Jake Shears e banda recorrem ao obscurantismo dos anos 80 para soar mais gay e animados do que nunca
O grupo nova-iorquino Scissor Sister atinge uma notável maturidade em seu terceiro disco,
Night Work, lançado quatro anos depois de
Ta-Dah, aquele do hitaço "
I Don't Feel Like Dancing". Mas não se engane, o grupo que surgiu com a poderosa "
Confortably Numb" mostra suas convicções sobre disco music, 80s e cultura gay, deixando para trás qualquer possibilidade de um hit que resuma a ideia do álbum, justamente como aconteceu antes.
Night Work, como diz o nome e a sugestiva capa de uma bunda masculina, é um treino incansável de techno-pop oriundo de obscuridades dançantes dos anos 70 (disco, space), e também dos anos 80 (synth pop a la Duran Duran, HI-NRG gay de Divine e Sylvester...). Longe de celebrar a versatilidade festeira, que no último disco foi parar até em ritmos folk e country abençoados pelo padrinho da banda Elton John, Jake Shears, Ana Matronic e banda contam as amarguras da vida noturna gay: ereções (!), solidão, encontros às escuras e festas, muitas festas, são algumas das temáticas. Não à toa o baixinho Jake Shears exibiu o abdômem e pelos pubianos em
várias revistas gays na ocasião do lançamento do disco.
Scissor Sisters lifestyle

A produção ficou a cargo de Stuart Price que, curiosamente, soa meramente como pessoa de suporte: a banda tem uma coerência e identidade invejável ao longo das 12 faixas, passando por guitarras dançantes dos anos 80 (que se confundem até com o hard rock; ouça "Harder You Get"), por falsettes de Bee-Gees de Shears (o single "Invisible Light" é grandioso e cheio de variações. "Any Which Way" é tão Bee-Gees que se eu fosse o advogado do grupo pediria uma parte dos direitos autorais).
É um disco que vale por seu "night work" animado e uplifting, tendo como ponto baixo as baladinhas e pretensões de rock de estádio que acabam soando como Robbie Williams ("Fire with Fire") e até mesmo The Killers em versão dance ("Skin Tight"). A adição dos elementos oitentistas, fecha de uma vez por todas a receita dance/pop/gay do grupo, cujos líderes Jake Shears era um ex-dançarino de boate em NY e Ana Matronic foi uma garota raver que perdeu o pai, gay, vítima da AIDS.
I WANT A MAN WHO SMELL LIKE COCOA BUTTER AND CASH!A faixa-título mistura as cordas da disco e o falsete ala Boney M/Bee-Gees com synths de new-beat; em "Running Out", Shears e Matronic criam, em dueto, uma espécie de Gary Numan afetado, confortado por nostálgicos riffs pós-punk, Joy Division Puro.
"Something Like This" é absurda com seu groove e base totalmente inspirada em "Radioactivity", do Kraftwerk. Numa época em que as referências tentam soar veladas, mas no final muito do que é lançado soa como pastiche do passado, esta é uma prova da eficiência do Scissor Sisters como banda, e também de sua criatividade. Até mesmo colocar risos malignos de Vicent Price em duas faixas, coisa que o Michael Jackson fez em
Thriller, acaba sendo bacana e perdoável aqui.
Flash Content
Scissor Sisters - Something Like This (mp3)
As contradições dessa festa toda reflete-se mais na temática e nas letras do que na musicalidade, que é divertida e bem amarrada. Enquanto Jake Shears geme que "Eu não quero ser seu queridinho / e nem sou sua mãe" ("Harder You Get", talvez a faixa mais sexualizada que eles já fizeram), ele chora em "Something Like This" que "estou tão só que eu poderia morrer" (
"i'm so lonely I could die"). Mas o disco acaba sem drama na melhor faixa, a techno-trance-pop "Invisible Light": letra pop abstrata, épica, cheia de metais a la "Big in Japan", galopes de disco e gemidos espaciais de Shears, que deve encerrar o sempre divertido show da banda de maneira inesquecível.
SCISSOR SISTERS FACTS!
PORQUE UMA BANDA POP TEM QUE DAR O QUE FALAR
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Num filme que tem rave comandada por bruxas e flautista mágico que hipnotiza ao som de Beastie Boys, o Scissor Sisters marca presença com uma faixa exclusiva. A trilha do quarto e último filme do ogro Shrek, Shrek Forever, traz Lionel Richie, Weezer em cover de The Monkees e também os nova-iorquinos cantando "Isn't It Strange", que aparece na hora de um voo com vassouras.
-A capa de Night Work é uma foto do consagrado fotógrafo Robert Mappelthorpe, que foca em gigantismo a bunda do bailarino clássico Peter Reed, falecido em 1986. Alegando que a imagem era "excessivamente explícita", o Facebook censurou na Espanha uma peça publicitária que divulgaria o disco. Para revidar, a banda promoveu um concurso "Show Your Ass" em seu site.

-Nestas mesmas semanas do lançamento de Night Work, um CD não-oficial de bootlegs, demos e raridades da banda tem sido vendido no site da Amazon. Com o nome de K-Mart Disco, o CD foi lançado em 2007 só na Austrália, mas voltou agora às prateleiras virtuais por US$ 19,99.
-E para saber mais sobre a banda, se ligue no SCISSOR SISTERS NEWS, que nesta edição traz os repórteres Kelly Osbourne (!) e a garota do tempo Amanda Lepore (!!!)...
:)