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Primavera Sound chegou esse ano à sua décima edição e já pode ser considerado entre os melhores festivais de indie rock do mundo.
Além da tradição de trazer bandas consagradas dos anos 90 - esse ano contou com
Pavement, Superchunk e Built to Spill (edições anteriores tiveram My Bloody Valentine e
Yo La Tengo, entre outras) - o festival espanhol sempre recheia o line up com atrações novíssimas, muitas vezes apresentando bandas que acabaram ou ainda vão lançar seu primeiro disco. Quer um exemplo? O site Pitchfork e a revista Vice são alguns dos veículos que têm suas próprias tendas no Primavera Sound e trouxeram à Barcelona
Best Coast e
Beach House, respectivamente.
Quinta-feira, 29 de maioCheguei ao festival quando começava o show do Surfer Blood. Tenho certeza que foi ótimo - dava pra sentir a animação da plateia ao tocarem "Swim" enquanto eu esperava minha vez de entrar. Depois, no palco Ray Ban, foi a vez do
The xx: iluminação impecável e a voz aveludada de Romy Madley Croft garantiu um show atmosférico, com músicas perfeitamente executadas e entrecortadas por acordes soltos de "Crystalised", que fechou o show.
Enquanto esperava o Broken Social Scene começar, dei uma espiadinha no Superchunk, que tocou muitas músicas do álbum novo, que sai em setembro, mas, pelo menos do pouco que eu vi, nenhum hit das antigas - confesso que queria ouvir "Pink Clouds" ou "1000 Pounds" ou "Good Dreams".
Broken Social Scene: eu achava que uma banda tão grande teria perdido fôlego depois desses anos todos de estrada. Que nada. Abriram com o primeiro single do álbum novo,
World Sick, e o setlist quase todo seguiu com faixas do
Forgiveness Rock Records e do álbum anterior, mantendo o clima de "grupo de amigos que se junta pra fazer um som". Emocionante: Brendan Canning cantando "Water in Hell" e a participação especial de Owen Pallett no violino durante a última música.

Então veio o grande momento da noite, o aguardado show do Pavement. Sabe aquela sensação de decadência que a gente costuma ter ao ver uma banda que era boa mas que não soube quando parar (ou quando não voltar)? Nem de longe o Pavement passou isso. Stephen Malkmus segue em plena forma e já começou o show mandando "Cut Your Hair", pra delírio e alegria dos fãs. Ainda teve o Kevin Drew, do Broken Social Scene, fazendo uma participação especial em "Kennel District". O setlist foi tipo um "best of" da carreira da banda, recheado de hits como "Here", "Spit On a Stranger" e "Grounded". Quando tocaram "Stereo", confesso que me joguei sem medo no mosh pit e considerei um stage diving! Depois de uma hora e meia de show, a plateia cansada ainda gritava bis. E, pra minha surpresa, o bis veio, com uma dobradinha que foi pra arrancar o que restava de voz das gargantas do público: "Gold Soundz" e "Shady Lane". Segui para o show do Delorean ainda rindo e cantando "the worlds collide but all that we want is a shady lane...".
O
Delorean fez um show perfeito pra fechar essa noite de quinta-feira, dançante do começo ao fim, fazendo jus ao seu excelente terceiro álbum.
Sexta-feira, 30 de maioBest Coast ainda nem lançou seu primeiro álbum, mas já dá o que falar na internets, sendo queridinha de blogueiros como o Carles do Hipster Runoff, e do
Pitchfork, em cujo palco fez sua apresentação. Show fofo, lo-fi, que terminou com um cover de "So Bored", do Wavves.
Mas eu estava ansiosa mesmo era pela apresentação do Beach House. Afinal,
Teen Dream já é um dos melhores álbuns de 2010. E, mesmo com a expectativa alta, fui surpreendida. Show completamente sensorial: Victoria Legrand tem uma voz inacreditável - não parece real, andrógina, grave e suave ao mesmo tempo. E toda a plateia parecia hipnotizada enquanto ela tocava seu teclado coberto de pelúcia, jogava o cabelo indomado pra frente e pra trás e entoava hits como "Norway" ou "Zebra" ou "10 Mile Stereo". Além da voz, ela tem presença. Fórmula do sucesso.
Panda Bear: não dá pra negar que o show de Noah Lennox, uma das cabeças por trás do
Animal Collective, foi extremamente prejudicado pela falha técnica nos telões do palco da Vice. Com mais de vinte minutos de atraso e sem a interação audiovisual planejada (Noah trazia 3 telões enormes para sua apresentação), a coisa ficou ainda pior com o som mal equalizado. Mesmo assim, uma plateia silenciosa e concentrada acompanhou Noah do começo ao fim. Teria considerado ver o Wilco se o palco principal não fosse tão longe. Acabei chegando pro Pixies.
