VA - No New York
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ficha técnica
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2004
Selo: Phantom Sound & Vision
Estilos: no wave, rock, punk, post-punk
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VA - No New York
Para ouvidos corajosos
18.06.10 16:20
Muito se fala do aspecto revolucionário do movimento punk: a postura anti-sistema, os shows agressivos, a idéia do "do it yourself" e a transgressão extrema - que chegou a ponto de bandas adotarem símbolos nazistas por pura provocação. Em termos estritamente musicais, no entanto, o punk não trazia grandes inovações. Pelo contrário: pregava a volta ao rock básico, então sufocado pelo virtuosismo e firulas de grupos progressivos como Yes e Emerson, Lake & Palmer. Um fanzine da época até publicou um desenho de como tocar os acordes Mi maior, Lá maior e Si maior, com a legenda "Aqui estão três acordes. Agora forme uma banda".

Mas, no fim dos anos 70, alguns grupos novaiorquinos levaram o espírito destruidor do movimento punk um passo além. Vindos de áreas como artes plásticas, poesia e teatro experimental, os integrantes dessas bandas se valeram da própria ignorância musical para criar uma música nova. Pegavam uma guitarra e, não sabendo tocar nenhum acorde ou compor melodias, tiravam som do instrumento esfregando uma garrafa de vidro nas cordas ou batendo nelas com baquetas ou simplesmente descendo a mão de maneira completamente caótica - Pat Place, guitarrista do Contortions, conta que nas primeiras apresentações do grupo, saiu do palco com os dedos sangrando, de tanto esmurrar e arranhar o instrumento. Em oposição ao pop da new wave (também um desdobramento do punk), o novo gênero foi batizado de no wave.

Em maio de 1978, aconteceu em Nova York um festival de rock underground no qual tocaram diversos grupos no wave. Na plateia, o cantor/multiinstrumentista/compositor/produtor inglês Brian Eno assistia a tudo com os olhos arregalados, tanto que resolveu estender sua estadia nos EUA e gravar uma compilação com quatro das principais bandas da cena: Contortions, Teenage Jesus & The Jerks, Mars e D.N.A.

Foi uma decisão bastante feliz, já que, com exceção do Contortions, os grupos se desintegrariam pouco tempo depois e sem terem gravado um álbum de verdade, apenas alguns singles ou EPs. Assim, a compilação No New York é um dos poucos registros fonográficos dessa importante porém efêmera cena musical.

James Chance e Pat Place
James Chance e Pat Place
Quem abre o disco é o Contortions, banda do vocalista e saxofonista James Chance, um dos poucos artistas no wave com formação musical. Influenciado pelo experimentalismo do free jazz e pelos ritmos repetitivos do funk de James Brown, o som do Contortions pode ser resumido da seguinte forma: enquanto o baixista e o baterista mantém o ritmo e a tonalidade, os demais integrantes tocam seus instrumentos como se estivessem tendo espasmos nervosos. O sax cospe desordenadamente zilhões de notas, muitas delas propositalmente desafinadas, o órgão emite acordes dissonantes como se fosse tocado com os cotovelos e não com os dedos, e da guitarra só saem barulhos. E, sobre toda essa cacofonia, James Chance berra letras sobre relacionamentos problemáticos ("Dish it out"), submissão ("Flip your face") e amor obsessivo ("Jaded"). Para fechar, o "cover" de James Brown "I can't stand myself", que soa como se o veterano mestre do funk estivesse sob efeito de metanfetamina.

A música agressiva e tensa do Contortions tem muito a ver com a personalidade de James Chance, que na época se comportava como um psicopata. Nos shows, atacava pessoas da plateia com socos, beijava mulheres à força e geralmente acabava levando uma surra - o olho roxo que ostenta na foto do encarte de No New York não é maquiagem.



Lydia Lunch
Lydia Lunch
Em seguida, vem o Teenage Jesus & The Jerks, da vocalista e guitarrista Lydia Lunch. Figura lendária da no wave, Lunch fugiu de casa aos dezesseis anos e foi morar em Nova York, onde se tornou groupie da banda punk Dead Boys. Até hoje não sabe tocar nenhum acorde na guitarra e assume que foi para a música porque esta era a forma de expressão que estava à disposição mais facilmente. A intenção não era ser uma boa instrumentista, e sim botar para fora aquilo que a angustiava. E angústia é uma coisa que não falta na música do Teenage Jesus. Com exceção da instrumental "Red Alert" (que dura 34 segundos), as outras três faixas são arrastadas, repetitivas, pesadas. Se o Contortions é a trilha sonora de um ataque epilético, o Teenage Jesus é o fundo musical do fundo do poço. Lydia canta como se pedisse socorro, ao mesmo tempo em que escancara a ferida - quando, em "The Closet", ela expressa o horror de viver na classe média americana com um "I'm treated like Sharon Tate", o arrepio na espinha é inevitável.



