Direto de um planeta arrasado pela catástrofe nuclear.
A música psicodélica também pode ser violenta, ríspida. Nada de paz ou amor. É o que prega o produtor, compositor e cantor americano Tom Fec, mais conhecido como Tobacco. Líder da banda Black Moth Super Rainbow, ele lançou em 25 de maio seu segundo álbum solo de inéditas,
Maniac Meat, pela Anticon.
Ganhou um tanto mais de publicidade depois que se soube da participação do cantor californiano (e faz-tudo)
Beck Hansen. Ele canta em "Fresh Hex" e "Grape Aerosmith", duas pauladas 8-bit de deixar a dupla
Crystal Castles com inveja. As outras 14 músicas foram assinadas por Fec apenas.
É como se as faixas viessem dum planeta arrasado pela catástrofe nuclear. Vozes robóticas e timbres poeirentos se sobrepõem. Parecem ter saído de um abrigo subterrâneo, entulhado de sequenciadores analógicos e velhas baterias eletrônicas.
Mas transpira também um vapor pegajoso, que gruda na memória. Pegue "Sweatmother", uma das melhores do disco, como exemplo. Há uma atmosfera metálica, esmagadora, em suas texturas de fundo. Mas logo despertam teclados ardidos, que conquistam o ouvido no primeiro compasso.
"Motorlicker" é um krautrock cheio de testosterona, barbado, assim com sua sequência - a brilhante "Unholy Demon Rhythms". Como o nome sugere, o balanço infernal vem da bateria grosseira, repleta de bumbos comprimidos por uma distorção de fazer ranger os dentes. Até trincar.
Todo o álbum parece ter sido composto numa única noite alucinante, ao estilo beatnik. Um equivalente eletrônico à prosa desenfreada de Kerouac, ou aos versos febris de Ginsberg. Os timbres são quase os mesmos. E os nomes, um melhor que o outro: "Mexican Icecream", "Nuclear Waste Aerobics", "Creepy Phone Calls"... Essa última lembra os momentos mais entorpecidos do francês Mr. Oizo.
Inclusa na lista de títulos estranhos "New Juices From the Hot Tub Freaks", exemplo também do bom casamento entre graves e um teclado maníaco-histérico. Ouça o surto distorcido por volta do primeiro minuto e meio, e entenda porque o Tobacco não quer saber de paz nem de amor.