto inacreditável por parte de Auerbach (onde ele aprendeu a cantar assim?). "Oh baby, can't you see? I'm shining just for you, loneliness is over, dark days are through", canta ele, em um tom de desafio que dá um bom começo ao álbum.
A melodia agressiva de "Next Girl" mostra como o instrumental da banda continua afiado e repleto de texturas apuradas em estúdio, mas o grande atrativo da primeira parte do álbum continua sendo os vocais, sexy e variados como em "Howli'n For You" e desafiadores em "She's Long Gone". O instrumental é ótimo, mas conseguir remodelar a voz após anos de carreira não é tarefa fácil.
Única música que contou com a produção de Danger Mouse (que trabalhou com a dupla em
Attack & Release), o single "Tighten Up" é daquelas melodias assobiáveis e delicadas na medida certa. O baixo excelente e uma atmosfera de verão fazem com que o single seja irresistível, mesmo que destoe bastante de grande parte das melhores faixas da carreira do Black Keys. Danger Mouse acertou na mosca, reunindo os elementos mais bem acabados do som da dupla em uma música ensolarada que nem por isso resvala no rock farofa.
O Black Keys também caprichou nos refrões, com melodias bem feitas e contagiantes, como na musica "Howlin' For Your" e "Ten Cent Pistol".
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The Black Keys - Howlin' For You (mp3)
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The Black Keys - Ten Cent Pistol (mp3)
Mas, mesmo que o álbum inteiro seja bom, a cereja do bolo mesmo são duas faixas: a lindíssima "Too Afraid To Love", que resgata uma sonoridade dos tempos áureos da black music, com um vocal sofrido e virtuoso, e "Never Give You Up", cover de Jerry Butler. Nessas faixas é fácil perceber que o álbum foi mesmo gravado no Alabama, lar do lançamento de grandes álbuns de artistas como Aretha Franklin. É o mais perto que o Black Keys consegue chegar do som da Motown - e, por sorte, nem de longe caiu no caricato.
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The Black Keys - Too Afraid To Love You (mp3)
Se eu pudesse escolher qual rumo o Black Keys deve tomar no futuro, com certeza abraçaria a sonoridade dramática e quase trágica dessas duas faixas - afinal, o resto do álbum é muito bom, mas traz músicas que a dupla poderia ter feito em diversos outros estágios de sua carreira. Mas a maturidade de "Too Afraid To Love" é muito específica de Brothers - e só aí poderia existir. Talvez seja um rumo possível.