Nos dois álbuns anteriores, a rapper inglesa
M.I.A. (de
missing in action) debruçou suas rimas incendiárias sobre ritmos dançantes, vindos de nações em desenvolvimento - fosse funk carioca, kuduro ou bhangra. Assim, compôs dois dos álbuns mais interessantes da década:
Arular (2005) e
Kala (2007), junto a produtores especializados em reinterpretações étnicas, como o americano
Diplo e o inglês
Switch (os dois formam o projeto de dancehall-pop
Major Lazer).
Em
Maya (ou
/ \ / \ / \ Y / \), seu terceiro álbum de inéditas, M.I.A. parece mais interessada no noise-rock de grupos como
Holy Fuck (com quem ela excursionou em 2008) e
Sleigh Bells - cujo Derek Miller participou nas gravações deste disco. Essa é a principal novidade que se encontrará nessas 16 músicas. Rareiam os bumbos gordos e os timbres exóticos; entram guitarras sujas, bateria frenética e estampidos industriais.
Flash Content
M.I.A. - Teqkilla (mp3)
Não que tenha havido uma grande mudança no time de produção. Os mesmos Diplo e Switch se juntam a outros nomes conhecidos da cena eletrônica alternativa, como o inglês Rusko e o americano Blaqstarr, além do irmão de M.I.A., Sugu Arulpragasam.
Permanecem também os versos irados e combativos. Em "Lovalot", talvez a melhor do álbum, a rapper escancara sua indisposição ao pacifismo em frases como: "I won't turn my cheek like I'm Gandhi", "I fight the ones that fight me" e (a genial) "Keep your head down like a UNICEF worker / If you get hit you can't question the fucker".
Flash Content
M.I.A. - Lovalot (mp3)
Aqui, os arranjos instrumentais lembram aqueles ouvidos nos dois álbuns anteriores da cantora. Baixo arredondado, texturas esfumaçadas, percussão tribal...
Em outras canções, de tão paranóicas, as rimas beiram o inofensivo. É o caso da introdução, "The Message": "Head bone connected to the head phones / Head phones connected to the Iphone / Iphone connected to the internet / Connected to the Google / Connected to the government". Ela se salva pela rajada grave e distorcida que acompanha todo esse palavrório banal.
Ainda que
Maya não soe brilhante como
Kala, este novo álbum está longe de fazer feio em sua apropriação do noise-rock. Basta ouvir a faixas como "Steppin' Up", digna de um Fuck Buttons na ressaca, "Med and Feds", produzida em parceria com Derek Miller, do Sleigh Bells, e "Born Free", um disparo punk e distorcido (dispensável lembrar
o clipe dirigido pelo francês Romain Gavras, num momento especialmente fraco do cineasta).
Flash Content
M.I.A.,www.C2M.Ir, M.I.A. - Meds & Feds (mp3)
Assim, passado o período de adaptação com essa nova sonoridade da inglesa, podemos aproveitar seu mais interessante talento: reaproveitar gêneros musicais como desculpa para tocar em temas como Talibã e o uso de burcas, álcool e drogas, clubes noturnos e iPhone. É isso que faz M.I.A. ainda soar única. E com tantos artistas monotemáticos por aí, eis um talento a se respeitar.
Flash Content
M.I.A. - Steppin Up (mp3)