A terceira banda, Mars, é a veterana do disco. Quando participou de No New York já existia há três anos - o que é muito levando em conta a vida curta dos grupos - e já tinha sido influência para a jovem Lydia Lunch, que sentiu que os integrantes "criavam a partir da própria tortura". E realmente a música do Mars (assim como a dos demais grupos da cena) não é fruto de mentes saudáveis. Dissonâncias, desafinações e caos sonoro não faziam parte da estética no wave apenas como uma evolução na música punk, uma maneira de ir do rock básico para algo mais complexo e experimental: esses elementos estavam ali porque era somente a partir de sons desagradáveis que seria possível expressar dor, angústia, desespero.

No caso do Mars, deve-se acrescentar à lista de esquisitices letras que, de tão ininteligíveis, parecem cantadas (ou melhor, urradas ou balbuciadas) em alguma língua morta de uma tribo perdida da Groenlândia. É dessa banda a faixa mais radical da compilação, "Hairwaves": além do vocal ser um emaranhado de grunhidos, a música simplesmente não tem ritmo, melodia ou a harmonia. Cheia de buracos, quebras e silêncios, parece flutuar (e tropeçar) no nada.

Mars


Arto Lindsay, 1978O último grupo é o D.N.A., que tinha a formação mais bizarra de todas: na guitarra e vocal, Arto Lindsay, um americano filho de missionários que cresceu no Brasil; no órgão, o artista performático Robin Crutchfield; e na bateria, Ikue Mori, uma japonesa que não sabia nem tocar bateria nem falar inglês - Arto e Robin tinham que se comunicar com ela por meio de gestos.

O aspecto mais impressionante do D.N.A. é a guitarra insana de Arto Lindsay, que praticamente não tem momentos de pausa, silêncio. É como se o instrumento quisesse ocupar e dominar cada fresta das músicas com seus barulhos insandecidos. O ápice da loucura é quando, no meio da faixa Not Moving, começa a emitir sons que parecem passarinhos psicóticos.



Para quem quiser saber mais sobre a no wave, há um texto de Lester Bangs bem interessante e que pode ser lido de graça na Internet aqui. O documentário Kill Yr. Idols também é uma boa porta de entrada - e o nome do filme ser título de uma música do Sonic Youth não é mera coincidência: Kim Gordon, Lee Ranaldo e Thurston Moore se conheceram por meio da cena no wave e por causa dela resolveram montar uma banda cujo principal elemento estético é o barulho.



fotos do site New York No Wave Archive
MP3
Flash Content
D.N.A, Various Artists - Not Moving, DNA - Not Moving (mp3)

Flash Content
Various Artists - James Chance And The Contortions - Dish It Out (mp3)

Flash Content
Various Artists - Mars - Hairwaves (mp3)

Flash Content
Various Artists - Teenage Jesus And The Jerks - The Closet (mp3)


Raquel Setz
Raquel Setz
Barulhos, experimentações e esquisitices em geral
comentários
4 comentários
Niki Nixon
Niki Nixon(19.06.10)
1AprovadoQueima
em 85 lançaram o não são paulo, com bandas locais: http://www.discogs.com/Various-N%C3%A3o-S%C3%A3o-Paulo/release/1195892
menos ianudível que esses daqui. lembro que uma menina que adoro me deu o play da lydia lunch e nunca consegui ouvir inteiro - chato demais!
Rodrigo|Digha
Rodrigo|Digha(18.06.10)
1AprovadoQueima
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Na verdade No Wave não tinha como durar muito mesmo, do contrário a (não) mensagem original se diluiria.

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Raquel Setz
Raquel Setz(18.06.10)
1AprovadoQueima
Levando em conta que "essa porra toda" foi influenciada pelo experimentalismo do Velvet Underground, a no wave é filha e mãe do Lou Reed. Também acho foda!!
Thiago Freitas
Thiago Freitas(18.06.10)
essa porra toda culminou no metal machine music. acho foda.