A vitrine dos tradicionais selos, em coletâneas de James Holden, Ewan Pearson e Optimo
Vitrine de artistas prediletos da nação eletrônica, as coletâneas bombadas de selos como Kompakt, K7! (DJ-Kicks) e Fabric não só sobreviveram, como aumentam cada vez mais seu capital social com seus CD-mixes de nomões, numa época que o DIY de sets, soundclouds e podcasts correm soltos na internet, revolucionando a carreira de artistas espertos e bons de mixagem (vide os charts mensais do Aeroplane).
De todo modo, estes discos servem para testar novas facetas de bons DJs e produtores curiosos, como o próprio James Holden, com seu loop etéreo e hipnótico comandando uma peculiar edição da DJ-Kicks. Tem também os bem cotados de sempre, como Ewan Pearson, que se orgulha de suas escolhas para um CD-Mix da Kompakt, e os escoceses do Optimo indo do techno aos 80s num crossfader, em mais uma coletânea Fabric. Vamos às resenhas.
JAMES HOLDEN
DJ-Kicks
K7! - Nota: 4.3James Holden é um cara estranho. Tanto pelo seu semblante e pelo modo introspectivo que toca ao vivo, o inglês reflete essa estranheza em suas produções (lembra do assustador
The Idiots are Wining?) ou remixes (aquele absurdo feito com "
Get Together", da Madonna).
Ele estabeleceu ainda essas variantes entre o loop viajandão e o pop desfigurado em coletâneas como a fabulosa
At the Controls (2006), e agora Holden volta aos holofotes pelo DJ-Kicks, onde mixa 20 faixas quase de maneira imperceptível, alternando humores, interlúdios, viagens espaciais e uma faixa inédita ("Triangle Folds").
É um disco difícil, e pasteurizado no melhor sentido: Holden é exímio no repertório, alterando faixas com loops achatados e contemplações experimentais em mixagens veladas, fazendo com que todo o set parece uma única música, uma única jornada rumo ao desconhecido. Algo louvável num tempo em que DJs fazem coletâneas bacanas, mas insistem com certo cansaço em hits (vide o recente
Fabric do DJ T.). Então, caro leitor, se você busca novidade, James Holden é o cara, por mais que este seja um disco indigesto e que exija de você concentração e certa paciência.
Flash Content
Grackle - Disco (Musiccargo Remix) (mp3)
A história começa com a irônica "Disco", de Grackle remixado por Musiccargo, que absorve os elementos kraut-prog da turma de Lindstrom e Prins Thomas e destila os
claps da disco music em chimbau techno. A evolução da faixa desbanca na epopeia de cowbells de "Lemon Yoghurt", do nosso tão amado Caribou. O mix de Holden varia estas viagens paralisantes para alcançar seus momentos épicos, sempre discretos. Destaque para a presença dupla de Luke Abbott, revelação recente do selo Border Community: "Soft Attacks" é uma boa síntese da identidade apaziguante do selo, um synth trance que parece ter sido criado sob efeito de heroína.
Flash Content
Luke Abbott - Soft Attacks (mp3)
Mais para o final do disco, Holden cria um zeitgest do novo deep com "Potentialities" (ARP) e "Open Melody" (Lucky Dragons), que são irmãs siamesas da linda "Wonders of Deep", que encerra o
novo disco do Chemical. O DJ permite ao ouvinte um momento de pista "tradicional" com a acid space "Flight of the Jupiter", do Legowelt, que tem groove líquido e soa como uma filha extra-terrestre de "
Voodoo Ray". No geral, este DJ-Kicks de Holden é uma ilustração, experimental e
noisy, do que a eletrônica deep está sendo em 2010.
Flash Content
Legowelt - Flight Of The Jupiter (mp3)
EWAN PEARSON
We Are Proud Of Our Choices
Kompakt - Nota: 3.5Ewan Pearson não é um mero DJ inglês que mudou para Berlim. Ele é um dos nomes mais influentes na transição (e na fusão) da música eletrônica com o pop. É ele que é escolhido pelo Delphic para produzir seu disco no lugar do Chemical Brothers; é ele que cuida dos lançamentos de Tracey Thorn pós-EBTG; ele que sabe tocar Radiohead no meio de um set e ele que deu vida à carreira de Cortney Tidwell com o remix de "
Don't Let Stars Keep Us Tangled". E foi ele que a Kompakt escala para um CD-mix com o sagaz título de
We Are Proud of Our Choices (temos orgulho de nossas escolhas).
