Matthew Herbert - One One
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ficha técnica
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2010
Selo: Accidental Records
Estilos: Pop, techno-pop, jazzy
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Matthew Herbert - One One
Produtor desnuda sua intimidade em álbum todo produzido, composto e cantado por ele
05.05.10 14:35
O peso da genialidade é grande. Ser excêntrico e criativo na música, quando é uma constante celebrada, acaba virando armadilha para músicos, que ficam presos à obrigações inconscientes e expectativas. Imagine como deve ser para Matthew Herbert, o cara que gravou de camisinhas e comida, que fez Róisín Murphy criar canções com seus diários de papel (literalmente), e que agora está musicando a vida de um porco, do nascimento até virar linguiça nos pratos dos humanos.

No prefácio da trilogia One, o músico inglês chama para si a responsabilidade e lança One One, um agradável álbum todo composto, musicado, produzido e - a novidade - cantando por Herbert, sozinho. É um realce intimista em sua carreira, pouco mais de um ano depois de lançar o jazzístico e megalômano There's me And There's You com a sua Big Bang de 18 músicos. São 10 faixas intituladas cada uma com o nome de alguma cidade, uma relação estritamente pessoal e global que só faz sentido para o próprio Herbert.

Matthew Herbert, o homem
Matthew Herbert, o homem


O status jazzista e experimental dá espaço a uma malemolente ênfase no pop: canções curtas, de bases e notas simples, que falam de elucubrações sobre a vida e o amor (uma mulher é constantemente o sujeito oculto), com foco na repetição. Sobrou um ranço jazzy dos últimos álbuns, e Herbert se mantém fiel à sua essência eletrônica, agora disposto a apresentar uma sonoridade intrinsicamente sua, orgânica e não-apropriada, que não seja apenas veículo de maluquices com objetos cotidianos e exumações políticas em forma de música abstrata.

"Leipzig" é o single inicial e, ao menos para mim, é uma das grandes músicas de 2010. O clipe, gravado na Fabric londrina, explicita bem o momento "Matthew Herbert, o homem". O cantor está nu (o rei?), dançando como Michael Jackson (o bobo da corte?), e hesitando na hora de cantar e sempre com alguma sombra ou mão desconhecida lhe tocando, raspando seus pelos. Sua voz é de fato um pouco insegura e afônica, mas é também gentil e doce, afinada.

Quem reconhece o inglês como o "produtor da Róisín Murphy", ou é amante fiel da parceria com Dani Siciliano, pode achar a cantoria um pouco indigesta. Mas como dito, está é uma afirmação do homem, que sempre esteve à sombra do canto de suas sereias. E não dá para resistir a esse jogo de notas grave e à tímida base boogie-woogie, que saltam ao lado do recorte de backing vocals que Herbert gravou e criou com sua própria voz, algo presente no disco todo. Dá a impressão de haver um coro e lindas morenas de backing vocal ao seu lado, repare.



Seria One One fruto de uma crise criativa, ou mero capricho do ego? Espero que os dois, a resultar numa maturidade e no seu mais honesto e despretensioso disco. Há de se ressaltar o risco que o autor corre, isso para um produtor que já se deu à tarefa de regravar clássicos do cinema e vem desde os anos 90 como bom produtor indiscutível de música eletrônica (house music, basicamente). E se o ouvinte espera algum atestado político ou uma revolução na orquestração musical, Herbert se limita a clamar por sua casa na faixa "Berlin" ("this is home.. this is home"), um despertar musical com reverberações líquidas, imersas em sonho.

Flash Content
Matthew Herbert - Dublin (mp3)

Ao mesmo tempo contido, One One parece se preocupar em manter tudo sob controle, resultando em alguns momentos introspectivos como "Berlin" e a deliciosa "Tonbridge", que celebra influências psicodélicas e surreais de Bernard Fevre (o Black Devil Disco Club), Jean-Michel Jarré e Kraftwerk. Na transição para o entusiasmado pop de "Leipzig" e afins, está uma levada cosmopolita, que beira o tropicalismo na deliciosa "Dublin". A voz de Herbert aqui lembra Caetano, e de fato o brasileiro soaria desta forma hoje se fosse um cara menos comprometido com a brasilidade.

"Porto" é cinematográfica, grandiosa, outro ponto alto. Seu ritmo de locomotiva lembra a influência do jazz em musicais da Broadway. Há um rasgo de electro crescente que realça a tensão junto com o vocal de Herbert, que é colado em várias camadas. Uma música tão atraente que não soa suficiente em meros 5 minutos. "Milan" é mais relaxada, tem poucos elementos e é como se a aura "excêntrica" de Matthew Herbert fosse fotografada numa canção: bem-humorada, lúdica, charmosa e urbana.

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Matthew Herbert - Porto (mp3)

Ao ouvir One One, não é difícil você se pegar atentando a cada elemento, cada barulho e efeitinho para identificar de onde Herbert extraiu o som. Com a expectativa de ser um ourives da música, a personalidade do autor acaba por se confundir com a própria expressão artística, e por mais que essa resenha tente desvendar sua intenções sinceras e seu meio de expressão, Herbert é definitivamente capaz de pregar peças nos ouvintes - essa é a graça.

Para os militantes que esperam o engajamento pura e simplesmente, é bom lembrar que a política parte única e exclusivamente do indivíduo para as massas (e não o contrário). Herbert deve ter percebido, então, que era hora de se desnudar um pouco, mostrar quem ele é, e daí ter a legitimidade de usar a música como protesto, de pegar qualquer elemento do mundo e da vida para se expressar artisticamente.

Com a trilogia One seguindo agora para as versões "club" e "pig", Herbert traça bem uma autobiografia: o homem que usa os ritmos orgânicos no som eletrônico, e que retrata a vida. Agora que conheço ainda mais o homem, não vejo a hora de cair na pista com ele.
MP3
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Matthew Herbert - Milan (mp3)

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Matthew Herbert - Tonbridge (mp3)

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Matthew Herbert - Berlin (mp3)


Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários
4 comentários
CAio C B
CAio C B(06.05.10)
1AprovadoQueima
Puro sangue! FReak FREAk!
Dá pra escutar lendo "Contraponto" Huxley, ahahhah fiz esses dias atras
 Markan
Markan (06.05.10)
1AprovadoQueima
Tenho ouvido a Leipzig no repeat.(2) e colocando sempre para as pessoas ao meu redor escutarem também. Não tem quem consiga não gostar dessa música.
Marcio Vermelho
Marcio Vermelho(05.05.10)
1AprovadoQueima
Álbum lindo, Herbert em essência. Tenho ouvido a Leipzig no repeat.
Ótima resenha!
 Markan
Markan (05.05.10)
1AprovadoQueima
Gênio. Respect forever!