Quando uma (boa) banda demora cinco anos para lançar um novo álbum, a sensação é de ansiedade. Quando a demora é de, digamos, dez anos, já começamos a nos preocupar. A partir desse período de tempo, a tendência é simplesmente parar de esperar - e foi isso que o
Devo fez com seus fãs, demorando exatos 20 anos para lançar seu nono álbum de estúdio,
Something For Everybody.
Todo mundo já havia deixado de aguardar - afinal, o Devo, um ícone do new-wave, há muito tempo não fazia um álbum verdadeiramente empolgante e digno de sua conhecida mistura de sonoridades punk e ritmos feitos para a pista de dança. Além disso, as críticas ácidas e irônicas contra o mundo do consumo, que no início da carreira da banda, em meados de 1970, eram geniais, hoje correm o risco de se tornar mero lugar comum.
Por sorte, o Devo - que e
steve no Brasil em 2007 no Festival Planeta Terra e está no lineup do norte-americano
Lollapalooza - provou que, sim, valeu a pena esperar 20 anos. Esse período foi interrompido apenas e brevemente pelo
lançamento de "Work It", para um comercial da Dell, também em 2007.
Está tudo lá: a agressividade pós-punk de seu primeiro álbum,
Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!, a experimentação eletrônica e os deliciosos sintetizadores de
Duty Now for the Future e o tino certeiro para criar pequenas canções de synth-rock. E é um alívio perceber que o discurso crítico do grupo não envelheceu, fazendo hits de classe para balançar as pistas e não música cabeçuda.
O álbum já começa com um hits instantâneo para as pistas, a energética e divertida "Fresh". A letra, absurdamente simples, fala sobre um sentimento novo e desconhecido, que precisa ser seguido e desvendado. "I'll search until I find it / so fresh", afirma o refrão, e a sensação é que o Devo realmente conseguiu achar algo fresco e novo nesses hiato de duas décadas.
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Devo? - Fresh (mp3)
Outra música que nasceu para ser hit é a intensa "Cameo", com um refrão repleto de vozes sinteticamente multiplicadas e um vocal principal com cara de rock star. "Step Up" começa delicada e com batidas espaçadas, mas logo vira uma pancada, fortemente apoiada nos riffs de guitarra. Já "Mind Games" prefere se estruturar a partir dos sintetizadores, com um refrão grudento e repetitivo.
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Devo? - Cameo (mp3)
Guitarras barulhentas, sintetizadores, riffs grudentos e um retorno à agressividade do pós-punk são elementos que vão e vem ao longo do álbum - a new-wave do Devo, sempre difícil de classificar, incorporou mais do que nunca sua alma roqueira, criando um mix entre os riffs mais violentos e os elementos eletrônicos, puxando o rock de volta para as pistas.
Com a produção de Greg Kurstin, John Hill,
Santigold e John King,
Something For Everybody cumpre o que promete desde seu título: músicas para todos os gostos - os sintetizadores pesados em "Human Rocket" (homens máquina procurando seu lugar no mundo moderno), a sujeira calculada de "What We Do" ("What we do is what we do, it's all the same, there's nothing new", ironiza o vocalista Mark Mothersbaugh) e a redonda "March On", hit instantâneo com um vocal limpo e guitarras proeminentes.
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Devo - March On (mp3)
É difícil saber quando o Devo está brincando ou não - simultaneamente ao álbum, o grupo pretende lançar um reality show (!!) para discutir exatamente a questão dos limites entre a ficção e a realidade. Na história, os integrantes do Devo mostram uma "suposta" campanha de adequação de sua imagem à realidade musical contemporânea.
Pelo que mostram em
Something For Everybody, o Devo está bem longe de adequar sua imagem a algum outro modelo. Prova disso é que mesmo um time de produtores claramente comprometidos com os parâmetros da indústria pop não mudaram em nada a essência desses amantes da new-wave que começaram como universitários de artes plásticas antes de explodir para o mundo da música.
Em "What We Do", Mark Mothersbaugh diz que não é possível fazer nada novo, nunca. "What we do is what we do, different names, it's nothing new", diz a letra. O refrão histrônico e aparentemente ridículo ("eenie meanie meanie meanie minie minie mo, the lucky ones are the first to go") só acentua a impressão de que o Devo pode até estar se repetindo em
Something For Everybody - afinal, o álbum não traz nada que seus outros trabalhos não tenham trazido anteriormente. Mas quantas bandas podem se dar ao luxo de copiar a si mesmas?