Flash Content
Al Usher - Silverhum (John Talabot's Wilderness Remix) (mp3)
Ewan Pearson, orgulhoso

No CD, Ewan mostra um olho atento às boas sonoridades de 2010, como o remix afro-prog-house de
John Talabot para "Silverhum", do Al Usher, que traz dignidade e heroísmo ao disco. A presença nesta coletânea da Kompakt é mais uma confirmação que faltava para o bom momento de artistas como Bot'ox (com a oitentista "Blue Steel") e Gold Panda (remixando bem quietinho a lo-fi "Bliss Out", do Lemonade). E, no ápice pop do disco, Pearson celebra o sucesso do
Little Dragon, que após dois excelentes álbuns, angariaram uma tonelada de fãs além-underground ao participar do
Plastic Beach, disco deste ano do Gorillaz. O remix de sua alcunha houseira World of Apples não mexeu muito nas características originais de "Fortune", apenas botou fogo na linha de baixo.
Flash Content
Little Dragon - Fortune (World Of Apples' Cosmic Edit) (mp3)
No mais, a evolução de sempre de Pearson entre o neo-trance, a house music e o deep. "Birds of Tree" é bem berlinense, cheio de sinos e ecos a la
Pantha du Prince de um tal A Ldric. A coisa fica um pouco mais séria, groovy e elástica, com a "Analog Effekt", boa opção de Xenia Beliayeva para quem, assim como eu, achou o
Dust da Ellen Allien uma baboseira sem tamanho. E Ewan Pearson te põe para dormir numa cama transbordando de serotonina com a sensual "Open Our Eyes", de Yukihiro Fukotomi, que tem pianos e aquele chimbau rápido e constante, bem como Carl Craig gosta.
Flash Content
Yukihiro Fukotomi / Foog - Open Our Eyes (12 Inch Version) (mp3)
OPTIMO (ESPACIO)
Fabric 52
Fabric - Nota: 4.2A dupla escocesa Keith McIvor e Jonnie Wilkes, o Optimo (agora com o sobrenome Espacio), se inspira em suas festas eventuais no Room Two da Fabric londrina e lança uma belíssima compilação pelo selo do clube. É o 52º
Fabric CD-mix, que mixa com classe 80s, pós-punk, techno e gracinhas da eletrônica como tropicalismos de Matias Aguayo, Rebolledo e Fela Kuti.
Sem dúvida o mix mais
clubbing da dupla, o Optimo se diferencia dos 2Many DJs por não exacerbar sua fusão de diferentes ritmos no pinote do mash-up, na bombação histérica de coisas como Abba vs Guns N'Roses - que no final soam artificiais. Aqui, é simplesmente um set de festa bem tocado, que mostra bom repertório, por exemplo, com a mistura de Fad Gadget (proto-electroclash goth dos anos 80) e um remix espacial de Prins Thomas, logo no começo deste CD-mix, de pouco mais de 1 hora.

A presença de "Lady Shave", do Fad Gadget, é equivalente ao assombro que o Junior Boys causou com seu mix de "Fade to Grey" (Visage), no seu
Body Language. A levada mais puramente eletrônica é ministrada com o respeito de nomes como Basic Channel e o ácido rasgado de "Jack Your Bodey House Your Mind" de um tal The Minister - soa como 1989, mas é de 2010 a faixa.
Tocar Thomas Brinkmann com boogie woogie em alemão, Roska com cumbia, o lo-fi "Don't Call" (Desire) com Roni Riffith, são provas de que o Optimo (Espacio) tem a eletrônica como instrumento e desbrava as variações do rock pós-punk como poucos. São bons DJs de fato, que misturam raridades obscuras com novidades que soam antigas referências e confudem as referências do ouvinte.
Eles sempre foram assim. Os poucos que o viram tocar no
Campari Rock de 2005 em SP sabem -; esta coletânea foi só para a gente lembrar.