Veterano e revelação explicitam as nuances literárias e científicas do techno dos anos 2000. Um som que busca o futuro remetendo ao passado dubby e de Detroit
Uma análise constante sobre o techno é "aonde ele vai parar?". Tal questionamento, quase existencialista, está na gênese sci-fi da música eletrônica 4x4 em viajar por interpretações científicas e espaciais pelos ouvidos mundo afora. Sempre é esperado do techno se não algum tipo de inovação tecnológica musical, uma "viagem" tanto mental do ouvinte quando de sua interpretação artística. É assim desde o começo futurista que cunhou o próprio termo "techno" até seu extremo hard.
Passados mais de 25 anos desde o Belleville 3, o techno segue em sua jornada rumando à abstração digital da era das redes de internet, com seus pés sendo amarrados ao solo humano pela multidisciplinaridade musical, a ênfase na mistura e na versatilidade de ritmos para criar a música eletrônica consagrada. E entre as dezenas de nuances geográficas e regionais que o techno tem mundo afora, seu epicentro hoje está em Berlim: cidade cheia de história, tecnologia e cada vez mais miscigenada, como o próprio techno.
Thomas Fehlmann, o veterano

A primeira década do século 21 acaba cada vez mais desfigurada em seus paradoxos de difícil identidade e busca freudiana pelo passado, e nesse contexto o techno é adornado com influências das origens jamaicanas e chapadas do dub, e da literatura robótico-científica da Motor City, Detroit. De modo que um pioneiro e um novo nome resumem bem todas essas características atuais do techno europel com seus recentes álbuns: Thomas Fehlmann, mais de 30 anos de estrada, e o jovem produtor belga Van Hoesen.
THOMAS FEHLMANN
Gute Lufte
Kompakt - Nota: 3.9Gute Luft, mais que um álbum, é uma coletânea de sons feitos por Fehlmann para o documentário televisivo
24H Berlin, que acompanha o registro de um dia inteiro na insana capital alemã. É um disco que resume sua trajetória na Kompakt, que em breve completa dez anos: foi ele um dos primeiros a trazer versatilidade e frescor sonoro ao techno do selo de Colônia.
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Thomas Fehlmann - Alles Immer (mp3)
"Alles Immer" abre o disco com delicadeza, espamos elásticos deslizando entre beats lubrificados e efeitos
dubby, cheios de eco. O obscurantismo desse techno viajandão é dosado com simpatia e boas percepções como nostalgia e calor nesta faixa e em outros exemplos, como "Soft Park". Aqui, a house music é tragada pra os BPMs abaixo de 100 e um estalar de dedos e o chimbau trazem o suingue humano que casa tão bem com os metais e ecos ao fundo.
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Thomas Fehlmann - Soft Park (mp3)
É curioso perceber no som de Fehlmann as variações entre o 4x4 dançante e o som ambient que ele ajudou a criar no The Orb: desta simbiose surge um techno cinematográfico e hipnótico. No dueto "Wasser Im Fluss"/"Fluss Im Wasser", o produtor discorre sobre velocidades, mudanças tonais para criar um jogo de ritmo que acaba de forma surpreendente entre synths e uma canja jazzística de violoncelo. É o cume do disco, que em sua sequência final segue para a anestesia de canções mais introspectivas, uma tendência conhecida de discos autorais eletrônicos: dosar com calma e ilustrações quase soníferas da música a imersão dance.
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Thomas Fehlmann - Fluss Im Wasser (mp3)
"Berliner Luftikus", referência direta à cidade, mistura o crack do vinil, um jato abafado e líquido e contagens de efeitos de dub techno, até que notas surgem adocicadas e minimalistas, como que numa canção de ninar. "Darkspark" intensifica a imersão sonora em frequências de variações imperceptíveis, enquanto "Im" deveria se chamar Ohm, pela levada de transe. "Scheiben" é um puxão para a melancolia, com notas e efeitos soando como cordas, tensas e angustiadas.