Ah, Pixies.
Todo mundo adora Pixies. Eu adoro Pixies. Tava lotado. Mas o show foi... chato. Eles não mostraram nenhuma diversão no palco. Nenhuma interação, nem entre si nem com o público. Nenhuma vontade, sabe? Ficaram no extremo oposto de onde ficou o Pavement: parece que só estavam ali "for the money". Pareciam cansados, o show foi arrastado. Virar as costas e só ouvir o som era melhor. Não fiquei até o fim.
Voltei pro palco da Vice, lá do outro lado do festival, pra ver o
Yeasayer. E, mais uma vez, probleminhas técnicos: rolou um atraso e o som ficou baixo. Em parte, isso pode justificar um show meio morno, que só empolgou durante os hits como "Madder Red" e "Ambling Alp". Animada mesmo estava a tenda do Pitchfork, vindo abaixo com a apresentação do
Diplo.
Sábado, 31 de maioO último dia começou com um dos shows mais lindos do festival. Real Estate tocou na tenda do Pitchfork pra um público pequeno, mas que sorria a cada primeiro acorde das ótimas faixas de seu álbum homônimo. Banda nova que vale - muito - prestar atenção. Pena que cheguei um pouco atrasada. Ao anunciarem que tocariam as três últimas faixas, fiquei feliz de não ter perdido "Suburban Dogs" e "Beach Comber". Ao final, ouvi mais de uma pessoa comemorar por ter conhecido a banda no festival.
E daí, logo em seguida, veio o show do
Atlas Sound, no finzinho de tarde. Metade da público sentou no chão pra curtir o pôr-do-sol e acompanhar Bradford Cox tocando violão, gaita, cantando e mexendo em todos os seus trezentos pedais. "Walkabout" e "Shelia" fizeram a dobradinha mais pop, e a segunda metade do show foi ganhando intensidade a medida que o sol ia descendo, terminando com a voz emocionante de Bradford repetindo "sometimes in the middle of the night it comes to me, it comes to me". De arrancar lágrimas. Foi difícil acompanhar outro show depois desse.
Dei uma passada no palco principal pra ver
Florence & The Machine. Vestida numa túnica branca translúcida e esvoaçante, Florence pulava e dançava meio hippie, num palco todo enfeitado de flores, lembrando uma
Kate Bush dos nossos tempos. Mas a comparação termina por aí. O jeito de animadora de palco e a impostação de voz dela ao cantar lembravam mais uma Ivete Sangalo gringa, pra mim.
Preferi ir logo pro show do Built To Spill. Quinze minutos antes do horário marcado, todo o público acompanhou a banda passando o som. Ainda sim, durante mais de metade da apresentação, Doug Martsch continuou pedindo para que abaixassem os vocais. Fora esse pequeno detalhe, o show foi completo. Sim, as três guitarras faziam seu devido barulho, mas quem roubava toda a cena era o baixo de Brett Nelson. E basta dizer que o show terminou com "Carry The Zero" levantando o coro emocionado dos fãs (inclusive o meu).
Daí veio o
Liquid Liquid e aconteceu uma coisa inesperada para um festival europeu: todo mundo, repito, todas as pessoas pulando e dançando, do começo ao fim. Bateria, percussão, baixo e um vocalista muito animado foram o segredo pra transformar toda a arena do palco ATP numa enorme pista de dança. Incrível.
Depois, no palco Pitchfork,
Lee "Scratch" Perry trouxe a Jamaica pra Barcelona. Se tem alguém que pode fazer um cover de Bob Marley, esse cara é o Lee. Além do reggae divertido, ele próprio é uma figura: basta dizer que seu boné, além de um cd colado do lado, tinha um cristal desses de feng shui enorme pregado no topo da cabeça. Good vibes.
Pra finalizar, o dj e produtor Fake Blood fez uma ótima apresentação, clima de balada e viradas dignas de raves dos anos 90, com todo mundo pulando de bracinho pro ar.
À beira-mar, sem filas insuportáveis, seguranças truculentos ou branding excessivo, cheio de gente bonita, patrocinado por uma boa marca de cerveja (eu, particularmente, curto bastante a San Miguel), com shows geralmente pontuais - pra não dizer inesquecíveis - o Primavera Sound acaba se tornando um daqueles festivais que você vai e quer voltar todo ano.
fotos: divulgação
Mas quem pagou os 20 valeu e muito a pena.