Show da M.I.A. teve efeito catarse. Leia review.
O lugar parecia o centro do mundo. E a julgar pelas centenas de crachás espalhados na mesa das credenciais de imprensa, podia ser mesmo. La estavam representados alguns dos veículos mais importantes do planeta, de medalhões da velha imprensa aos blogs mais alternativos: New York Times, Vanity Fair, MTV, Village Voice, Time Out, W Magazine, RCRD LBL, Folha de Sao Paulo...
e o rraurl!
O evento de lançamento do
Creators Project,
projeto financiado pela revista Vice e pela Intel voltado a artistas que utilizam a tecnologia para a produção e divulgação de seus trabalhos, iria mostrar na cidade de Nova York o resultado das pesquisas de criadores espalhados por cinco paises em quatro continentes. O clima era de total celebração, com uma programação de shows, DJ sets, exibições de filmes, performances - e pra esquentar a coisa toda: bebida de graça durante as doze horas de duração do evento. Os cerca de 3 mil e quinhentos sortudos que teriam a oportunidade de curtir a festa haviam se inscrito pela internet e agora era a hora de se jogar. Já durante o credenciamento veio a primeira - e ótima - surpresa. Fomos informados que o "very special guest" prometido para o lançamento seria ninguém menos que a rapper
M.I.A., figura solar na galáxia do pop mundial. Oh, fuck!
O lugar escolhido para a festa foi o Milk Studio. Localizado no hypado Meatpacking District, ao lado da antiga linha de trem desativada e transformada no jardim suspenso High Line, o Milk Studio é um gigantesco estúdio de fotografia que também oferece aluguel de equipamentos fotográficos. No enorme prédio de arquitetura industrial, três andares foram reservados ao evento - alem da charmosa cobertura, onde se refestelavam os VIPs. La dentro, o sobe e desce pelos monstruosos elevadores era frenético. No térreo, o visitante logo se deparava com uma instalação dos americanos
MOS Architects e um painel supercolorido do também norte-americano
Takeshi Murata. As boas vindas eram dadas pela dupla
Golden Filter, em DJ set.
A maioria dos trabalhos expostos demandavam a interatividade com o público. No segundo andar, estavam o cubo luminoso do brasileiro
Muti Randolph (criador do design futurista do interior do clube
D-Edge) e a instalação Triptych do coletivo britânico
United Visual Artists, que também apresentou a video-instalação Hereafter. Usando uma câmera de alta velocidade, Hereafter cria, nas palavras de seus genitores, "uma perpetua historia do espaço, mixando interações, objetos e pessoas previamente gravados. Um trabalho bem interessante.
Outro ponto alto foi "xx: A Sculpture of the Album", trabalho descrito por seus criadores,
Saam Farahmand e Karl Sadler, como um "video-clipe físico". Durante seis dias de janeiro de 2010, Saam e Karl registraram o trio britânico
The xx sobriamente executando, na integra, seu álbum de estréia. O resultado tem sido exibido o redor do mundo na forma de três displays, contendo cada um deles o video de um dos integrantes do xx tocando. Os displays, que lembram de alguma forma o monolito de
2001: Uma Odisséia no Espaço, são disposto em forma circular. Na sala escura e fria, o espectador se posiciona no centro do circulo, rodeado pela banda em seus monolitos. Uma experiência singular, que, segundo Saam Farahmand, "compartilha sensibilidades com uma instalação de arte mas não deve ser considerada neste contexto. Em essência, e um video-clipe físico, um santuário em loop do álbum, que não pode ser comprimido, enviado ou desligado".
Outros artistas comissionados pelo Creators Project que exibiam seus trabalhos:
Mark Essen com seus games em layout 8-bit;
Ricardo Carioba e seus "desenhos espaciais"; o guitarrista do Yeah Yeah Yeahs
Nick Zinner, que apresentou A.D.A.B.A., uma instalação sonora e fotográfica; o duo Radical Friend e a instalação performática
The Digital Flesh.
Momento muito aguardado do dia foi a exibição de
I'm Here, novo curta-metragem do cineasta pop
Spike Jonze. Com meia hora de duração
I'm Here trata da historia de amor entre dois robôs que vivem em Los Angeles. E la estavam as marcas registradas do diretor, como as tomadas com jeitão de video-clipe com o por-do-sol em contra-plano e o uso de singela trilha-sonora. A surpresa veio com fim da projeção, quando a tela foi recolhida e, ao fundo, a trilha era executada ao vivo pela banda da compositora
Aska Matsumiya.
Enquanto assistia ao filme, percebi que muitas câmeras registravam a reação da platéia. Alem disso, todos portavam seus iPhones e tiravam fotos, faziam vídeos, tuitavam, postavam mensagens no Facebook. Computadores espalhados pelo prédio estavam a disposição para o uso e telas exibiam os últimos tweets sobre o evento. Tudo era exibido, registrado e reproduzido simultaneamente. O que me fez lembrar de
Ken Kesey e seus Merry Pranksters, que em suas famosas viagens lisérgicas de ônibus pelos Estados Unidos nos anos 60 (e que Tom Wolfe registraria no clássico do jornalismo literário
The Kool Aid Electric Acid Test), tudo registravam e reproduziam, fazendo o melhor uso possível do que os equipamentos analógicos da época permitiam. "Tive um flashback de acido", disse o co-fundador da Vice,
Shane Smith, relatando sua experiência no cubo de luz de Multi Randolph. De fato, todo aquele happening de luz, som e tecnologia carregava um certo espirito dos anos 60, reforçado pelo clima de aldeia global vivido pela geração WWW e que está no cerne do projeto. E ainda tinha a neo-psicodelia de bandas como
Neon Indian e
Gang Gang Dance. Como diria
Yoko Ono (em entrevista ao jornalista Hans Ulrich Obrist): "Tudo o que discutíamos nos anos 60 em termos de aldeia global esta acontecendo agora. Vivemos hoje uma conclusão lógica das utopias dos anos 60."
