A fábula orquestrada, mítica e pop do vocalista do Sigur Rós em seu primeiro disco solo
SÓNAR 2010: O naturalismo melódico e a busca por nova identidade com o advento de letras em inglês foram o caminho que o grupo islandês Sigur Rós trilhou em seu último álbum, "
Med Sud I Eyrum Vid Spilum Endalaust". Parecia o cume de uma trajetória exitosa no dream pop e no art rock etéreo, epilogado pelo precioso documentário biográfico
Heima. Mas, anunciado o hiato da banda, este rumo tomado em 2008 acabou sendo a gênese colorida e rítmica de
Go, álbum lançado em abril como a primeira empreitada sólo de Jón Þór Birgisson, ou simplesmente
Jónsi, vocalísta e frontman do Sigur Rós.
A saga de Jónsi começou ano passado. Após 15 anos à frente do Sigur Rós, novas tentativas foram tomadas pelo vocalista e músico ao lado de seu namorado e artista plástico Alex Somers (que cuida do visual do CD
Go:
Riceboy Sleeps foi um álbum instrumental, cheio de cordas e viagens sonoras delicadas, que tocou os corações mais antenados do indie rock. No outro extremo da música, Jónsi participou também de Kaleidoscope, faixa de abertura e homônima daquele
lixo de "disco autoral" que o Tiësto lançou ano passado.
Go é uma reunião vívida de nove canções, fábulas ambientais e místicas, mas nada "animalesco" como Fever Ray e afins. É um despertar à contemplação do ritmo, proporcionado por um delicado jogo entre percussão empolgada e a harmonia de cordas e sopros. Apoiado por uma banda de três pessoas, Jónsi contou com a excelência de Nico Muhly, jovem músico erudito que tocou com Antony and the Johnson's, Grizzly Bear e Mew, que aqui performou flautas, celestas, sinos e metalofones para trazer a viagem barroca e aérea, quase celestial do disco. "Go Do", a primeira faixa, sintetiza bem essa sonoridade: as flautas adornam a voz de canarinho de Jónsi, enquanto baixo, bateria e efeitos de backing vocal são aplicados para ditar a velocidade e o ritmo.
O vídeo da faixa é justamente protagonizado por Jónsi ao lado de passarinhos, e mostra o figurino e a maquiagem do músico que é utilizada no show ao vivo, que promete megalomania pela produção e quantidade de músicos.
Jónsi - Go DoEste álbum pode não agradar fãs inveterados do Sigur Rós da fase
Ágætis byrjun (o famoso disco do feto, de 1999), que era contemporâneo em melancolia e obscuridade ao Radiohead de
Kid A.
Go é filho da era Pitchfork da música indie de exagerar na composição e na versatilidade cinematográfica e literária. E o diferencial, neste caso, é que Jónsi consegue firmar uma identidade fortíssima já em seu 1º disco. "Animal Arithmetic" é pop, tremelicada em harpas e cordas, mas também tensa e corrida, com sirenes ao fundo. O islandês aparece em cena e traz o estranhamento linguístico e global para uma música já suficientemente mítica.

"Tornado" é um belíssimo destaque, com seu piano clássico, violinos e lamúria persistente, mas que é confrontanda por um impactante clima crescente de orquestra, épico e grandioso com a percussão encerrando quase como marchas militares. Essa empolgação subversiva de tão épica - adornada por erudição e boa composição - pode levar Jónsi àquela fama indie-pop em que canções podem ser convocadas para propagandas de TV, caso de "Boy Lilikoi", em que ele arrisca o tom de rockstar com as flautas de passarinhos e o ritmo pulsante e constante, versos e refrões cantarolados de peto cheio.
Da metade para o final,
Go acalma os ânimos e foca na introspecção orquestrada e no minimalismo de detalhes dessa variedade de instrumentos: cordas em "Kolniður", baquetas e baterias em "Around Us" e notas repetidas e picoadas em "Sinking Friendships", em que Jónsi está quase soprano de tão interiorizado em seu tom vocal. O encerramento é ainda mais etéro, com seus sussurros assimilando formas quase alieníginas (em parte pelo estranhamento do islandês) ao fundo de reverberações e micro-efeitos, caso de "Grow Till Tall".
Jónsi tem um imediatismo pop que falta a Joanna Newsom, por exemplo, e sua legitimidade musical é óbvia de tão grandiosa e versátil.
Go faz jus ao meio ambiente real e musical da Islândia de Björk, misturando delicadeza de porcelana e poder de disseminação e apresentação grandiosa, contemplados por uma turnê que roda EUA e Europa até setembro.