Depois de escancarar seu ideário político em 2008, segunda parte da trilogia de Badu fala de amor e é seu melhor disco até hoje
Dois anos atrás os Estados Unidos (e por consequência o planeta) estavam em ebulição com a emergente campanha de Barack Obama, um marco político e racial concretizado com a eleição do primeiro presidente norte-americano negro. Foi quando Erykah Badu retornou aos holofotes, política e agressiva, para lançar
New Amerykah Part One (4th World War). Lançado como uma trilogia prometida para o ano de 2008, só agora surgiu a segunda edição intitulada
New Amerykah Part Two (Return Of The Ankh).
Nesta "quarta guerra mundial" Erykah reforçou seus preceitos muçulmanos, ao mesmo tempo que fundia seu nome com o de seu país, e criava brilhante hip hop para tentar identificar o papel do indivíduo na sociedade. Já este novo trabalho, que traz em seu título a idéia do
Ankh (símbolo do Egito que simboliza a vida), trata do amor e dos sentimentos.

Tal temática tem como cerne a própria Erykah, que desde seu surgimento tratou sempre de si em sua música (não à toa seu primeiro disco se chama
Baduizm). E
New Amerykah Part One é uma tempestade de discursos, pregações muçulmanas, tiroteios e nervos tensos da black music,
Part Two é descolado, mais relax, cheio de suingue, bom-humor e, em se tratando de Erykah Badu, uma cachoeira de sensualidade.
Mas a política não foi deixada de lado. O vídeo do primeiro single, "Window Seat", foi gravado em "estilo guerrilha" em Dallas, cidade-natal de Erykah, inspirado pelo clipe dos peladões
Matt & Kim. Num take só, Erykah caminha pela cidade e vai se despindo até ficar nua no exato local onde o presidente americano John F. Kennedy foi assassinado em 1963. Gravado por um cameraman escondido, o vídeo também registra a reação estupefata e paralisada dos transeutes ao redor. Para a cantora, o clipe homenageia o político democrata ("um revolucionário") e serve para associar a ideia de um assassinato à 'completa exposição que um indivíduo pode sofrer". Intenso.
Com a repercussão Estados Unidos afora, Erykah Badu acabou sendo condenada a pagar uma multa de US$ 500 por desordem pública. A prisão foi cogitada por alguns.
Erykah Badu - Window SeatErykah, 39 anos, é uma mulher e tanto. Linda, seguidora do islamismo, três filhos de três pais diferentes (todos rappers, um deles sendo o Andre 3000 do Outkast), ela tem uma voz polida e preguiçosamente sensual que vai na mesma estrofe de tons agudos do R&B ao
crooner jazzístico, esquisitão. Uma artista com cacife o suciente para dispersar polêmicas políticas e também pronunciar em música suas ideias de amor, tudo no mesmo disco.
As faixas do disco (e da tal trilogia) vêm sido elaboradas desde 2005, contam com a produção de uma galera (inclusive o falecido J. Dilla), e usam os samples não só como técnica, mas como elemento essencial, um instrumento que cria a base e traz a inspiração da canção - ao ouvir o disco você terá grudado na sua cabeça trechos de versos e picotes de samples repetidos por Erykah, e não refrões.
Alguns podem até achar que ela mais sussurra e repete linhas fáceis do que canta, mas isto é compreensível num disco semi-erótico: despedidas esclarecidas, saudades e lembranças de amor preservadas são uma constante (a mulher teve 3 filhos com 3 pais diferentes!).
Mais que racionalizar, Erykah expressa os sentimentos, canta as sensações por sua música, orgânica e sincera. "I like how you make me feel / i love how you make me feel" é repetido, objetivamente, em faixas como a sugestiva "Umm Hmm", por exemplo.
Flash Content
Erykah Badu - Gone Baby, Don't Be Long (mp3)
"Gone Baby, Don't Be Long" mostra Erykah apaixonada, cantando "
I can't wait to see how you move" num funk bem calminho, com a levada constante da bateria e sussurros sampleados ao fundo, conjunto que daria um excelente remix deep house. O hip hop aqui está na alma, mas não é o forte, pois este
Part 2 abusa da orquestração e do improviso jazzístico, e traz muito da doçura pop do R&B.
Outro momento que reflete esse momento: quando entra o piano de "You Loving Me (Session)", a mente é pura sinestesia e os ombros se movem, junto da deliciosa baqueta do baterista. AÍ vem Erykah cantando como menina, até que ela para tudo e brinca "foi terrível, não", com a música acabando entre risos dela com os músicos.
New Amerykah Part Two (Return Of The Ankh) não celebra só JFK e a vida romântica de sua protagonista, mas também homenageia a raíz Motown da música negra que Erykah exala de mansinho neste disco, não à toa lançado pela encarnação atual do famoso selo de Detroit, a Universal Motown. Mas se Diana Ross era um talento submisso, Erykah é mulher do século XXI, época que - repare - vive uma overdose de divas. Ela ocupa seu espaço de forma discreta e atraente neste panteão. Não é um ícone sexual, mas seu carisma se dá de forma erótica. E este álbum, pela levada repetitiva, de orquestração mais "eletrônica" e cheia de groove, é uma espécie de retorno aos pilares de
Baduizm (1997), em que sua música também era uma auto-afirmação necessária e bem-sucedida.
Deste modo,
New Amerykah Part Two (Return Of The Ankh) é o ápice da carreira da cantora ao revisitar suas características mais celebradas e ao fugir, como sempre, da superficialidade do show bizz. E também por mostrar Erykah linda e sincera, sem medo de andar nua em protesto, de ser muçulmana e ter - de novo - três filhos de três rappers diferentes num país careta e reprimido como os Estados Unidos.