Na conferência de imprensa, a manda-chuva do marketing da Intel, Deborah Conrad garantiu que aquela era apenas a largada de um projeto ainda maior. "Este é o ano 1", brindou Deborah, faceira com o resultado evento (enquanto eu fico pensando quanto deve ter custado a coisa toda). Na coletiva, também foi bastante destacado o papel do Brasil nessa nova confluência de arte e tecnologia. "Brazil is on top", afirmou Shane Smith, da Vice, "e São Paulo é a capital da America Latina" - o que faz só aumentar a expectativa para o evento brasileiro, que acontece
dia 14 de agosto, em Sampa. Shane e Deborah também falaram de como seu deu a escolha dos artistas participantes do projeto. Eles chamaram alguns artistas que conheciam, que por sua vez chamaram outros. "E o conceito de criadores como curadores", resumiu Deborah.
As atrações musicais eram muitas e algumas vezes simultâneas. O primeiro show do dia aconteceu as seis da tarde.
The Rapture tocou no Loading Dock, um palco montado na entrada de cargas do prédio. Na calçada, banquinhas com hamburgers, hot-dogs e sorvetes faziam a alegria da galera. Do lado de fora da grade de isolamento, o povo que passava nos fundos da Rua 14 curtia o show do
The Rapture. Um show meio burocrático. Luke Lerner, que antes circulava pelo backstage com sua esposa e um bebezinho, tinha um ar cansado. A ausência do carismático baixista Mattie Safer tambem contou pontos contra. No repertório, a banda não ousou em nenhum momento, escolhendo basicamente faixas do segundo disco,
Pieces of the People We Love (de 2006!). Nem sequer uma palhinha do esperado próximo disco, que Luke prometeu ser melhor que o iPad.
Mas ousadia não faltou na apresentação do
Gang Gang Dance. O grupo abusou de seu pop-experimental-afro-dance-delayed-batucada, com direito aos gritos hipnóticos da filhote de Bjork Lizzi Bougatsos. O grupo tocou apenas uma faixa do álbum
Saint Pymphna (2008) e deu bastante espaço para longas improvisações instrumentais e percussivas. O publico entrou num tipo de êxtase e a banda foi bastante aplaudida no final do show.
Nova York ama o
Interpol. Essa foi a sensação durante a apresentação do quarteto. O som estava impecável e a banda exibiu elegantemente seu repertório de canções inspiradas no Joy Division. O que talvez tivesse sido concebido originalmente como melancólico adquiria ali contornos celebratórios. O publico acompanhava as musicas em coro. Um show que poderia agradar ate quem não gosta do Interpol.
Os coquetéis bebidos desde as duas da tarde já faziam um estrago positivamente considerável, quando o
Neon Indian subiu ao palco da galeria do primeiro andar, as 22h45. A banda do texano Alan Palomo não poderia ser mais nova-iorquina. Algo como, "o novo MGMT", pra usar da lógica hipster. O show foi bem psicodélico, com solos de theremin e projeções coloridas ao fundo. O pop tipo Phil Spector do Neon Indian explodia dos altofalantes em momentos deliciosos como o hit "Deadbeat summer", do álbum
Chasms (2009). A molecada dançava e cantava em total sintonia neo-hippie.
O momento de catarse da noite foi criado pela magricela, desajeitada e desafinada
M.I.A., a mais perfeita encarnação no século XXI do ideário DIY. M.I.A. subiu no palco da abarrotada galeria do segundo andar vestindo capa e capuz camuflados, óculos escuros com lentes holográficas de folha de maconha e cabelo de 5 cores. Estava acompanhada de uma DJ, um baterista, dançarinos e uma backing vocal. O primeiro petardo veio na forma de
"Born Free", a porrada política de M.I.A. sampleada de Suicide. Ajustes no audio da rapper e salve-se quem puder. O empurra-empurra era generalizado. M.I.A. atirava água e vodka na platéia. E lá vem "Bamboo Banga" e "Galang". O cheiro de maconha no ar, cheiro daquela maconha nova-iorquina indoor com nomes estranhos de ficção cientifica como Sour Diesel e Master Kush. Stage diving, gritos, histeria. O apocalipse se deu com uma "Paper Planes" gritada em conjunto por todos. Fim do exorcismo.
Depois da M.I.A., uma ultima olhada para o Hudson River do terraço dos VIPs (sabe-se lá quando vai haver outra oportunidade dessas). E back to Brooklyn.
fotos Clarissa Zappe e Aymann Ismail (Interpol)
já é hora de uma apresentação nova da magrela por aqui, pra fazer esquecer aquele fiasco de 2005