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Thomas Fehlmann - Berliner Luftikus (mp3)
Com mais de 30 anos de produção e tendo trabalhado com Juan Atkins, Maurizio e o The Orb, Fehlmann é veterano por não ter "ápices" ou "pontos baixos" em sua carreira, e
Gute Luft é mais uma prova de um produtor pleno no comando de sua música, variando em humores e sensações. Tudo parece feito de forma simples e eficaz, e Fehlmann se confunde com o próprio potencial sonoro de Berlim ao sonorizar um documentário sobre a cidade.
PETER VAN HOESEN
Entropic City
Time to Express - Nota: 4Bélgica, terra do new beat dos anos 80 e do techno reto, metafísico. É de Bruxelas, uma das cidades mais modernas do continente, que surge um novo nome: Peter Van Hoesen. Jovem engenheiro de som, DJ e produtor Van Hoesen tem lançado EPs há um par de anos já por seu selo Time to Express, variando influências do techno e da house music num som 4x4 preocupado com a "percepção física".
Seu primeiro disco,
Entropic City, surge como um curioso estudo científico-literário de como as frequências sonoras do techno podem envolver e submergir o ouvinte. Mais do que a concepção primária da dança na relação física do som, aqui Van Hoesen propõe uma hipnose feita por ritmos gordos e viagens além-gravidade no conceito termodinâmico de entropia, usado recentemente por produtores como
Etienne Jaumet e
Kelley Polar.
Peter Van Hoesen: a revelação

Ao ouvir e analisar as faixas de
Entropic City, não se sabe se o belga propõe a construção de uma cidade, ou de um universo pessoal. São valores humanos fundamentados em estudos científicos, e a faixa "Republic" é um assombro sem tamanho que resume essas incertezas e esses conceitos. Cavernoso como o monstruoso
Shackleton, Van Hoesen cria uma linha seca e ardida de beats cercada por frequências de bass que soam como um monstro, um guardião do que ele acredita ser a República em termos eletrônicos: poderosa e intocável.
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Peter van Hoesen - Republic (mp3)
Este jovem produtor surge na esteira do sucesso de alemães como
Ben Klock e
Dettmann, que sabe dosar potência e ritmo mesmo com os BPMs sedados por volta de 100-122 pulsações por minutos. "Closing Distance - Toy Universe" cresce em passos gigantes e reverberações rumo ao espaço, apaziguada por ecos e inserções de notas e efeitos que misturam dub e house music. As paradinhas ditam o ritmo e tiram qualquer preconceito sobre som cabeçudo: é prova de excelência de produtores que são DJs, e vice-versa.
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Peter van Hoesen - Closing the distance - Toy universe (mp3)
"Testing a Simulacron" é o último espasmo chapado de
Entropic City, que surge numa linearidade hipnótica e cresce entre loops e efeitos desordenados e divertidos, as sempre eficazes vozes de aeroporto ou coisa similar ao fundo. "Terminal" e "Strip it, Boost it" surgem um pouco disformes em relação à temática do disco ao exibirem sons e propostas tradicionais.
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Peter van Hoesen - Testing a simulacrum (mp3)
Diferente da abstração do IDM, que ganha leituras monstruosas em artistas como Aphex Twin, Van Hoesen não consegue fugir do estigma humano. Mesmo a ideia de "Colony - Return of the Object" é mais um confronto
a la Blade Runner entre homem e máquina do que a evolução física alienígina: os beats estão correndo e os efeitos tentam dilacerá-los, como que numa luta.
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Peter van Hoesen - Defense against the self (mp3)
O desfecho de "Defense Against the Self" ('
defesa contra si') expõe esse martírio entre querer ser humano e artificial. Se essa crise ideológica de sua música traz incongruências nas variações conceituais, Van Hoesen garante seu cacife como produtor na grandiosidade de "Republic" e na verve em criar música em um álbum como um livro abstrato. Essa é a pura essência techno.
"Defense against the self " música pra momento de caída no techno "sério", foda!