Compilações garimpam raridades da música synth underground, romântica e obscura dos anos 80, em faixas que ilustram os primórdios DIY da música eletrônica
Saíram no começo deste ano nos EUA duas compilações que garimpam produtores, faixas e obscuridades do lado mais underground da música synth dos anos 80.
The Minimal Wave Tapes Vol. 1 e
Cold Waves and Minimal Electronics Vol. 1 são o trabalho de DJs, selos e pesquisadores que reavivaram e remasterizaram dezenas de canções que exemplificam a revolução causada no começo da década de 80 pela produção de música eletrônica caseira, revertendo a espontaneidade do DIY do punk em uma nova cultura que mesclava características dam a música gótica e do pop da época.
Cold Waves and Minimal Electronics Vol. 1
Flash Content
Jeunesse d'Ivoire - A Gift Of Tears (mp3)
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The Vyllies - Babylon (mp3)
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Absolute Body Control - Figures (mp3)
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Ausgang Verboten - Consumer (mp3)
Cold Waves and Minimal Electronics Vol. 1 foi compilado pelo músico e DJ Pieter Schoolwerth, famoso no Brooklyn (NY) por suas festas que buscam o lado mais áspero e, ao mesmo tempo, poético da música feita por sintetizadores, sequenciadores e drum machines. O disco nasceu com um
manifesto pregando a abstração, apostando na "sincera e afirmativa resistência humanística" desta época atual de pop e música eletrônica vazias, criadas por softwares. É uma mistura de vintage futurista e romancismo punk/gótico, em que a busca pela essência humana passa, basicamente, pelo lado mais obscuro da alma humana e da música criada por estes então novos instrumentos. Daí a assimilação do termo "cold" e também de 'minimal', no sentido de contraposição aos excessos do synth-pop grandioso de Depeche Mode e Duran Duran, por exemplo.
Em suas 19 faixas,
Cold Waves... planta as sementes do techno, do electroclash dos anos 2000 e marca a transição simbiótica entre a disco music dos anos 70 e novas apostas sonoras da década seguinte.

A repetição exaustiva das linhas de baixo e synths ditam uma hipnose sonora que era nova e representava um desconhecido mundo a ser explorado, da mesma forma assustadora que era para navegadores adentrar o mundo "plano", em que acreditava-se ter monstros em suas "bordas".
Canções como "Figures" exemplificam essa dualidade entre medo, beleza e romance: o synth é áspero, mas as linhas de synth são épicas e soam esperançosas, espaciais. "A Gift of Tears" é belíssima, com suas notas nostálgicas amansando os beats disparados e nervosos. Vocais quase incompreensíveis e claps pontuais completam a edição da música, que tem uma verve pop discreta.
O lado mais gelado do álbum traz o punk gritado de The Vyllies em "Babylon", espécie de synth endiabrado a la Nina Hagen, de novo o assombro synth sempre anestesiado pela repetição e as notas rítmicas. "Cannibal Dolls", do Land of Giants, é similar na fórmula DIY de vocais femininos, mas seu electro chicletinho é mais 8-bit, a mãe do
Crystal Castles. "Consumer", do Ausgang Verboten, é o exemplo máximo de como era pensando o electro da época: ácido, de suinge metálico e evolução industrial e urbana dos sons do Kraftwerk que, mais tarde, geraria o techno.
The Minimal Wave Tapes Vol. 1
Flash Content
Crash Course in Science - Flying Turns (mp3)
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Deux - Game & Performance (mp3)
Flash Content
Esplendor Geometrico - Moscu Esta Helado (mp3)
Flash Content
Mark Lane - Who's Really Listening (mp3)
The Minimal Wave Tapes Vol. 1 é, digamos, mais polida. Fruto antológico do trabalho de Veronica Vasicka, que criou nos EUA o selo
Minimal Wave para recuperar jóias perdidas dos anos 80 e relançá-las, o disco virou parte da lista de releases da Stones Throw e marca o synth-pop mais underground, que não logrou o sucesso não por fracasso, mas por características peculiares.
Nesta compilação alguns nomes podem ser mais conhecidos, como a dupla Deux, Martin Dupont e a nervosa "Flying Turns", do Crash Course In Science, que voltou como hit nos anos do electroclash com seu synth disparado e rajadas de choques. Como a compilação propõe até mesmo um sub-sub gênero, a ênfase Minimal Wave é presente, hipnótica. "Who's Really Listening", de Mark Lane, é uma prévia transcendental do electro que Vitalic faz hoje: vocais hipnóticos, Rolands em aceleração constante e os beats surgindo para destilar a tensão.

Se Duran Duran, Soft Cell e Erasure cansaram a fórmula ao fim da década, este disco se mostra relevante por, agora em 2010, mostrar as raízes de muito do que é feito hoje na música alternativa e louvado como novo. Mas não é preciso enxergar este fato como um bode expiatório, nem como o moralismo banal de "no passado era melhor". É muito mais interessante você unir o passado e presente, como pode ser feito ao ouvir/mixar/juntar qualquer faixa do Ladytron com o electro spoken-word de "Game & Performance", faixa de 1983 da dupla francesa Deux.
Além do pop "discreto",
Minimal Wave Tapes... mostra como a música é um ciclo constante que, por alguma razão cartesiana, foi ditada pelas décadas no século 20. Então o disco transborda krautrock ("Tempusfugit" - Tara Cross; "Mickey Please" - Bene Gesserit) e disco music ("Way Out Living" - Linear Movement; "Radiance" - Oppenheimer Analysis), por exemplo. E se for para escolher uma faixa entre ambos discos que melhor resume essa fusão DIY de sonoridade tecnológica, minimalista e dançante, "Moscu Esta Helado" (Esplendor Geometrico) é o melhor exemplo. Principalmente porque se fosse produzida por computadores agora em 2010, ninguém notaria.
"O sucesso agora é determinado pela popularidade, de uma forma mais carente de identidade baseada simplesmente em vendas de álbuns e posições nas paradas."
"Ao contrário dos grupos de new wave, que usaram esses sons para assumir um certo vazio, [em Cold Waves...] a postura irônica tem uma visão apocalíptica de um futuro incerto..." "...essas bandas de minimal eletrônico criaram sons "frios", que eram vulneráveis, mas ao mesmo tempo eram românticos, melancólicos, e afirmativamente agressivos."
"Longe de ser uma viagem nostálgica, as emoções fundamentais, atitudes e métodos destas bandas tem relevância concreta para responder à abstração do mundo contemporâneo."
"Na música eletrônica, a mudança veio pela substituição dos sintetizadores virtuais para hardware... ... removendo todos os erros, a vulnerabilidade e a fragilidade do instrumento..."
"Onde está o lado "humano" na engenhosa pose do artista? Quem é ele realmente?"
Pensável.