O electroclash não morrreu. Ele foi eletrocutado em 8-bit e transformado num monstro sonoro que assusta criancinhas na forma do Crystal Castles, a barulhenta e amada dupla de electro do Canadá, formado pelo produtor Ethan Kath e a delicada e histérica Alice Glass. Depois de surgir no jacarézinho da onda new rave em 2007, o CC sempre foi marcado por ter forma, cor e sabor próprios, que agora evoluem de forma impressionante e curiosa em seu segundo disco, intitulado novamente apenas "Crystal Castles".
Afinal, com Ethan e Alice não tem frescura. Não precisam de nome bonitinho de disco, não enrolam pra lançar álbum (esse saiu um mês antes, após vazar na red), e também não tem nem muita paciência para público e para shows, tendo em vista as performance caóticas e irritadas de ambos (no Sónar de 2009 foi assim, e
acabou em pancadaria). Essa aura DIY e punk sempre foi ilustrada tanto no electrogore da banda quanto no seu visual, desde quando a demo de "Alice Practice" vazou e trouxe a banda ao olho de furacão e quando eles roubando para si, sem autorização, uma curiosa imagem da Madonna esmurrada. Nessa fase 2010, o CCastles provoca novamente e estampa logos da Chanel em suas imagens, além de colocar uma gótica mirim bizarra na capa do disco.
Alice Glass

Este segundo álbum é um avanço nas possibilidades de seu som e também uma evolução em termos de acabamento e produção. A síntese histérica e 8-bit de "Alice Practice" e "xxzxczx me" está lá, mas a vontade pop está mais bem trabalhada, ministrando doses de electroclash e new electro (pense em Simian Mobile Disco). Alice Glass, que já deu bastante o ar da graça, agora é um mero elemento do cacife criatico de Ethan Kath, que se destaca cada vez mais como bom produtor. Além dos berros da garota, Kath picota, molda e brinca com variações tonais, distorções de voz e fusões entre loops/elementos e barulhos guturais, no melhor estilo The Knife.
"Year of Silence" é o destaque absoluto: um som Fischerspooner vampiresco que cresce assombrosa em um jogo entre preces demoníacas e cantos gemidos de Alice - na real nem parece a voz bem feminina e tensa da cantora. Antes trancafiados na alma de um console de videogame dos anos 80, o Crystal Castles agora parece conseguir sair para o mundo exterior através das tumbas de um cemitério, personificados pela garotinha freak da capa do disco. Mas como nem tudo é maldição, a faixa cresce em beats cavalgantes e lampejos estelares, trazendo uma instigante dubiedade entre bem e mal. Sente o drama...
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Crystal Castles - Year of Silence (mp3)
Essa é a grande novidade de
Crystal Castles (2): os novos personagens subhumanos criados através do electro. Alice Glass ainda está lá, para quem gosta, mas os momentos em que soa como o CC de sempre podem até soar manjados. "Doe Deer" é electropunk extremo, mas imita a fase "Take me to the Hospital" do
último disco do Prodigy. "Fainting Spells" abre o disco como uma boa promessa, mas seu motor afogado de synths acaba soando apenas como uma intro, com Alice desfigurada. Numa análise até exagerada, parece que Kath luta, com misoginia aguçada, contra a própria presença da garota na música, culminando com o dilaceramento dela na última faixa, "I am Made of Chalk", em que ela é devolvida a canibais do 8-bit. Exterminada, Alice para de espernar e surge uma linha atmosférica, como se sua alma fosse levada para o purgatório.
O que vale para Alice aqui são suas investidas mais pop e deslumbradas, uma delicada evolução do electroclash de Ladytron e afins que perde o estigma fashion e ganha a aura pós-pós-moderna e de fábula monstruosa de The Knife, Fever Ray e afins. "Celestica" é quase um trance pop e baba de rádio, com pistões que elevam a voz de Alice até a bombação synth espacial, tudo bem adocicado. "Suffocation" é um voo ainda mais alto neste céu electropop, com a garota cantando, afinada, junto de synths angelicais e elétricos. Quem é devoto do 8-bit extremo da dupla, vai achar que o CCastles pendeu para Tiësto...
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Crystal Castles - Suffocation (mp3)
Como o caos é um dogma da personalidade Crystal Castles, estas variações de humor e de interpretação electro são dispostas de forma incoerente, sem linha narrativa ou fórmulas pré-estabelecidas de álbum. Todas as 14 faixas poderiam ter sido lançadas em EPs ou demos, e "Year of Silence" e "Empathy" acabam se destacando por fundir todos esses elementos em um som novo para a dupla, diferente de tudo que foi feito nos últimos anos. De novo usando a referência, é o mesmo assombro de quando o Simian Mobile Disco surgiu com "
Hustler".
O primeiro disco do Crystal Castles foi uma espécie de coletânea de sua gênese DIY 8-bit, e as tentativas pop que surgiram ali eram estranhas porque não conseguiam se libertar dessas amarras de videogame. Com este disco 2, Ethan e Alice conseguiram desmembrar com perfeição essas variações de identidade e criaram não uma, mas várias músicas de destaque, assim como "Knights" e "Crimewave" foram há 2, 3 anos atrás. O disco confirma o bom potencial do grupo ao passar pelo desafio do segundo álbum, e mostra também que electro é o gênero da eletrônica mais aberto a possibilidades de interpretações musicais.
Ainda bem que vou poder conferir tudo ao vivo!!
Pior que passou batido mesmo!
http://orelha.bitsmag.com.br/2010/05/08/castelos-de-cristal/