É possível dizer que a história do
Mystery Jets começou quando o guitarrista Henry Harrison, um pai afetuoso de 60 anos, escolheu a música para entreter o filho Blaine, que necessita de muletas para se locomover. Hoje, eles constituem uma banda indie bem sucedida com outros três jovens festeiros, e acabam de lançar seu terceiro álbum,
Serotonin.
O primeiro álbum desses ingleses foi
Making Dens, lançado em 2006. Foi uma ótima estréia, na qual a banda demonstrou criatividade e talento. O trabalho foi marcado por uma espécie de pop psicodélico. O segundo disco foi
Twenty One, de 2008 (
leia review aqui). Morno, encontrou a banda com hits mais modestos. Em geral, careceu um pouco da inventividade e da diversão despreocupada do debut.
Serotonin é um bom trabalho e apresenta mudanças, começando pela gravadora, o que já garante um novo estado de espírito. O produtor escolhido foi Chris Thomas, que já trabalhou com Pink Floyd,
Beatles e Sex Pistols. Ele evidenciou as harmonias e, certamente, ajudou o grupo a ganhar pontos com uma atmosfera brilhante e ensolarada. Apesar de criativo, o Mystery Jets não deu espaço para a experimentação da estréia. A banda não arrisca: optou por um trabalho totalmente pop. A maioria das canções dura cerca de três minutos e meio, e todas têm refrões e riffs impactantes. Isso não é exatamente uma novidade para o grupo, mas agora tudo parece lapidado, calculado.
As músicas são muito bem executadas. É um trabalho vivo - mesmo quando o tema das canções é piegas, o grupo soa positivo e enérgico. A ênfase está na melodia e as faixas estão atadas em notável sintonia.
O conteúdo das letras é de legítimo pop: sentimentos universais, metáforas sem abstrações e, principalmente, corações partidos. "Não importa o quanto eu tenha tentando, eu nunca te encontrei", Blaine canta na faixa título.
Flash Content
Mystery Jets - Serotonin (mp3)
Sabemos bem que não são necessárias letras geniais para fazer um tipo de música duradouro, mas vale mencionar que as composições aqui deixam a desejar. É difícil saber se são piores quando simples, abordando sentimentos piegas, ou quando visam uma profundidade que definitivamente não alcançam.
Exemplo disso é a abertura "Alice Springs". É brilhante a lenta construção dessa música até um refrão épico, mas, em compensação, Blaine canta: "A liberdade é uma ilusão / Gerada pelo seu cérebro". O mesmo vale para a faixa 8, Lady Grey. Ela é agradável, até que o vocalista declara, "Quando a vida te dá limões / Você faz limonada". São clichês, mas também, inegavelmente eficazes.
Flash Content
Mystery Jets - Alice Springs (mp3)
Outra temática desenvolvida é a das drogas. O próprio título do álbum torna isso evidente - soa como se falassem de uma garota, Sarah Tonin, mas nas letras é perceptível qual é o verdadeiro assunto: "Nós fazemos uma poção mágica / Começa a velha sensação familiar". Algumas músicas são um pouco mirradas. A faixa 2, "It's Too Late To Talk" por exemplo, é uma óbvia e insípida balada sentimental. O mesmo vale para a melancólica "The Girl Is Gone", que é suave e amável, mas não tem substância.
Porém, os bons momentos prevalecem. "Flash a Hungry Smile" tem riffs fortes que se dissolvem em uma melodia cheia de assobios. A ótima "Show Me the Light" é ousada, e "Dreaming of Another World" é simples, mas cativante.
Além disso, não faltam canções doces. As três músicas finais comprovam isso. "Waiting On A Miracle" tem melodia cativante, "Melt" é especial, e "Lorna Doone" apropriadamente encerra o álbum de um jeito épico.
Flash Content
Mystery Jets - Melt (mp3)
O Mystery Jets manteve seu encanto, um charme um pouco rude, sentido até mesmo em canções cheias de romantismo, mas falta inovação e uma grande novidade no disco. Ocasionalmente a banda tenta algo diferente em alguma música, mas não foca nisso por muito tempo. De qualquer forma, é um trabalho pop, excitante e ambicioso. É justo que o quinteto queira ver seu material tocando para o maior número possível de pessoas, e
Serotonin evidencia essa intenção. É um disco melódico que sabe aonde quer chegar.
