Há pouco mais de quatro anos o dinamarquês
Anders Trentetemoller lançava o álbum
The Very Last Resort de maneira tímida e despretensiosa. Elementos do minimal-techno dialogavam em harmonia com elementos orgânicos, principalmente guitarras, baixos e instrumentos como bandolim e banjo, que surgiam entre sons de água correndo ou pássaros cantando.
A simetria com que estas referências apareciam entre as faixas atraiu atenção pelo tom intimista, solitário e romântico. Entre as destaques, fortes retoques minimalistas em "Take Me Into Your Skin" e "While The Cold Winter Waiting". "Miss You", que parece executada por uma antiga pianola, e "Moan", com excelente vocal e letra da conterrânea Anne Troller também chamaram a atenção.
Este álbum alcançou a marca de 70 mil cópias vendidas, excelente número em tempos de internet e principalmente para o grupo que se destina, apreciador de música eletrônica, que domina bem as ferramentas de download de músicas. De 2006 para cá Trentemoller empilhou prêmios como produtor e DJ, com distenções oferecidas pela Radio One e pelo Beatport. Passou a ser conhecido por ótimos remixes, mistura de electro e minimal techno, reinterpretando faixas de
Moby, Yoshimoto, e da dupla norueguesa
Royksöpp. Com estes últimos criou um dos hits mais marcantes da década passada,
"What Else Is There?" - que além de ótima melodia e batida, conta com o vocal cheio de sotaque de
Karen Dreijer.
E Trentemoller começou a flertar abertamente com o mainstream: residência em Ibiza, gigs em Miami e festivais mundo afora ao lado de nomes como David Guetta e Carl Cox sugeriam que o próximo release poderiam sugerir uma sede de grandeza. Foi o que eu pensei quando me deparei com o nome do novo álbum,
Into the Great Wide Yonder. Mais impactante que o último, um nome que busca transmitir uma sensação de imponência.
Engano meu! As dez faixas que seguem são uma sequência de
The Last Resort, com diferença que desta vez a sonoridade minimalista de 2006 foi deixada em segundo (talvez terceiro) plano. O que esta lá são os elementos orgânicos: muitas cordas, percussão... batidas criadas em uma bateria, não através de softwares. Trentemoller utilizou um processo de produção curioso, gravando instrumentos em mídias de baixa qualidade, como K7 ou vinil, e introduzindo elas nas faixas, criando um efeito único de saturação, experintalismo puro, que me leva a crer que este lançamento provavelmente vai agradar mais aqueles que gostam de
Massive Attack e agregados do que
Richie Hawtin e a turma de Berlim.
O álbum inicia com uma longa introdução, "The Mash And Fury", que demonstra o tom carregado e profundo em que este novo trabalho está baseado, mas tarda em encontrar forma e se torna amórfica, parecendo uma grande jam session realizada por um homem só. Logo após surge a primeira música de trabalho, "Sycamore Feeling". É dela a responsabilidade de conquistar ouvidos sedentos por sons mais fáceis. O vocal arrastado e tenso é da dinamarquesa
Josephine Philip.
É uma música dramática e sensual que já corre a internet há alguma semanas como teaser do álbum, que também ganhou remixes Thomas Schumacher e do agora onipresente
Gui Boratto, que desfragmenta a música e oferece um banquete para aqueles que precisam de beats quebrados para serem felizes. A faixa também ganhou um vídeo clip que facilmente lembra aos vídeos de
Fever Ray,
The Knife e
Royksopp, com enquadramentos fechados, tomadas lentas, cenários desolados, muita neve e neblina, arvores sem folhas e narrativa non-sense, a estética consagrado pelo diretor
Martin De Thurah.
As duas próximas faixas seguintes vem em bloco. Um ouvinte menos atento não vai perceber a mudança entre "Past the Beginning of the End" e "Marble of Shades", que se apresentam proféticas e divinas, com coral de vozes, badalos de sinos e batuques tribais, deixando inquieto o ouvinte. Duas faixas que não devem ser escutadas quando se está sozinho. "Even Though You're With Another Girl" é a faixa mais triste do álbum, outra balada cantada por Josephine Philip. A maneira sincera e aberta, quase pedante, em que o verso "I will wait for you even though you're with another girl" (esperarei por você mesmo que você esteja com outra garota) é cantado para desolar quem escuta.
"Haxan" e "Metamorphis" passam sem grande destaque, servindo mais como passagem para momentos mais importantes. Os experimentalismos que melhor funcionam são os em "Silver Surfer", "Ghost Rider Go!!!" e "Neverglade", em que Trentemoller nos arremessa para a Califórnia dos anos 60 e 70 com acordes lisérgicos e guitarras distorcidas que criam melodias com alto grau de psicodelia. Lembram
Dick Dale em crescente desordem, bastante original e, quando tocada ao vivo deve repercutir muito bem no público. "Neverglade" poderia estar em algum lado B de disco do Pink Floyd ou do Emerson Lake and Palmer, é uma faixa com poucos instrumentos, um violão elétrico e um vocal masculino suave cantando coisas sem sentido.
"Tide" encerra o álbum como um domingo de sol depois de uma semana de tempo ruim: uma track alegre, que deve figurar em coletâneas de verão tipo Buddha Bar e Café Del Mar.
Intro The Great Wide Yonder foi lançado na última segunda-feira e já aparece entre os best sellers de sites como
Juno Records e Beatport, o que nos leva a parabenizar o artista Trentemoller, que fez fazer um trabalho autoral e vendável. Se ele quisesse criar um álbum radiofônico, para vender para comerciais de TV ou tocar entre uma partida e outra de Fifa Soccer, não teria nenhuma dificuldade nenhuma. Conhecemos seu potencial. Mas não o fez. Preferiu transformar sentimentos e outras neuras pessoais em música.